De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 2ª Parte Os tempos de Lionel Jospin, tempos de vazio Texto 2.4 – Muray, memória de uma quinzena antifascista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2ª Parte Os tempos de Lionel Jospin, tempos de vazio

Texto 2.4 – Muray, memória de uma quinzena antifascista. 2002-2017: um período entre as duas voltas, o de agora, vem substituir o período de entre as duas voltas de outrora.

Publicado por Le Causeur, 3 de maio de 2017

De uma crise a outra 2 Parte texto 2_4

Manifestação anti-FN em Lyon, maio de 2017, SIPA.

Excerto de Exorcismes spirituels, tomo III, de Philippe Muray(*), publicado em 4 de outubro de 2002

Por si mesmo, Le Pen não é nada. Nada mais nada menos que uma estrutura inflável que veio para preencher, em 21 de abril último, tudo o que subsiste de real. Le Pen é a figura que assume a realidade quando toda uma sociedade em mutação “tecnóide” a expulsa pela porta e esta regressa para se fazer convidada para o festim, sob o nome por exemplo de insegurança, saltando pela janela. Le Pen é a cabeça que assume a realidade quando nós a deixamos muito tempo lá fora, nas trevas externas e onde contraiu a peste. Le Pen é a bexiga inchada de todos os resíduos do mundo concreto, ainda não transformados pelos processos de ciber modernização ilimitada de que o nosso tempo esta á a ser vítima.

Le Pen é uma ocupação. Le Pen dá a estes meios-saldos da história a impressão de viver pois que eles estão vigilantes e em estado de alerta.

Sem esses vestígios ainda suspensos um pouco por todo o lado e que se foram embrulhar no seu nome, na noite da primeira volta das eleições presidenciais, porque não tinham encontrado pior mercado, Le Pen seria relegado para a loja das antiguidades com a sua quinquilharia de trocadilhos, de latim de cozinha, de Indochina, de Argélia, e a sua coleção de cassarolas negacionistas. É provável que ele nunca tenha querido o poder porque o cúmulo de prazer que lhe dá o horror que ele suscita é para ele uma satisfação mais forte que o exercício do controlo.

Quando o via na televisão, nos últimos dias da campanha para a segunda volta, estava a lembrar-me do texto onde Borges evoca a visita que recebeu em sua casa em junho de 1940, de um “germanófilo” que veio anunciar–lhe triunfalmente a entrada do exército nazi em Paris. “Eu senti, escreveu Borges, uma mistura de tristeza, desgosto, de mal-estar. Houve qualquer coisa que me paralisou que eu não pude compreender: a insolência da alegria não explicava nem a voz tonitruante nem a forma brusca de me dar esta informação. Ele acrescentou que esses mesmos exércitos iriam em breve ocupar Londres. Toda e qualquer oposição era inútil, nada podia parar a sua vitória. Então eu percebi que também ele estava aterrado”. E Borges comenta: “o nazismo sofre de irrealidade, como os infernos de Erígena. É inabitável; os homens só podem morrer por ele, só podem mentir por ele, só podem matar e fazer correr o sangue por ele. Nada mais podem fazer. Ninguém na solidão central do seu ego, pode querer ele triunfe. Arrisco esta conjetura: Hitler queria ser derrotado. Hitler, de forma cega, colabora com os inevitáveis exércitos que o irão aniquilar, como os abutres de metal e a Hydra (que não deviam ignorar que eles eram monstros) colaboravam, misteriosamente, com Hércules”.

O lepenismo, ele também, sofre de irrealidade, embora o real residual o tenha escolhido como um buraco negro. É inabitável e somente pede para ser vencido. Nesta perspetiva, ele colabora com os seus inimigos, os anti lepenistas. Mas são estes, então, que estão relutantes em executar esse trabalho de liquidação. Porque Le Pen lhes permite, gritando sem parar à “lepenização das mentalidades”, que lepenizem tudo o que lhes desagrada, todo e qualquer raciocínio que não lhes esteja conforme, todo e qualquer indício de lucidez dissidente, tudo o que poderia dificultar o avanço das suas inúmeras destruições enaltecidas. Le Pen é uma ocupação. Le Pen mantém todas as pessoas sujeitas à redução de tempo de trabalho RTTifiés no desemprego de tudo, depois da RTTernidade. Le Pen justifica-os. Le Pen dá a estes meios saldos da História a impressão de viverem, uma vez que eles estão vigilantes e em estado de alerta. Le Pen é o encenador da sua própria ociosidade. E é o justificador dos seus próprios crimes. É ele quem santifica a sua própria perseguição. Isso permite-lhe avançar. E de deixar em estado catatónico toda e qualquer reticência eventual em seu redor. Então, aqueles que criticam, e com toda a razão, a pretensa arte contemporânea foram acusados, durante o período entre as duas voltas, por uma barata transformada em jornalista do Le Monde, de estarem a “alimentar a ideologia do isolamento e do regresso à tribo”, ou seja, de estarem assim a fazer o jogo de Le Pen.

