De uma crise a outra, dos anos de Miterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 1ª Parte: Os tempos Miterrand, tempos de inverno Texto 1.1 – A pedagogia do erro

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

1ª Parte: Os tempos Miterrand, tempos de inverno

 Texto 1.1 – A pedagogia do erro

[excerto de um texto de Laurent Joffrin, 1984]

Há um neorrealismo francês. Em dez anos de crise, tentaram-se todos os medicamentos possíveis receitados pelos médicos de todo o mundo. Nenhuma terapêutica deu resultado. Durante muito tempo, no entanto, os Franceses têm-se recusado em encarar a situação de crise em que nos encontramos. Durante quase uma década, cultivaram a ilusão do fim do túnel, recusando-se a aceitarem qualquer baixa do poder de compra, continuando na sua procura sem fim do bem-estar material, negligenciando o investimento; como se a redução do ritmo do crescimento e a subida do desemprego devessem esfumar-se como se tenham sido apenas um mau sonho sobre a situação económica. Longa, dececionante, rebelde a todas as políticas aplicadas, esta crise acabou por forçar os mais míopes a estarem lúcidos. Mas faltava um evento político. Metade dos franceses, agarrados a uma oposição que repetia alto e bom som que a crise não era uma fatalidade, com a preocupação de não isentar a maioria das suas responsabilidades, acreditava de boa-fé que as estruturas económicas e a má vontade dos dirigentes da época eram os responsáveis do marasmo. Uma “outra política”, uma “outra lógica” deviam permitir libertar a produção, criar empregos, salvaguardar o poder de compra. Na verdade, acreditavam eles que havia uma outra política? Em todo caso, queriam estar descansados quanto a isso. Foi o desafio do 10 de maio[1]. Uma vontade nacional de dizer “resistimos” aos que se manifestam desde há muito tempo nas margens da História.

Por não se terem analisado a profundidade da crise, por não terem percebido a amplitude da reversão histórica, os socialistas normalmente cheios de certezas falharam este encontro. “A outra lógica” quebrou-se não sobre o muro do dinheiro, mas sobre o da realidade. Mas também nos prestaram um grande serviço: o relançamento falhado da economia, o colbertismo impotente que definiu a sua política durante um ano, até à viragem para a política de rigor, tiveram o mérito de vacinar a opinião pública. O estado de graça funcionou, sobretudo, como uma pedagogia da crise. Uma pedagogia pela asneira: enganando-se com um constante entusiasmo, mas tendo alguns meses mais tarde a coragem de reconhecer – em parte – os seus erros, os socialistas desacreditaram por uns tempos as poções mágicas das quais os homens políticos fazem os seus programas. Pode-se esperar que o debate público ganhe em qualidade? Fora dos balanços políticos feitos, dos argumentos e das acusações partidárias, isto será o principal benefício da alternância.

Há um outro benefício: o retorno da sociedade civil. Este primeiro ano de poder socialista, tão prejudicial para o socialismo, terá sido o de um estatismo virulento. Seja o que for que tenha feito durante este período de ilusão lírica dos jovens socialistas barbudos, o governo esteve disposto a pôr em pratica um slogan herdado de setenta anos de jacobinismo temperado com um molho à Marx: o Estado, ainda o Estado, sempre a partir do Estado. A retoma da economia, as nacionalizações, novos impostos, planos industriais: tudo ia para o Estado, tudo vinha do Estado. Mas tudo falhou, ou quase tudo. Nos doze meses que se seguiram a este ano ilusório, foi preciso queimar às escondidas tudo o que adorávamos. Não se poderia encontrar melhor reabilitação da iniciativa [privada] e do indivíduo. O Estado estava claramente disposto a combater a crise mas meteu os pés pelas mãos, falhou redondamente. Agora, é mesmo necessário dar algum espaço para os atores reais. Porque é na vida cotidiana que a grande mudança se manifesta mais claramente. Tal como estas velhas fortalezas relegadas a terem um papel secundário devido à evolução da arte militar, a massa pardacenta do Estado francês assemelha-se cada vez mais a um castelo inútil. A vida está algures, em outros lugares, ela emana da crise, através das empresas, através da iniciativa, através da comunicação. É a ironia de uma história que brinca ao jogo de quem perde ganha. É a esquerda submissa e reverente perante o Estado que é disso a prova e de uma forma bem clara “.

Laurent Joffrin

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[excertos de artigo de Serge July, 1984]

Em texto recordado por Regards.fr. “Vive la crise !”, une fable de trente ans”, a propósito do número especial Libération Antenne 2, de fevereiro de 1984, pode ler-se a respeito de um texto de Serge July incluído nesse número:

“O texto de Serge July aprofunda o mesmo registo [o da austeridade de que os media faziam a defesa]: “nunca mais será como dantes“, “a palavra de ordem já não é «mudar a vida» mas mudar de vida“, “não há nenhum médico milagroso” em face dos riscos de “subdesenvolvimento“. E continua: “é necessário transformar os sujeitos passivos em sujeitos ativos, é necessário fazer dos cidadãos assistidos, cidadãos empreendedores. (…) Quais são os símbolos do que é conhecido como Estado-Providência? Segurança social, abonos de família, subsídio de desemprego, segurança de se ter uma pensão de reforma… Os povos ocidentais viveram numa espécie de oásis social (ouate) desde há vinte anos.»

Depois, em tom liberal-libertário, July apela a “uma grande revolução cultural ocidental“, esperando com ela dar «a cada um de nós o desejo de mudar de vida, ou seja, ao longo da vida mudar várias vezes de profissão, de morada, possivelmente até ao país de residência e, consequentemente, de cultura, amigos e de parceiro conjugal, mantendo-nos iguais a nós mesmos.» Haverá melhor que uma filosofia de publicitário para resumir um tipo de discurso que nega as ideologias para melhor poder impor a sua?”

Nem a Troika se atrevia a escrever este texto, mas isto lembra-nos as almofadas de conforto de que falava Passos Coelho! Tão longe e tão perto, afinal.

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Fonte: Dada a distância que nos separa da edição destes artigos, não os conseguimos obter na íntegra, mas sim por internautas zelosos que mantêm disponíveis estes excertos. Escrevemos ao Libération não tivemos êxito.  Os excertos foram obtidos em:

[1] François Mitterrand ganhou as eleições para Presidência em 10 de maio de 1981.

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