De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora: Uma outra série de textos 3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo. Texto 3.4 – O grande abandono das classes populares, por François Ruffin

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo

 Texto 3.4 – O grande abandono das classes populares

Por François Ruffin,

Publicado por FAKIR Presse alternative, Edition électronique em 7 de setembro de 2011

De uma crise a outra 3 Parte texto 3_4

O abandono das classes populares já se tinha efectuado: eis que é agora teorizado. Conscientemente, a esquerda cede os trabalhadores/empregados à Frente Nacional. Os valores morais contam mais, doravante, que as conquistas sociais. Eis sob que presságios se abrem as presidenciais de 2012. A menos que se se oponha uma outra “estratégia”…

“Esquerda: que maioria eleitoral para 2012?”

É necessário ler com atenção esta nota da “fundação progressista” Terra Nova, que oficia em torno do Partido socialista. Não somente como uma peça entregue pelo inimigo, não apenas como uma peça a denunciar – mas como um sinal da época, que ultrapassa os seus autores. Como a confirmação de um momento decisivo de viragem política. Vamos por conseguinte citá-la longamente.

Uma base que está a ruir

A exposição histórica em primeiro lugar

“Desde a Frente Popular em 1936, a esquerda em França (socialista, mas sobretudo comunista) acompanhou a subida em força do mundo operário. Em redor desta base predominantemente operária constituiu-se uma coligação de classe: as classes populares (operários, empregados) e as categorias intermédias (os quadros médios). Esta base histórica da esquerda está hoje a desaparecer. Os trabalhadores votam cada vez menos à esquerda. A erosão é contínua desde o fim dos anos 1970 e assume aspetos de uma verdadeira hemorragia eleitoral ao longo destes últimos anos.”

 

Porque esta “hemorragia”?

“A partir do fim dos anos 1970, a rutura vai fazer-se sobre o fator cultural. Maio 68 arrastou a esquerda política para o liberalismo cultural: liberdade sexual, contraceção e aborto, e passou-se a questionar a família tradicional… Este movimento sobre as questões da sociedade reforça-se com o tempo para se encarnar hoje na tolerância, na abertura às diferenças, numa atitude favorável aos imigrantes, ao Islão, à homossexualidade, à solidariedade para com os mais pobres. Em paralelo, os trabalhadores fazem o caminho inverso. O declínio da classe operária – subida do desemprego, precarização, perda da identidade coletiva e do orgulho de classe, dificuldades de vida em certos bairros – tudo isto dá lugar a reações de regressão social: contra os imigrantes, contra os assistidos, contra a perda de valores morais e contra as desordens da sociedade contemporânea. Apesar de este desacordo sobre os valores culturais, a classe operária continua à partida a votar à esquerda, que a representa no plano dos valores socioeconómicos.”

“Mas o exercício do poder, a partir de 1981, obriga a esquerda a um realismo que dececiona as expectativas do mundo do trabalho. Da viragem para a política de rigor em 1983 até à afirmação de Lionel Jospin em 2001 de que «o Estado não pode fazer tudo», o político parece impotente para satisfazer as suas aspirações. As determinantes económicas perdem o seu significado habitual na votação dos operários e são as determinantes culturais, reforçadas pela crise económica, “histerizadas” pela-extrema-direita, que se tornam predominantes na escolha do voto e explicam a deslocação de voto para a Frente Nacional e para a direita.”

A análise, até aqui, parece bastante justa – ou até mesmo pintada com uma certa autocrítica. No fundo, teria sido menos as classes populares que abandonaram a esquerda (eleitoralmente) do que o inverso: seria a esquerda que, primeiramente, teria abandonado (social, económica e mesmo culturalmente) as classes trabalhadoras.

A «França de amanhã»

Chega a altura das recomendações: como fazer, então, apesar deste divórcio, para ganhar as eleições para a Presidência? Fazendo as pazes com os trabalhadores?

“É a tentação natural da esquerda, que não suporta a ideia, por razões históricas, de perder as classes populares. A esquerda deve, portanto, centrar a sua campanha sobre as prioridades económicas e sociais, onde são coerentes, e fazer esquecer as suas convicções culturais, especialmente sobre a imigração e sobre o Islão.

Tal estratégia apresenta potencialidades. Está em sintonia com a conjuntura, que coloca as respostas à crise no centro das prioridades dos franceses. …………………………………………………………………………………………..