O problema dos anti-Le Pen não é Le Pen; o problema dos anti-Le Pen são eles mesmos.

Fazer o jogo Le Pen, quem é que fez isso melhor e com uma ciência mais consumada que o mortífero Mitterrand no seu tempo? Há, de resto, aqui algo de profundamente desagradável em ver a filha de Mitterrand dizer num programa televisivo que iria votar em Chirac ao mesmo tempo que tapava o nariz, sem que nenhum servo mediático se atrevesse a lembrar-lhe que se há alguém que habilmente dirigiu em seu proveito próprio, e durante quatorze anos, a bomba de mau-cheiro que explodiu nas nossas caras foi o seu pai. Da mesma forma, pela boca melosa dos seus representantes, a esquerda sublime e fracassada, mas sempre muito magnífica, nunca se privou de criticar à boa maneira de Tartufo a direita por não se manifestar ao seu lado na rua. E nunca ninguém ousou responder-lhe que primeiro que tudo se tratava da sua rua, globalizada e emburguesada (gloubiboulguisée) à sua imagem e semelhança, e transformada em espaços de criação, em zonas francas para a livre algazarra das sacralizadas raves tecno; e, sobretudo, que o Le Pen era destes críticos, da esquerda sublime. Deixa-lhes-se tudo isto. Quem mais é que aqui faz uso disso?

Para compreender nos seus segredos bem guardados o êxtase antilepenista destes últimos tempos, basta recordarmo-nos, ao contrário, do entusiasmo muito moderado que tinham suscitado nestes mesmos antilepenistas, no fim de 1998, a brutal cisão da Frente nacional. O editorialista Serge July, sob o impacto desta surpresa, que deveria ter sido bem ouvida e considerada, e justificadamente desta vez, como divina, mas que não o foi de forma alguma, chegou ao ponto de escrever com melancolia: “Jean-Marie Le Pen tornou-se bizarramente indispensável ao bom funcionamento da democracia francesa.”

Era necessário compreender que a modernidade embalada tinha necessidade dele para tornar as suas exigências, de qualquer forma, mais amáveis do que ele próprio; e que se ele deixasse de existir, seria necessário reinventá-lo. Pois bem, aí o temos. A desgraça dos tempos ressuscitaram-no in extremis. E se ele mesmo, com este sucesso, ficasse tão aterrado quanto “o germanófilo ” de Borges, e se quisesse profundamente, sem dúvida, também ser vencido, havia contra ele uma massa imensa que pedia que este pressionasse mais ainda; e esta massa de gente não se poupou a esforços de modo a que Le Pen o consiga, de modo a que esta gente continue também ela a existir. Porque o problema dos antilepenistas não é Le Pen; nunca o foi; o problema dos antilepenistas são eles próprios; e esperam de Le Pen que os ajude a viver ou sobreviver assim; porque Le Pen, é sempre melhor que nada; e mesmo, tal como os Bárbaros do famoso poema de Cavafy, Le Pen é “uma espécie de solução” (1).

Os antilepenistas não expressam um pensamento, expressam uma paixão.

No inverosímil concerto que se seguiu aos resultados da primeira volta, neste carnaval em que se arrastaram homens e mulheres choramingas, homens e mulheres que uivam como o lobo, flagelos culturais desfigurados, miríficas cabeças louras de adolescentes dos liceus e colégios que fazem a aprendizagem do seu ofício de parecerem gente importante, nesta ópera mitológica em que todo o país se dispõe a enfrentar a Besta, a nova humanidade é batizada como na água lustral. Procurava-se um nome, encontraram-no. Esta nova humanidade é agora anti-Le Pen. E isso chega-lhe, aparentemente, para se definir e fazê-lo de maneira apaixonada. Porque ser-se anti-Le Pen não é uma forma de pensar, é uma forma de paixão. Os anti-lepenistas detestam Le Pen, não se pode ter nenhuma dúvida quanto a isso; mas os anti-lepenistas gostam de forma apaixonada do estado em que os coloca esta sua animosidade. Nesta animosidade aloja-se uma parte essencial da sua identidade, a mais nobre, a mais sublime, a mais bela. Pode então exibir-se o seu ego transfigurado por uma tão intensa cólera. Sob os caminhos das suas boas intenções, está a raiva. Uma raiva oficial cuja legitimidade e mesmo a sua naturalidade não poderiam ser postas em causa. Nas paradas anti- Le Pen do período entre as duas voltas pode-se ver desfilar apaixonadamente qualquer um que tenha vocação para dominar os tempos que se anunciam.

