De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora: Uma outra série de textos 3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo. Texto 3.2 – Que estratégia eleitoral para 2012 –relatório Terra Nova (1ª parte)

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo

 3.2. Que estratégia eleitoral para 2012 –relatório Terra Nova

O texto que se segue é constituído por extratos do relatório emitido em maio de 2011 pela Fundação Terra Nova (Prefácio, Síntese, Introdução, ponto I. e ponto III.1), “GAUCHE: QUELLE MAJORITE ELECTRORALE POUR 2012” produzido por um grupo de trabalho presidido por Bruno Jeanbart(*) e Olivier Ferrand(*) e tendo como relator Romain Prudent.

1ª parte (extratos constituídos por Prefácio e Síntese)

Prefácio

Em toda a Europa, como sob outras formas na América do Norte, a social-democracia está em crise. Há razões ideológicas para isso, certamente. Mas há também razões sociológicas: a coligação histórica da esquerda, centrada sobre a classe trabalhadora, está em declínio. Uma nova coligação emerge: a coligação “França de amanhã”, mais jovem, mais diversa, mais feminina, mais diplomada, mais urbana e menos católica. Um eleitorado progressista no plano cultural. Uma população de “outsiders” no plano socioeconómico, variável de ajustamento face à crise de uma sociedade que decidiu sacrificar os novos “entrados” (os outsiders) para proteger os que estão dentro, os “insiders”, população esta que tem necessidade da autoridade pública para romper barreiras. É o novo eleitorado “natural” para a esquerda. Em vias de estruturação, no entanto, ainda não constitui uma maioria. Nestas condições, qual deve ser então a estratégia eleitoral que a esquerda deve utilizar em 2012?

Este relatório destina-se a alimentar as reflexões das formações políticas e dos candidatos progressistas. Várias estratégias eleitorais possíveis são delineadas no relatório. A estratégia ideal depende do candidato que a assume: a eleição presidencial é uma eleição personalizada, a identidade do candidato é suscetível de mobilizar eleitores com perfis significativamente diferentes. Esta estratégia deve, naturalmente, ser articulada com opções fundamentais que são feitas como parte de um projeto político proposto ao povo francês. Ela deve, enfim, ter em conta a conjuntura – ora a conjuntura, fortemente marcada pela crise, será estruturante em 2012.

Este exercício de sociologia eleitoral foi conduzida simultaneamente em nove países por iniciativa do Centro para o Progresso Americano (EUA) e da Fundação Ideas (Espanha): Alemanha, Reino Unido, França, Holanda, Suécia, Hungria, Austrália, Canadá, EUA. Em todos estes países, o diagnóstico é o mesmo: a coligação histórica de classe está a desaparecer, uma nova coligação emerge – com as mesmas componentes sociológicas. A França não é um caso isolado: a esquerda, na Europa e em todo o mundo ocidental, está a evoluir de forma que poderemos dizer concertada. Uma apresentação destes trabalhos ocorreu a 7 de abril de 2011 em Madrid. Os relatórios nacionais e o relatório de síntese estão disponíveis no site do Terra Nova: www.tnova.fr .

 

Síntese

Por toda a Europa, a social-democracia está em crise. Esta governa agora apenas em 6 países de um total de 27. Ela foi incapaz de capitalizar politicamente a Grande Depressão de 2008.

Como explicar este descontentamento político? Há aqui, e isso é claro, também uma crise ideológica. O modelo de sociedade dirigida pela social-democracia – a economia social de mercado, feita em torno da construção do Estado Providência – deixou de ser compatível com a atual situação de um novo mundo globalizado. Este modelo e a social-democracia devem, pois, ser refundados.

Mas há uma outra razão para a crise da social-democracia. Tem a ver com a sociologia eleitoral: a coligação histórica que foi a esquerda desde há quase um século, constituída na base na classe trabalhadora, está em declínio. Isto é tanto verdade em França, como no resto da Europa e nos EUA.

UMA COLIGAÇÃO HISTÓRICA EM DECLÍNIO

O Fim da Coligação Operária

Desde a Frente Popular em 1936, a esquerda em França (socialista, mas, principalmente, comunista) acompanhou a ascensão da classe operária. A vitória de François Mitterrand nas eleições presidenciais de 1981 está intimamente relacionada com esta evolução: a classe operária estava no seu apogeu demográfico (37% da força de trabalho ativa) e votava massivamente à esquerda (72%, ou + 20 pontos acima da média nacional). Em torno deste cerne operário foi formada uma coligação de classe: as classes populares (trabalhadores, empregados) e as categorias intermédias (os quadros médios).

