De uma crise a outra, dos anos de Miterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 1ª Parte: Os anos Miterrand, anos de inverno. Texto 1.3 – 1983: enfrentar a crise

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

1ª Parte: Os anos Miterrand, anos de inverno

Texto 1.3 – 1983: enfrentar a crise

Entrevista a François Stasse, em 21 março de 2005 (Instituto François Mitterrand)

Política económica:” A viragem para a política de rigor “

François Stasse foi conselheiro económico do presidente François Mitterrand de 1981 a 1984. Voltemos a este período decisivo onde foram feitas escolhas decisivas para a Europa.

Que papel desempenhou a Europa nas escolhas económicas do período 1982-1983 e nomeadamente aquando da crise de março de 1983?

François Stasse – para compreender a sequência 1982 – 1983, é necessário primeiro que tudo recordar que as escolhas económicas de 1981 obedeceram a uma lógica de política interna. Tratava-se, nomeadamente com uma forte revalorização do poder de compra das famílias de fracos rendimentos, de mostrar que a Esquerda levava a bom termo a sua tarefa histórica e, de passagem, demonstrar aos eleitores comunistas que tinham tido razão em confiar num presidente socialista.

O problema é que esta estratégia política foi posta em prática num momento desfavorável. Com efeito, o início dos anos 80 foi marcado por uma forte redução no ritmo de crescimento e isto no conjunto do mundo ocidental, nomeadamente na Alemanha, o nosso principal parceiro comercial. A consequência desta diferença de conjuntura entre uma procura dinâmica em França e uma tendência depressiva na Europa e nos Estados Unidos era inelutável. As nossas exportações diminuíram enquanto as nossas importações explodiram. O défice da nossa balança comercial rapidamente disparou o que não demorou a pôr em perigo a estabilidade da nossa moeda.

É somente a partir deste momento que a ancoragem europeia da França teve um peso evidente. Primeiro porque, enquanto membros do SME (Sistema monetário europeu), tínhamo-nos obrigado a uma certa disciplina das nossas contas públicas, e os nossos parceiros não deixavam de no-lo sublinhar, às vezes até com muito vigor. Esta rude franqueza era normal dado que o próprio princípio do SME era que, quando um dos membros estava dificuldade, os outros vinham em seu auxílio emprestando-lhe o dinheiro de que tinha necessidade para financiar os seus défices[1]. O outro 1983: enfrentar a crise salvaguardando a importância da escolha europeia é o que o presidente Mitterrand desejava muito. Era um compromisso muito antigo nele, e que assentava em motivos históricos, políticos e culturais profundos.

Os partidários “da outra política”, como se dizia então (desligar o franco do SME), tiveram eles alguma probabilidade de o conseguirem junto de Mitterrand?

François Stasse – Sim, o presidente refletiu longamente sobre este tema. Na minha opinião por pelo menos três razões. A primeira é que, como qualquer chefe de Estado sem dúvida, não gostava dos contrários. A ideia de não poder efetuar a política económica e social que desejava porque era incompatível com as disciplinas europeias que tínhamos subscrito contrariava-o vivamente. Em segundo lugar, não tinha uma grande confiança nos raciocínios económicos. Estou bem colocado para saber que, quando se tinha que lhe demonstrar, no sentido científico do termo, que uma saída do franco do SME teria diversas consequências graves para a economia francesa, ele ficava sempre com dúvidas. Mitterrand pensava que os fatores políticos eram de um peso superior à razão económica. Por último, acredito que era lúcido sobre o facto que a escolha de manter a ancoragem europeia da França conduziria a ter que alterar a sua linha de orientação económica estabelecida em 1981. Na sua qualidade de estratega da União da Esquerda, que o tinha levado ao poder, não podia ser insensível a este aspeto do problema. Era evidente que o que se chamou “a viragem para a política de rigor ” em março de 1983 não era a continuação da mesma política sob outra forma, contrariamente que o discurso oficial dizia então, mas sim uma verdadeira e decisiva viragem na orientação da política económica.

Neste contexto, o presidente escolheu pois a opção Europeia. Pessoalmente penso que a perspetiva de uma França isolada da Europa lhe era insuportável no momento mesmo em que a ameaça soviética continuava a exigir a solidariedade franco-alemã de que ele se afirmava defensor como o afirmou no seu famoso discurso no Bundestag. Acrescento, apesar do que eu disse sobre a sua relutância sobre toda e qualquer ciência económica, que não creio que os partidários da “outra política” conseguissem convencer o Presidente de que esta opção lhe deixaria as mãos mais livres para alcançar os objetivos económicos e sociais do programa de 1981. Pelo meu lado, estava convencido do contrário e esforcei-me por explicar-lhe que uma tal “política alternativa” iria criar imediatamente um movimento radical, de desconfiança de todos os nossos parceiros estrangeiros com consequências para o colapso da nossa moeda, para a fuga de capitais e para a necessidade, finalmente, de uma viragem ainda mais rigorosa do que aquela que foi estabelecida em Março de 1983.

Quem são os atores que desempenharam um papel mais determinante entre os ministros, os conselheiros ou os amigos políticos?