A virtude enfatizada desfilou como nunca. A juventude devota, iluminada pela vertigem de meter medo, descobriu que era antifascista sobre patins e na base dos seus autocolantes. Os bons apóstolos dos amanhãs que se seguem a branquearem Le Pen empurravam os seus carrinhos de bébé em direção a um futuro brilhante, transformando a Grande Marcha lendária dos progressismos do passado numa intifada de berços. Abriam-se, nos edifícios, pequenos estúdios para fazer bandeirolas e criar slogans. Enquanto os editores juravam publicar nos prazos mais intrépidos “gritos de cólera da esquerda”, e que os artistas ficavam desolados por não serem “populares” nas cidades deserdadas e empobrecidas onde, no entanto, eles estão em missão, como os padres operários de outrora, e mesmo a serem injustamente considerados pelos excluídos como sendo agentes da exclusão.

Quanto à esquerda sublime do Partido plural único, provisoriamente em migalhas, ela nunca tinha aparecido nos seus melhores dias senão nestes cortejos admiráveis onde o orgulho de ser bom dava o braço à satisfação de ser puro, onde o arrependimento era mais que abundante, onde a cólera era alegria, e onde a transparência da alma se apoiava nos impulsos do coração. As delicadezas que se ouviam quando a esquerda explicava que ia votar Chirac depois de muitas e muitas reservas, todos estes finos escrúpulos, todas estas graciosidades e estes ares finos de quem vai engolir muitos sapos vivos que lhe eram oferecidos, faziam nascer um novo leque de esquerda tão rico e diverso como quando era esquerda plural; mas bem mais divertida. Vê-se assim aparecer a esquerda do foro interno e dos problemas de consciência, a esquerda enluvada e a esquerda desgostada, a esquerda às arrecuas e a esquerda de pinças, a esquerda emproada e a esquerda de cabeça baixa, a esquerda das restrições mentais, a esquerda lava-pés, a esquerda da urticária, enfim, toda a gama da esquerda profilática enrolada na sua imaculada indignação como num escafandro estéril. A esquerda bebé-bolha. A esquerda luneta. A esquerda das pinças. A esquerda passarinho. A esquerda dos beliscos. A esquerda não me toques. A esquerda indignada. A esquerda angustiada. A esquerda em delírio. A esquerda com náusea. A esquerda desolada. A esquerda virgem violada. A esquerda templo profanado. A esquerda ofendida e contra-ofensiva. A esquerda levantando a sua fobia à dignidade de uma visão do mundo, e ultrapassando ainda esta elevação do sacrifício admirável que ela fazia ao ir votar pelo objeto da sua fobia. Foi estranho descobri-la, ela que se tinha recentemente feito reconhecer a ter como propósito fundamental expulsar tantas fobias (eurofobia, homofobia, xenofobia, ginofobia), ela que, por sua vez, era tão fóbica. Mas tão orgulhosa também de ser assim. É claro.

“Contra os maus “

Toda esta parábola dos cegos contra quem tem um só olho! Alguns diagnosticaram, neste exibicionismo do grande medo dos que vivem bem e nesta grande efusão de alegria dos que se saem bem na vida, uma reaparição da política que se quer saber onde é que se andava, porque a política requer pelo menos o confronto de teses igualmente respeitáveis e defensáveis, enquanto que as teses de Le Pen não são nem respeitáveis nem defensáveis; Le Pen é o anti-mundo da política e tem feito tudo para o ser. Não é contra um adversário que tantos ativistas da Boa Causa têm desfilado, mas é sim contra Godzilla, King Kong, a Besta dos pântanos. Como os americanos, depois do colapso do World Trade Center, se tinham dirigido contra o Mal. “Como é que nos podem fazer isso, nós que somos tão puros, tão inocentes?”, perguntou-se a si mesma a esquerda mirabolante do governo. Sim, como é que foi possível desprezarem-na a este ponto, ela que estava tão feliz do seu balanço da obra feita e das suas conquistas, do euro, das trinta e cinco horas semanais, do emprego dos jovens, dos PACS (Pacto Civil de Solidariedade), da paridade, dos dias de dispensa por paternidade e de tantas outras coisas bonitas saídas da sua bota de Pai Natal social? Em última análise, nada melhor resume o que era a política, naqueles dias, que o cartaz empunhado por uma menina onde se dizia: “Contra os maus” Estava-se pois na Disneylândia, não no fórum ou na ágora, e a luta de classes era substituída pela das pequenas classes.