Esta base histórica da esquerda está em claro declínio e isto por duas razões.

Em primeiro lugar, a perda de importância demográfica da classe operária: depois de um século de expansão, a população operária diminui rapidamente a partir de final dos anos 1970, para não representar hoje mais do que 23% dos ativos – ou seja, para a esquerda, uma queda de 40% na sua base eleitoral. Este fenómeno, um corolário da desindustrialização do país, é amplificado pela desvitalização do sentimento de classe: apenas um quarto dos trabalhadores se identificam com a classe operária. A explicação pode ser encontrada na reestruturação interna do mundo do trabalho. O número de trabalhadores não qualificados caiu acentuadamente a favor de trabalhadores qualificados, bem pagos, com acesso à sociedade de consumo, e que se reconhecem mais nas classes médias. Além disso, os trabalhadores da indústria representam apenas 13% dos ativos: dois trabalhadores em cada cinco trabalham no setor de serviços, tais como motoristas, estivadores e empregados de armazém. Estes trabalhadores de serviços, que trabalham em isolamento, já não beneficiam da identidade operária: o coletivo de trabalho da fábrica, a tradição sindical, o orgulho da profissão.

Em segundo lugar, os operários votam cada vez menos à esquerda. A erosão é contínua desde o final dos anos 1970 e assume ares de uma hemorragia eleitoral nestes últimos anos. Na primeira volta da eleição presidencial, a diferença de votos a favor da esquerda entre os trabalhadores e a média do eleitorado era de +15 pontos em 1981 e passou para 0 em 2002: já não há pois nenhuma especificidade quanto ao voto operário. Pior, o candidato Lionel Jospin atraiu apenas 13% dos votos de operários: os operários votaram menos socialista do que o conjunto dos franceses (16%). Na segunda volta das eleições presidenciais, o voto operário foi de 72% em 1981 e passou para 50% em 2007: pela primeira vez na história moderna, os trabalhadores, que já não votaram à esquerda na primeira volta, também não votam à esquerda na segunda volta.

 

Na origem do divórcio: uma mudança de valores

Historicamente, a esquerda política assume os valores da classe trabalhadora, tanto em termos de valores socioeconómicos como em termos culturais. Ela é a porta-voz das suas reivindicações sociais e da sua visão da economia: poder de compra, salário mínimo, férias pagas, segurança social, nacionalização de grandes empresas, controle de preços … e tanto uma como a outra o permanecem relativamente conservadoras em termos de costumes, que permanecem temas de segundo plano em relação às prioridades socioeconómicas.

A partir do final dos anos 1970, a rutura vai-se realizar na base do fator cultural: a liberdade sexual, a contraceção e o aborto, o questionar da família tradicional … Este movimento sobre as questões sociais cresce e reforça-se com o decorrer do tempo, ao ponto de se encarnar hoje na tolerância, na abertura às diferenças, numa atitude favorável aos imigrantes, ao Islão, à homossexualidade, à solidariedade com os pobres. Em paralelo, os trabalhadores fazem o caminho inverso. O declínio da classe operária – o aumento do desemprego, a precariedade, a perda de identidade coletiva e o orgulho da classe, as dificuldades da vida em alguns bairros – leva a reações de regressão: contra os imigrantes, contra os assistidos, contra a perda de valores morais e contra os distúrbios da sociedade contemporânea.

Apesar desta discrepância nos valores culturais, a classe operária continua à partida a votar à esquerda que a representa sobre os valores socioeconómicos. Mas o exercício do poder, a partir de 1981, obriga a esquerda a um realismo que dececiona as expectativas do mundo do trabalho. Da viragem para a política de rigor em 1983 até à afirmação de Lionel Jospin em 2001 de que “ o Estado não pode fazer tudo”, o político parece impotente para satisfazer as suas aspirações. As determinantes económicas perdem o seu significado habitual na votação dos operários e são as determinantes culturais, reforçadas pela crise económica, “histerizadas” pela-extrema-direita, que se tornam predominantes na escolha do voto e explicam a deslocação de voto para a Frente Nacional e para a direita.