Mas é também uma estratégia difícil. Ela vai em contra-corrente: as tendências estão a mudar nas classes populares para a direita. É complicado articular esta específica estratégia com a estratégia central para o eleitorado da “França de amanhã”: ela precisa de não fazer campanha sobre as questões de ordem cultural, enquanto estas questões são o tema central neste último eleitorado; e mesmo sobre o fator socioeconómico, as propostas a desenvolver não são as mesmas, entre a procura de proteção dos “insiders” fragilizados (proteção dos estatutos, dos direitos sociais) e a procura de assistência dos “outsiders”. Esta estratégia colide, atualmente, com um obstáculo de grande dimensão: a nova Frente Nacional. Em vias de ser desdiabolizada e, por conseguinte, a ser em breve frequentável, a Frente Nacional de Marine Le Pen operou uma reversão sobre as questões socioeconómicas, mudando de uma postura poujadista neoliberal (anti Estado, anti-funcionários públicos, anti-impostos) para um programa de proteção económica e social equivalente ao da Frente de esquerda. Pela primeira vez desde há mais de trinta anos, um partido entra de novo em sincronia com todos os valores das classes populares: protecionismo cultural, protecionismo económico e social. A Frente Nacional apresenta-se como partido das classes populares, e será difícil combatê-lo.”

Então mais vale renunciar à reconquista dos operários/trabalhadores. E deixá-los á extrema-direita …

Em vez disso, o relatório recomenda “a estratégia central «França de amanhã»: uma estratégia centrada nos valores”: “Se a coligação histórica da esquerda está em declínio, uma nova coligação emerge. A sua sociologia é muito diferente: 1. Os diplomados. 2. Os jovens. 3. As minorias e os bairros populares. 4. As mulheres. Contrariamente ao eleitorado histórico da esquerda, coligado pelos desafios socioeconómicos, esta França de amanhã é sobretudo unificada pelos seus valores culturais, progressistas: ela quer a mudança, ela é tolerante, aberta, solidária, otimista, ofensiva”.

 

1984, ano chave

O abandono das classes populares já se tinha operado : eis agora que é teorizado. Conscientemente dir-se-ia, escrito preto no branco, estes pensadores enviam os trabalhadores/empregados para as goelas do fascismo brando. Eles preferem este risco, esta aposta ousada, mais do que serem eles a pôr em prática, eles mesmos, diretamente, “um protecionismo económico e social”.

Trata-se de um remake, pensar-se-á.

Em 1984, o desemprego aumentava de 25% em doze meses. Os primeiros contratos precários, ditos TUC – Trabalhos de Utilidade Coletiva – foram votados em dezembro. A abertura dos bancos alimentares também não tardará muito. Os operários siderúrgicos lorenos são liquidados, eles atiram-se à fortaleza dos patrões da siderurgia e enfrentam a polícia de choque, os CRS, nas ruas de Paris. Que faz então o novo Primeiro-ministro, Laurent Fabius? Defende ele esta classe operária que, em cerca de 74%, votou pelo candidato socialista à segunda volta das presidenciais? Antes pelo contrário, veste o fato da esquerda moderna e acusa-os de retrógrados: “A denúncia sistemática do lucro deve, a partir de agora, arrumar-se na caixa dos acessórios”. Depois da “luta das classes”, refrão do Mitterrand da década 70, sucedia-se uma outra batalha: “a batalha da competitividade e do emprego”. O abandono da classe operária, então, é já bem manifesto. Começa nesse dia.

Nesse mesmo ano 1984, reencontramo-nos com Jean-Marie Le Pen – na FR3 Lorraine, precisamente: “Não vos parece evidente que o número de mais de seis milhões de estrangeiros em França está em relação direta com o facto de haver três milhões de desempregados? A mim, isto parece-me evidente e isso parece de resto evidente a muitos Franceses”. Esta “evidência” ganhava terreno, com efeito: durante muito tempo não passava de um grupúsculo, a Frente Nacional passava este ano a barra dos 10% nas eleições europeias…

Como é que, a partir desta época, a esquerda podia combater eficazmente a subida da extrema‑direita? Regando os meios de comunicação social de discursos moralizantes? Ou defendendo os interesses dos trabalhadores, opondo-se a um comércio livre que varreria rapidamente o têxtil, a confeção, a metalurgia, etc.? A escolha foi clara: em 1984, sempre este ano , criava-se o SOS Racismo, teleguiado a partir do Eliseu. E o socialista Jacques Delors partia para Bruxelas, em 1984 ainda, relançando uma Europa “da livre circulação das mercadorias e dos capitais” de mão dada com o “European Round Table”, o Medef europeu. Toda a fórmula foi posta nesta altura. Hoje, o relatório de Terra Nova nada mais faz que o desenvolvimento e o aprofundamento desta fórmula e, depois,  tira as conclusões finais. Com franqueza, desta vez.