O lepenismo sofre de irrealidade. Mas foi ele, porque não encontrou canal menos detestável, que o real escolheu, à primeira volta, para fazer-se ouvir, enfiando-se dentro dele. Assim, utilizou todos os meios para ser derrotado de forma inabalável à segunda volta. E, certamente, a não ser entendido de todo. O real? Os gaiteiros da França que ganha, e todos os que nos querem embalar na nova vida confusa e onírica, incriminaram-no sob nomes diversos: “medo dos pequenos brancos [2]”, “sentimento de abandono”, “angústia identitária”, tantos comportamentos pouco agradáveis, e mesmo francamente antipáticos porque se opõem “aos jovens e às classes médias que sonham com uma sociedade mais aberta”. Reconduzido às dimensões mais sombrias das desgraças criminosas, e condensado no tema da insegurança, o real foi então acusado, a partir do dia 21 de abril à noite, de ter metido medo aos Franceses. E o tratamento mediático do aumento da delinquência foi imediatamente mostrado a dedo.

Assim, nos tempos em que se descobria que um abismo se criou entre a elite e o povo, entre os “de cima” e os de “de baixo”, também se queria precipitadamente nada mais saber do que se passava em baixo e que incentivava tanta gente a votar de forma tão baixa. Por um bom impulso de ordem emocional, onde o pensamento mágico não era em vão, exigiu-se que os mediáticos no terreno deixassem de falar sobre as coisas feias e sangrentas como o caso do massacre dos vereadores de Nanterre ou como o caso de espancamento de um homem idoso em Orleãs a quem se tentava roubar o dinheiro que ele não tinha e a quem se incendiou a casa. A própria agressão foi menos lamentada que a sua “cobertura pelo programa «Vinte horas» “, e é a presença obsessiva da face martirizada do idoso nos ecrãs que foi vista como uma insuportável delinquência pelos Barrabás socialistas do mundo que está para chegar amanhã, ou até mesmo como uma rebelião contra o decorrer idílico das coisas. “Um facto demasiado anódino”, gritou-se; e não é muito difícil traduzir que era este idoso que se considerava como estando a mais. Ele não tinha sabido apanhar o comboio do crescimento. Tinha permanecido à beira da estrada. Nunca tinha nadado nas correntes portadoras da world wild web. Este dinossauro tinha tudo de falso. A sua própria existência era um insulto à felicidade incontestável de viver para sempre de outro lado do portal Internet. De pleno direito, ele tornava-se a encarnação desta “ França terrível” que Serge July descobria no dia seguinte ao da primeira volta, enquanto que o seu jornal, um mês mais cedo, consagrava uma série de artigos a celebrar “a França descomplexada” de Jospin-presidente, de Amélie Poulain e desta deleitável passagem do franco ao euro que “não tinha suscitado nem drama nem angústia para grande espanto dos soberanistas céticos lepenistas-chevenementistas que, como sempre, apostavam sobre o pior”.

O real é adiado para uma data ulterior

Sem estar a apostar sobre seja o que for, pode-se, pelo contrário, considerar que a mudança para a moeda única não passou despercebida, no fim de contas, nem como uma carta de correio, e que toda a euforia ensurdecedora difundida pelos meios de comunicação social sobre este assunto tinha como primeiro objetivo impedir que a mais pequena crítica contra o euro se fizesse ouvir. Este acontecimento ruidoso foi primeiro que tudo um acontecimento sem discussão, por conseguinte, um acontecimento moderno. E deu-se o sentimento desta passagem para a moeda única ter sido aprovada por unanimidade apenas porque era inaceitável que assim não fosse. De modo que o descontentamento que poderia suscitar foi atingido de mutismo ou mesmo recalcado. Pelo menos durante o tempo que duraram os efeitos da picadela anestesiante.