 

Uma dinâmica idêntica em todo o mundo ocidental

A França não é uma exceção. Em toda a Europa, América do Norte, Austrália, a coligação histórica da esquerda, centrada sobre a classe operária está a desaparecer. Mesmo em países onde existe uma ligação institucional, através dos sindicatos, entre a classe operária e a esquerda política, o voto operário deserta o campo político da esquerda: Grã-Bretanha, Alemanha, Suécia. A social-democracia perde a sua base eleitoral.

 

UMA NOVA COLIGAÇÃO EM VIAS DE ESTRUTURAÇÃO

O novo eleitorado da esquerda: a França de amanhã

Se a coligação histórica da esquerda está em declínio, uma nova coligação está a emergir. A sua sociologia é muito diferente:

  1. Os diplomados. Estes votam mais à esquerda do que a média nacional (+2 pontos em 2007). O voto à esquerda é agora positivamente correlacionado com o nível de ensino: quanto mais elevado é o nível de formação mais se vota à esquerda; quanto menor é o nível de formação mais se vota à direita.
  2. Os jovens. Este é o coração do eleitorado de esquerda hoje: +11 pontos em comparação com a média nacional na segunda volta das eleições presidenciais, em 2007 (58% contra 47%). A orientação política do voto está fortemente correlacionada com a idade: o voto à esquerda reduz-se com a idade; e as pessoas de mais idade votam massivamente à direita – deram um avanço de 30 pontos a Nicolas Sarkozy contra Ségolène Royal (65-35). Se há um fator de idade (é-se idealista aos 20 anos e vai-se ficando mais conservador à medida que se envelhece) há sobretudo um fator geracional: as novas gerações votam cada vez mais à esquerda.
  3. As minorias e os bairros populares. A França da diversidade está quase integralmente à esquerda. O auto-posicionamento dos indivíduos revela um alinhamento dos Franceses de origem imigrada, e mais ainda da segunda geração, à esquerda – de aproximadamente 80-20. Reencontramos taxas desta dimensão nas urnas de voto dos bairros populares e ainda de 62-38 nas zonas urbanas sensíveis.
  4. As mulheres. Vivemos uma inversão histórica: o eleitorado feminino, ontem muito conservador, tem-se estado a inclinar agora para o campo progressista. Em 1965, o eleitorado feminino assegurou a vitória do General de Gaulle; François Mitterrand ganhou com o voto dos homens. Em 1981, as mulheres votam ainda 7 pontos menos à esquerda que os homens (49% contra 56% na segunda volta). Em 2007, pela primeira vez, votam mais à esquerda que os homens, cerca de 2 pontos (49-47)). A transição para a esquerda prossegue-se em andamento rápido. Em 2010, nas eleições regionais, esta diferença atinge agora +7 pontos (58-51).

 

A nova coligação da esquerda não tem mais nada a ver com a coligação histórica: apenas os jovens pertencem às duas coligações. A identidade da coligação histórica residia na lógica de classe, a recomposição em curso estrutura-se em torno da relação com o futuro. A nova esquerda tem o rosto da França de amanhã: mais jovem, mais feminina, mais diversificada, mais diplomada, mas também mais urbana [1] e menos católica [2]. Ela está em sintonia com a esquerda política quanto ao conjunto dos seus valores.

Contrariamente ao eleitorado histórico da esquerda, coligado pelos desafios socioeconómicos, esta França de amanhã está sobretudo unificada pelos seus valores culturais, progressistas: deseja a mudança, é tolerante, aberta, solidária, otimista, ofensiva. Isto é particularmente verdadeiro para os diplomados, os jovens, as minorias [3]. Ela opõe-se a um eleitorado que defende o presente e o passado contra a mudança, que considera que “a França é cada vez menos a França”, que “era melhor antes”, um eleitorado inquieto quanto ao futuro, mais pessimista, mais fechado, mais defensivo.

O fator socioeconómico tem também o seu papel. Porque a França de amanhã reúne sobretudo “os outsiders” da sociedade, os que procuram aí entrar, nomeadamente no mercado do trabalho, mas que muito dificilmente aí conseguem permanecer: os jovens, as mulheres, as minorias, os desempregados, os trabalhadores precários. Eles vivem em dificuldade porque são a principal variável de ajustamento em face da crise de uma sociedade de “insiders” que, para preservar os direitos adquiridos, sacrificam os novos entrantes. Estes “outsiders” têm necessidade da ajuda dos poderes públicos para ultrapassar as barreiras que se estabelecem contra eles: têm necessidade de um Estado que os ajude a emanciparem-se e a quebrar as barreiras. Estes são apoiados pelos trabalhadores mais integrados (os diplomados), solidários destes “excluídos” por convicção cultural.