 

Com os Solidaires

É o Partido socialista, este relatório, dir-se-á com um encolher de ombros. E é mesmo a sua ala direita. Seja assim. Mas eu intervinha, convidado por Solidaires, num dia de luta sindical em Ardèche: “Vocês dizem-nos que as fábricas deslocalizam, interpelava-me um participante. Bom, e então? Os trabalhadores vão fazer outra coisa, vão seguir formações, ficarão qualificados, ou ocuparão empregos de serviços, ou lançar-se-ão no turismo… Isso exigirá algum tempo, talvez, uma ou duas gerações, mas basta saber adaptarmo-nos”.

Um militante, pois, que enunciava este discurso. Apesar dos nervos em franja, respondi-lhe calmamente:

– O que é que faz, como profissão?

– Sou professor. Porquê?

– Admita que o Diretor da sua Escola ou Faculdade lhe anuncia, quando amanhã, chegar à sua escola que suprimiu o seu posto de trabalho. O que é que pensaria como reconversão? Mecânico?

Não, não, de acordo….

Será que a um qualquer dos seus colegas, já foi proposto conservar o seu emprego, mas na Tunísia por exemplo e por uma remuneração quatro vezes menor?.

– …

– Diga-me?

– Não, de modo nenhum.

Por conseguinte o senhor não se sente muito ameaçado pelo professor chinês? Para mim, é igual: France Inter não vai recrutar imediatamente jornalistas romenos. E é a mesma coisa ou parecido com os médicos, que também não temem muito a chegada do estomatologista polaco, o mesmo se passa com os advogados, ou com os editorialistas, etc. É que nós estamos bem abrigados, nós que não temos que estar a sofrer com esta concorrência, dizemos-lhes, a estes que estão sujeitos a essa concorrência: ‘Não é nada de grave… Tornai-vos profissionais qualificados …’ Quando se pensa que, durante um século, a esquerda teve  vinculado o seu destino à classe operária, não é esquisito, mesmo assim, este discurso aqui?

O abandono das classes populares é menos consciente, aqui, mas trata‑se do mesmo abandono.

 

Os dois corações da esquerda

Há uma dezena de anos, no livro L’Illusion économique, o demógrafo Emmanuel Todd observava já “o divórcio dos dois corações sociológicos da esquerda”:

Os professores, que constituem um dos corações sociológicos da esquerda, são fracamente ameaçados pela evolução económica. Não tendo a temer no dia-a-dia o despedimento ou uma compressão de salário, não se sentem ameaçados por uma destruição económica, sociológica e psicológica. Por conseguinte não estão mobilizados contra o pensamento zero. (…) Sem serem minimamente de direita, estatisticamente, ou favoráveis ao lucro das grandes empresas, são atingidos de passividade e podem permitir-se considerar a Europa monetária e a abertura das trocas internacionais como projetos ideológicos simpáticos e razoáveis. A imobilidade ideológica dos professores separou-os deste outro coração sociológico da esquerda que são os trabalhadores, que sofrem, desde há quase vinte anos, todas as adaptações, todos os choques económicos concebíveis. Os resultados eleitorais dos anos 1988-1995 põem em evidência esta dissociação, talvez temporária, dos dois destinos. A estabilidade do voto dos professores para a esquerda, nos piores momentos do afundamento do Partido socialista, contrastou com a volatilidade do voto operário, desintegrado, capaz de se virar tanto para a Frente Nacional como para a abstenção.

Na sua obra seguinte, Après la démocratie (2008),), o mesmo intelectual cita uma sondagem:

“Para cada uma das perguntas seguintes, podem dizer-me se ela evoca para cada um de vós algo de muito positivo, de bastante positivo, bastante negativo ou de muito negativo? ‘No que respeita ao protecionismo económico, 53% dos sondados eram-lhe favoráveis, 31% desfavoráveis. Sem opinião: 16%.

“Mais favorável ao protecionismo são os inquiridos de 18-24 anos (67% contra 18%) e os trabalhadores (63% contra 19%). Este resultado é completamente tranquilizador sobre o estado mental dos nossos concidadãos porque é adaptado à realidade económica: os jovens e os trabalhadores são as principais vítimas do comércio livre.”