François Stasse – Este é um episódio que tem sido bem mencionado em vários livros, especialmente em “La Décennie Mitterrand”, de Favier e Martin-Rolland. Portanto, eu não tenho nada a acrescentar sobre o papel determinante do primeiro-ministro Pierre Mauroy, que, no momento da escolha crucial, disse ao presidente que se a “outra política” fosse implementada, então sê-lo-ia sem ele. Dada a forte relação pessoal que o ligava a Mauroy, a determinação deste último foi essencial. A conversão da esquerda francesa à modernidade económica deve pois muito à coragem deste homem da França industrial do norte. As suas raízes sociológicas poderiam tê-lo levado a ter reflexos protecionistas, o que teria precipitado a queda da França e da Esquerda. E ele não cedeu aos primeiros ventos do soberanismo. Se o Partido Socialista é agora a única força alternativa na cena política francesa, como os seus homólogos o são em todas as outras grandes democracias é devido, em boa parte, à clarividência de Pierre Mauroy nesta ocasião.

Também devemos mencionar, é claro, a batalha obstinada do Ministro da Economia e Finanças da altura, Jacques Delors, que defendeu com toda a sua competência a opinião de Pierre Mendès-France de que um grande país não pode ter contas fora do seu controlo. Ele estava numa posição difícil, em primeiro lugar porque todos os ministros se associam sempre para conspirar contra aquele que detém os cordões da bolsa, e depois, porque tendo combatido contra Rocard no congresso socialista em Metz no ano de 1979, era suposto que iria apoiar a linha de maioria do PS que tinha estabelecido o programa económico inadequado de 1981. Mas ele sabia bem que, em termos de escolhas económicas a serem feitas, era Rocard que desde o início tinha razão. Delors, portanto, logo que foi politicamente possível, ou seja, no outono de 1981 apelou para uma política económica mais rigorosa. É esta a política que foi definitivamente posta em prática a partir de março de 1983.

Estes dois altos responsáveis políticos apoiaram-se no trabalho de vários assessores de alta qualidade, sendo impossível aqui mencioná-los a todos. Saliento apenas, junto do primeiro-ministro, a influência de Jean Peyrelevade, Henri Guillaume, Daniel Lebègue e Hervé Hannoun, bem como, junto do Ministro da Economia e Finanças, a influência de Philippe Lagayette, Pascal Lamy, Isabelle Bouillot e Jérôme Vignon. Devemos também mencionar o papel de Laurent Fabius, jovem ministro do Orçamento, que, como sabemos, era muito bem ouvido pelo presidente, assim como devemos também referir o trabalho dos seus assessores, Louis Schweitzer e Patrick Ponsolle. O trabalho de todas estas equipas pesou na balança, especialmente porque eles estavam todos no mesmo lado da fronteira que separava a “outra política” daquela que foi escolhida em março de 1983. Devo dizer que foi também o caso dos conselheiros económicos do presidente, que, com exceção de Alain Boublil, conselheiro para as questões industriais, eram todos partidários da chamada “política de rigor”. Tratava-se de Christian Sautter, secretário-geral adjunto do Eliseu, Élisabeth Guigou, consultora para as questões económicas internacionais, e eu próprio. O nosso ponto de vista era partilhado pelos dois colaboradores mais próximos do presidente, Jean-Louis Bianco, Secretário-Geral, e Jacques Attali, conselheiro especial. Eu penso que o facto de os seus principais assessores neste domínio terem defendido a mesma orientação teve muita importância.

Entre os partidários “da outra política”, penso que aquele que o Presidente mais escutou foi Jean Riboud. Era um empresário que tinha tido muitíssimo êxito, na França assim como nos mercados internacionais. Ele dizia que o que fazia ganhar uma empresa assim como um país, é a competência, a imaginação e o talento dos seus quadros e dos seus engenheiros e não os conceitos económicos abstratos. Por caráter e por intuição política, François Mitterrand estava bem mais próximo desta maneira simples e humana de ver a economia do que o que eu próprio ou outros lhe podíamos dizer e que considerava sem dúvida como uma visão demasiado tecnocrática das coisas. No entanto, por razões que já indiquei, não seguiu os conselhos do seu amigo Jean Riboud, que eram compartilhados por muitos outros.

Que recordações pessoais guarda deste período em que era conselheiro económico de François Mitterrand?

François Stasse – Um livro não chegaria para responder a esta pergunta! Limito-me por conseguinte aqui a dois pormenores. Tratando-se do trabalho no Eliseu guardo a lembrança de toda uma equipa jovem (muitos de nós pouco mais tínhamos que trinta anos), e trabalhando num clima amigável, mesmo quando estávamos em desacordo. Tratando do fundo das coisas, pelo meu lado eu vivia obcecado com o malogro económico da Frente popular e, num período mais recente, com o da Unidade popular do presidente Allende no Chile. Eu queria evitar custasse o que custasse que a Esquerda cometesse erros económicos que lhe colariam à pele uma imagem de incompetência de que ela levaria meio século a recuperar.

 

1983 : affronter la crise, interview a François Stasse, Institut François Mitterrand. Texto disponível em : http://www.mitterrand.org/1983-affronter-la-crise.html

[1] Nota de tradução. E do que o autor não fala. O dinheiro era também necessário para defender as moedas dos ataques especulativos. Uma das ferramentas, os swaps entre os bancos centrais. Lembram-se de James Goldschmit? Em Portugal editou-se o seu livro A ratoeira, pela Terramar.

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