 

Os limites da nova coligação.

A nova esquerda que emerge em França é a mesma que se desenha por toda a parte na Europa. Assemelha-se de muito perto à coligação que levou Barack Obama ao poder em 2008. Com uma diferença de importância: não é maioritária.

A nova coligação eleitoral da esquerda apresenta três fraquezas estruturais:

Uma dinâmica demográfica limitada. As minorias constituem uma população em expansão mas de peso demográfico fraco: somente 5% dos Franceses têm dois pais imigrados; pode-se estimar em 15% os Franceses procedentes da diversidade. Nada a ver com os Estados Unidos, onde a parte das minorias atinge quase 30%. Sobretudo, os jovens são uma população que diminui em França, enquanto que se passa o contrário nos Estados Unidos.

Uma coligação eleitoral em construção. O novo eleitorado de esquerda vota, eleição após eleição, cada vez mais à esquerda. É uma excelente notícia para a esquerda, para o futuro. Isto sublinha, em sentido contrário, uma fraqueza atual da coligação: esta não está ainda no seu pico mais alto. É verdade para os diplomados, que votam ainda muito pouco à esquerda. Para os jovens: estes votam menos à esquerda que nos Estados Unidos: dão 16 pontos mais a Ségolène Royal em face de Nicolas Sarkozy em 2007 (58/42) quando dão 34 pontos a mais a Barack Obama em face de John McCain (67/33). Mas é sobretudo nas mulheres que a esquerda francesa não faz ainda o seu pleno: dão apenas 2 pontos a mais a Ségolène Royal em relação aos homens em 2007 (48/46), +5 pontos nas eleições regionais de 2010, contra +12 pontos ao Barack Obama (56/44).

Uma abstenção elevada. Os jovens e as minorias votam menos que a média nacional: respetivamente (-7 ) pontos para os 18-24 anos e (-4) pontos para as zonas urbanas sensíveis (mas -34 nos bairros populares) em 2007. A sua participação desmorona-se nas eleições de fraca intensidade política (europeias, regionais, cantonais).

Face a esta nova coligação de esquerda, a recomposição radical da paisagem política francesa faz aparecer dois blocos eleitorais:

O eleitorado de direita, centra-se nas pessoas de mais idade (maiores de 65 anos)

O eleitorado de direita desde há décadas que não teve nenhuma mudança de relevo: as pessoas de mais idade, os trabalhadores independentes (artesões, comerciantes), os agricultores, os católicos. Também ele se tornou mais dividido: a sua propensão a votar à direita reforça-se. Está em oposição com os valores de esquerda em todas as suas componentes, tanto socioeconómicas como culturais e, por vezes, de maneira radical como acontece com os agricultores ou com as pessoas mais velhas (quanto aos valores culturais).

Os mais velhos, ditos seniores, constituem o coração eleitoral da direita. Votam massivamente à direita. Têm uma taxa de participação recorde: mais de 90% em 2007. E trata-se de uma categoria em expansão demográfica importante: representava 27% da população em 2005, representará 38% em 2030. Daí pois um problema essencial para a esquerda: poderá ela ganhar sem o voto das pessoas de mais idade?

 

O eleitorado intermédio, um no man’s land incerto e instável

Este eleitorado agrupa todos os elementos do assalariado: trabalhadores, empregados (a coligação histórica da esquerda), profissões intermédias, classes médias superiores. Historicamente, a hierarquia dos assalariados ditava a orientação política: quanto mais se estava na parte baixa da escala, mais se votava à esquerda, e inversamente. Trabalhadores, empregados, profissões intermédias, classes médias superiores dispunham-se em patamares de acordo com uma linha política linear, do mais à esquerda ao mais à direita. A lógica de classe, que ontem era a principal grelha de leitura eleitoral, está hoje baralhada. Todas estas categorias encontram-se mais ou menos ao mesmo nível na relação de forças direita/esquerda. O seu voto é incerto. Poderia mesmo inverter-se se as tendências, muito rápidas, prosseguirem: classes médias superiores a votarem mais à esquerda (como os diplomados) até aos operários a votarem mais à direita.