Como foram silenciadas muitas outras realidades sobre as quais ainda se levantou timidamente uma ponta do véu no período entre as duas voltas das eleições porque se tinha tornado impossível fazer de outra maneira. Assim, pudemos descobrir, por exemplo, que alguns não estavam tão satisfeitos como se pensava com a passagem às trinta e cinco horas e com a redução do tempo de trabalho (a RTT). E que havia até trabalhadores que lamentavam não lhes ser possível “fazer horas extraordinárias ao sábado”, enquanto a felicidade de entrarem em casa para se entregarem à partilha de tarefas domésticas parecia um dado adquirido (3). E, ao mesmo tempo que se acusava o programa lepenista de querer “que as mulheres ficassem em casa” e se considerava delicioso que Ségolène Royal estivesse a mandar os homens para casa, estes, silenciosamente, compreendiam perfeitamente o empreendimento mortal que estava em marcha contra eles, por detrás de tantos sorrisos. Com um belo ar de frescura, um jovem de Vitrey-na-Mance, perto de Vesoul, resumiu assim a situação e dava a sua interpretação, magistral, digamos, uma espécie de chave de ouro: “Nós, os trabalhadores, não queríamos as 35 horas, chamamos-lhe-as “retém-teus-testículos “(RTT) porque estamos impedidos de fazer horas extras. “

Ninguém poderia melhor exprimir a longa tarefa de castração societária que terá sido, com o seu comboio infernal de medidas e leis que não podem ser recusadas, o Governo Jospin, um dos mais terríficos que terá até agora existido.

Assim, durante o período entre as duas voltas, o real mostrou a ponta do seu nariz. Mas o real escolheu, para o fazer, a máscara mais sinistra que havia. Durante os quinze dias de festa anti-lepenista não se são privaram de o estarem a envergonhar. O real recuou. O real não passará. Pelo menos, por agora. E não desta maneira. O real foi adiado para uma data posterior. Estava calor.

(*) Philippe Muray, escritor francês, morreu em 2006.

Murray, Revista Causeur, souvenir d’une quinzaine antifasciste. 2002-2017: un entre-deux-tours chasse l’autre. Texto disponível em :

https://www.causeur.fr/philippe-muray-front-republicain-le-pen-44114.html

NOTAS

[1] Alguns dias depois, toda esta exultação expressava-se sem qualquer embaraço na imprensa. “Antes, estávamos entediados, Le Pen despertou-nos”, confidenciou assim um jovem ao Libération, descrito como um jovem “louco de techno.” «Nós andávamos a dormir, estávamos cheios de tédio, acrescentou ele. Agora, toda a gente tem um sorriso na cara. Isto criou alguma coisa de formidável”. Um pouco mais tarde, no jornal Le Monde, desta vez, uma jovem heroína que tinha participado em todas as causas pela cidadania durante o período entre as duas voltas da campanha eleitoral, lamentava-se: “o nítido recuo da Frente Nacional e a poderosa vaga azul da primeira volta das eleições legislativas “tinham-na bloqueado no seu élan.” Perdemos o nosso principal bode expiatório, Jean-Marie Le Pen”. E, num agradável movimento de denegação, continuou: ” obviamente não digo que seria melhor que ele tivesse um bom resultado nas eleições para que nós tenhamos ainda um combate a conduzir”. Mas ela também se tranquilizava da seguinte maneira:” quase não é assim tão mau quanto o PS ficar atrás da UMP. Pelo menos com a direita à priori ultramaioritária no final da segunda volta, ainda temos um inimigo bem duro pela nossa frente “. Precisava-se no entanto que” Gaëlle já não está, na verdade, interessada na votação, ela diz ter sido quase forçada a ir à cabine de voto e escolher o seu candidato um pouco ao acaso no dia 9 de junho. Ela sabe exatamente o que é estar sempre “em grande cólera”, embora lhe tenha sido mais difícil desenhar os contornos da sua revolta no final de abril”. O que importa o contorno desde que se tenha vivido a embriaguez da cólera (junho de 2002).

[2] N.T. Em francês: petits blancs corresponde ao americano white trash, lixo branco, ou mais simplesmente as pessoas d’en bas, as classes desfavorecidas, as classes pauperizadas.

[3] Um mês mais tarde, refletindo sobre as razões para a derrota de Jospin numa série de artigos, o jornal Le Monde recolhia as afirmações de militantes socialistas de base. Um trabalhador no Norte não hesitava em dizer: “Nós perdemos por causa das 35 horas”. Mas o Pacs também, e pela primeira vez de uma forma tão crua, foi designado como um dos responsáveis pelo fracasso. “Acho que isso nos trouxe mais prejuízos que benefícios,” disse um outro trabalhador. E o plumitivo do jornal Le Monde foi então compelido a observar: “grito do coração, de todas as gerações em conjunto:” mas porque é que se misturam nisto?”. “(junho de 2002).

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