Há uma dezena de anos igualmente, lançávamos Faquir. À volta de nós, em Amiens, de Honeywell à Whirlpool passando por Magneti-Marelli, tínhamos todo o tempo do mundo para observar os golpes aplicados ao mundo operário. E pior, sem dúvida: esta violência social suscitava apenas a indiferença entre as nossas elites municipais de direita (que andavam empenhadas num “Carnaval louco e gratuito!” … estávamos na semana em que Yoplait fechava as suas portas) e as nossas elites nacionais de esquerda (com um Lionel Jospin em campanha presidencial sem nunca pronunciar a palavra “operário”, e sem se cruzar com um despedido de LU).

Conhecemos a sequência. E esta foi bem merecida.

É como se a história repassasse hoje os pratos e que, apesar dos 55 % do “não” do dia 29 de maio de 2005, apesar do naufrágio da ideia liberal na crise, nós não tivéssemos aprendido nada. É como se a gravidade sociológica, esta influência da pequena-burguesia intelectual – a que pertencemos – sobre os partidos, os sindicatos, os meios de comunicação social, mantivessem a bem pensante livre‑troca como um constrangimento, e abrisse – conscientemente a partir de agora – uma alameda para a extrema-direita.

Com a modéstia dos nossos meios, nós prosseguiremos o nosso esforço em sentido oposto: reunir os dois corações sociológicos da esquerda, porque não se fará nada de bom, nada de belo, nada de grande, sem estas duas forças.

Reivindico “um protecionismo económico e social” combinado com “progressismo cultural”, e sem ver nisso nenhuma contradição: é necessário confiança em cada um de nós, no futuro de cada um de nós, é necessário que nos sintamos tranquilos face aos nossos filhos e netos, que nos sintamos protegidos nos nossos empregos, nas nossas casas, nas nossas pensões de reforma, para acolher com serenidade a mudança, o que é novidade, o que nos é externo.

As carpideiras do 1º de maio

Quando a FN subir para 15, 20 ou 25%, ousarão ainda dar-nos lições de moral? Monopolizarão de novo as antenas para nos fazerem apelos para os “sobressaltos republicanos” e companhia?

Sim, ousarão.

Ousam já.

No 1º de maio, ouvi isso, no noticiário das 8 horas, na France Inter:

Para Bernard Thibault e François Chérèque, o desafio é não deixar cair a rua nas mãos da Frente Nacional. Desde há alguns meses, quando um punhado de militantes que reunia praticamente todos os sindicatos se mostrou partidário da extrema-direita, a intersindical empenhou-se em combater o discurso social de Marine Le Pen. Um texto comum contra a preferência nacional foi difundido, e a luta para a igualdade dos direitos e contra as discriminações é enfatizada no apelo à manifestação. Uma Frente Nacional a subir fortemente na adesão nas classes populares não deixa de preocupar as grandes confederações sindicais”. Entrevistada seguidamente, Nadine Prigent, da CGT, lançava frases como “é perigoso para os assalariados”, “é necessário uma forma de mobilização”, etc.

Trata- se boas intenções, de lições de moral. A acreditar que nunca nos cansaremos.

No jornal das 9:00, um “perito das relações sociais e sindicais”, Bernard Vivier, “diretor do Instituto Superior do Trabalho”, colocava-nos no seguinte impasse: “A Frente Nacional desenvolve hoje um discurso que se quer social e que está a fazer concorrência aos princípios de ação de sindicatos classificados de republicanos. O projeto que nos falta, é um discurso de abertura que faça barragem a um discurso unicamente centrado no isolacionismo e no nacionalismo”.

E se em vez disto, disséssemos que o que faz falta, pelo contrário, à esquerda, é um discurso firme e de um certo encerramento de fronteiras? Sim, de um fecho, parcial, das fronteiras para as mercadorias e os capitais? Porque por “abertura”, já faz trinta anos que esta é efetuada e em grande escala, em grandeza natural. Depois, desde há muito tempo, em todo o caso, para que os Franceses – e “as classes populares” nas primeiras filas – tirem as conclusões lógicas.

E se o que o está a fazer falta nos nossos partidos e nos nossos sindicatos é uma revisão franca, de alto a baixo, das suas posições quanto ao comércio livre e quanto ao protecionismo – o que os colocaria em sintonia com as expectativas populares?

François Ruffin, Le grand lâchage de la classe ouvrière. Disponível no sitio  FAKIR | Presse alternative | cujo endereço é:

http://www.fakirpresse.info/Le-grand-lachage-de-la-classe,245

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