O eleitorado intermédio está dividido quanto aos valores: uma parte liga-se à esquerda, a outra pare liga-se à direita. A grelha de leitura relevante opõe classes populares e classes médias. As classes populares (operários e empregados) têm valores socioeconómicos que as ligam à esquerda (Estado forte e protetor, serviços públicos, segurança social) e valores culturais conservadores (ordem e segurança, recusa da imigração e do Islão, rejeição da Europa, defesa das tradições…). A divisão é invertida para as classes médias (profissões intermédias e classes médias superiores): valores culturais de esquerda mas valores socioeconómicos de direita.

O eleitorado intermédio põe um duplo desafio à esquerda: a classe operária terá ela definitivamente mudado de campo político? E que estratégia eleitoral adotar para este eleitorado, terreno de batalha privilegiado, pela sua incerteza e pela sua mobilidade, do confronto direita/esquerda?

 

 

QUE ESTRATÉGIA ELEITORAL PARA 2012?

A estratégia central “FRANÇA DE AMANHÔ: Uma estratégia centrada nos valores

A eleição de 2012 desenrola-se num período de mutação profunda da paisagem política: a estruturação de ontem está enfraquecida mas ainda não terá desaparecido ; a de amanhã emerge mas ainda não se desenvolveu em toda a sua extensão possível. Esta situação deixa o campo aberto a várias opções estratégicas. Contudo, uma linha de conduta incontornável será a de se inclinar para o seu novo eleitorado “natural”: a França de amanhã. É ainda tanto mais necessário quanto a perspetiva de um “novo 21 de abril” representa um risco real: o nível eleitoral inédito da Frente Nacional e a fragmentação do campo progressista ameaçam a esquerda de uma eliminação à primeira volta da eleição presidencial. Será por conseguinte vital reunir o seu campo na primeira volta.

Não é hoje possível à esquerda procurar restaurar a sua coligação histórica de classe: a classe operária já não é mais o centro do voto de esquerda, a classe operária já não está em sintonia com o conjunto dos valores da esquerda de hoje e, portanto, a classe operária já não pode ser, como o foi antes, o motor que provoca a constituição da maioria eleitoral da esquerda. A vontade para a esquerda de pôr em prática uma estratégia de classe em redor da classe operária, e mais globalmente das classes populares, exigiria que a esquerda renuncie aos seus valores culturais, ou seja, que quebre com a social-democracia. O partido trabalhista neerlandês (PvdA) tentou uma tal rutura sob a direção de Wouter Bos. Definindo-se como um partido de classes, o partido das classes populares, e não dos valores, acompanhou o seu eleitorado no conservadorismo cultural para se posicionar “anti-imigração”, “anti- Europa ”, e “anti-impostos”, deslocando-se assim da social-democracia para o social-populismo. O malogro eleitoral foi brutal: o PvdA concluiu as eleições locais com 13% dos votos, provocando a substituição de Wouter Bos por Job Cohen, presidente da câmara municipal de Amsterdão, que reposicionou o partido no movimento social-democrata.

 

Que estratégia deve a esquerda adotar para fazer o pleno do seu novo eleitorado natural?

Ela deve optar por uma estratégia de valores. O eleitorado a “França de amanhã” partilha-os. Há margens de manobra. As eleições regionais de 2010 mostraram que o voto à esquerda das mulheres, dos jovens, dos diplomados progride mais fortemente que a média do eleitorado. Para acelerar a evolução desta tendência, a esquerda deve portanto assentar a sua campanha na base dos seus valores, nomeadamente culturais: insistir sobre o investimento no futuro, na promoção da emancipação e conduzir uma batalha sobre a aceitação da França diversa, por uma identidade nacional integradora, pela aceitação da Europa, igualmente.

A esquerda deve igualmente privilegiar uma estratégia de mobilização. A “França de amanhã” vota fortemente à esquerda mas vota pouco. Contudo, é possível melhorar a sua taxa de participação: os jovens ou as minorias não são abstencionistas por sistema, votam por intermitência. O objetivo é por conseguinte mobilizá-los: a realização deste objetivo passa por uma campanha no terreno (porta a porta, telefone, presença militante nas redes sociais e nos bairros…), no fundo, passa pelo modelo Obama.

Uma tal estratégia, sob as hipóteses do relatório, poderia trazer 2.500.000 de votos à esquerda, na segunda volta, com que se poderia pois neutralizar a perda de 2.200.000 obtidos em 2007 por Nicolas Sarkozy. Contudo, o resultado permaneceria apertado.

 

A estratégia complementar com “as classes médias”

O eleitorado “França de amanhã” é a nova base central a partir da qual a esquerda deve trabalhar para constituir uma maioria. O eleitorado a conquistar – o eleitorado intermédio – é dividido em dois: classes médias e classes populares. A coligação “França de amanhã” integra-as já, pelo menos em parte, e deve procurar alargar a sua posição em cada uma das partes. Mas a estratégia não é a mesma conforme se vise as classes populares ou as classes médias.

Uma estratégia de alargamento para as classes médias justifica-se num triplo plano. É a classe social mais compatível com a estratégia de “França de amanhã”: permite fazer campanha sobre os valores culturais, sobre os quais as classes médias estão em sintonia com a esquerda, e a defesa destes valores é a prioridade do novo eleitorado de esquerda. É um eleitorado disponível: as profissões intermédias, mais numerosas (23% do eleitorado total, contra 15% para as classes médias superiores) e em expansão, votaram 14 pontos mais a favor da esquerda nas regionais em relação às presidenciais (contra +7 pontos em média), o que constitui a evolução mais espetacular para a esquerda no período. Tudo isto consiste, por fim, em que a esquerda se apoie sobre uma tendência natural: as classes médias evoluem para a esquerda.

Uma tal estratégia é contudo arriscada. Este eleitorado não tem tradição de voto à esquerda: continua a ser versátil tanto mais que não está politicamente fidelizado. Agregando realidades diferentes, este eleitorado é compósito, por conseguinte difícil de unificar. Necessita de uma adaptação do discurso de esquerda sobre as questões económicas e sociais. Sobre a fiscalidade por exemplo: as classes médias, em relação às classes populares, são caracterizadas nomeadamente pela acumulação de uma pequena poupança sobre o ciclo de vida, que querem proteger e transmitir.

 

A estratégia complementar com as classes populares

É a tentação natural da esquerda, que não suporta a ideia, por razões históricas, de perder as classes populares. A esquerda deve portanto centrar a sua campanha sobre as prioridades económicas e sociais, onde estão em sintonia, e fazer esquecer as suas convicções culturais, especialmente sobre a imigração e sobre o Islão.

Uma tal estratégia apresente algumas vantagens. Está em sintonia com a conjuntura, que coloca as respostas à crise económica no centro das prioridades dos franceses. E as classes populares representam sempre uma parte muito importante do eleitorado: ainda 23% para os trabalhadores e sobretudo 30% para os empregados, em expansão, ou seja, no total mais de metade do eleitorado. A esquerda tem fidelidades históricas, mantidas por uma densa rede de eleitos locais de terreno. Sobretudo, uma parte da sua nova base eleitoral, a “França de amanhã”, pertence às classes populares: os Franceses procedentes dos bairros, os jovens desclassificados, as minorias…

Mas é uma estratégia difícil. Ela vai em contracorrente: as tendências estão a mudar nas classes populares para a direita. É complicado articular esta específica estratégia com a estratégia central para o eleitorado da “França de amanhã”: ela precisa de não fazer campanha sobre as questões de ordem cultural, enquanto estas questões são o tema central neste último eleitorado; e mesmo sobre o fator socioeconómico, as propostas a desenvolverem não são as mesmas, entre a procura de proteção dos “insiders” fragilizados (proteção dos estatutos, dos direitos sociais) e a procura de assistência dos “outsiders”. Colide a partir de então com um obstáculo de grande dimensão: a nova Frente Nacional. Em vias de ser desdiabolizada e, por conseguinte, a ser em breve frequentável, a Frente Nacional de Marine Le Pen operou uma reversão sobre as questões socioeconómicas, mudando de uma postura poujadista neoliberal (anti‑Estado, anti-funcionários públicos, anti-impostos) para um programa de proteção económica e social equivalente ao da Frente de esquerda. Pela primeira vez desde há mais de trinta anos, um partido entra de novo em sintonia com todos os valores das classes populares: protecionismo cultural, protecionismo económico e social. A Frente Nacional apresenta-se como partido das classes populares, e será difícil combatê-lo.

Contudo, é possível identificar nas classes populares subcategorias mais fáceis de convencer para a esquerda. Há, em primeiro lugar, os precários, os desempregados, os excluídos: todos estes votam em 70% à esquerda – o problema da esquerda situa-se com as classes populares que têm trabalho, que estão com contratos de duração indeterminada mas que têm medo de serem desclassificados. Depois, há os jovens trabalhadores: são de origem estrangeira (magrebina) e por conseguinte sensíveis aos desafios culturais ligados à imigração e à integração, mas são muito pouco numerosos neste período de desindustrialização acelerada. Há sobretudo as empregadas. Neste caso, trata-se de um contingente eleitoral muito importante (77% dos empregados são mulheres, ou seja, 5,8 milhões de eleitores). Votam anormalmente à direita: +7 pontos em relação aos empregados homens em 2007. É um ângulo morto do discurso político de esquerda, obreirista, em que o seu imaginário está associado ao trabalhador homem nas fábricas. As empregadas são no entanto sensíveis às orientações da esquerda: trabalhando a tempo parcial e em situação não desejada, imposta, frequentemente pobres, muitas das vezes em condições de trabalho penosas e com ausência de cobertura sindical forte, em situação de cansaço extremo, dito burnout, devido a situações pessoais frequentemente difíceis (solteiras com crianças a seu cargo), estas assalariadas altamente precarizadas têm muitos pontos comuns com “os outsiders” excluídos do mercado de trabalho e que estão no centro do eleitorado de esquerda.

 

A conquista das pessoas mais velhas: uma estratégia impossível?

Alguns à esquerda encaram esta estratégia, com uma ideia simples. Ségolène Royal teve nesta faixa etária um resultado muito pobre em 2007: 35%. Com apenas 43%, ela teria ganho a eleição presidencial. Partindo de um valor tão baixo, com um presidente em vias de saída que muito as irritou, com um programa mais adaptado e com um candidato mais em sintonia, deveria ser fácil recuperar este atraso.

Nada é menos seguro. As pessoas desta faixa etária defendem valores frontalmente opostos aos da esquerda. Sempre votaram à direita e o seu voto à direita tem vindo a reforçar-se. Captando o sobressalto à esquerda deste eleitorado nas regionais (+3 pontos em relação à evolução média), a esquerda recuperaria menos de 500.000 votos, sobre uma diferença de 2,2 milhões em 2007.

O perfil do candidato poderia permitir melhorar os resultados da esquerda. As pessoas desta faixa etária são muito sensíveis à credibilidade e à autoridade do candidato. Além disso, a “triangulação” sobre as questões de segurança fariam sentido. É a prioridade política deste eleitorado, ora a questão da segurança destacou-se das outras questões culturais para se tornar cada vez mais consensual em todos os eleitorados: a esquerda pode por conseguinte apropriar-se deste seu eleitorado sem se alienar do seu eleitorado de base.

As determinantes sociológicas não são, de modo nenhum, os únicos fatores explicativos do voto. Há também as determinantes políticas: o perfil do candidato; o projeto; a unidade do seu campo político. Há também as determinantes conjunturais: o nível de rejeição ao partido no poder e do candidato em fim de mandato; os acontecimentos da atualidade também são relevantes na formação das perceções do eleitorado.

Mas a relação entre estas causas determinantes políticas e conjunturais com as causas determinantes sociológicas é questão essencial para montar uma estratégia vitoriosa. A esse respeito, a esquerda apresenta-se em 2012 com escolhas cruciais a fazer.

(continua)

NOTAS

(*) Bruno Jeanbart, diretor geral adjunto de Opinionway, empresa francesa de sondagens políticas e estudos de marketing e Olivier Ferrand, 1969-2012, fundador e ex-presidente do think tank Terra Nova.

[1] A França das cidades vota à esquerda. Em 2007, na segunda volta das presidenciais, Ségolène Royal atingiu 50% nas cidades com mais de 100.000 habitantes, contra 43% em zona rural.

[2] Os jovens, os diplomados, posicionam-se mais como não religiosos; e as minorias posicionam-se mais sobre as outras religiões. (Islão, em 80%).

[3] Os franceses de origem imigrada são sobretudo conservadores sobre os costumes (recusa da homossexualidade, principalmente) mas são, por construção, muito progressistas sobre as questões de imigração e de integração.

Para aceder ao texto do relatório veja em:

http://tnova.fr/system/contents/files/000/000/704/original/Rapport_Terra_Nova_Strat_gie__lectorale.pdf?1436783291

 

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