De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder. Texto 4.5 – Os estarolas do antifascismo contra a peste loira – a pior barragem contra a FN, por François-Xavier Ajavon

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder.

Texto 4.5 – Os estarolas do antifascismo contra a peste loira – a pior barragem contra a FN

Por François-Xavier Ajavon, cronista

Publicado por Causeur.fr em 5 de maio de 2017

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Forte trovoada num dia tranquilo em maio… Em resposta à aliança entre Nicolas Dupont-Aignan [1] e Marine Le Pen, a nata dos intelectuais de conforto reagiu nas redes sociais… Benjamin Biolay tratou o ex-candidato de “pequeno prostituto”, Mathieu Kassovitz escreveu sobriamente “imbecil, cara de cu” e Gilles Lellouche twittou “um grande merda“… O humorista Stéphane Guillon, quanto a ele, considerou correto ser irónico sobre a morte recente da mãe de Dupont Aignan. Ele disse em LCI: “a minha mãe teria feito a mesma coisa se eu estivesse empenhado junto de Marine Le Pen (…) A minha mãe também se seria deixado morrer como Madame Dupont-Aignan“. Isto merece ficar nos anais do Grande Nada. É triste, antes o anti-fascismo era Malraux, Alain, Nizan, Breton… era o Comitê de Vigilância dos Intelectuais Antifascistas, fundado na década de 30, mas isso foi antes…

BHL [Bernard-Henri Levy, escritor] apresenta… o “Fórum contra Marine Le Pen e o partido do ódio”!

No registo mais consistente dos “cocktails-jantares antifascistas”, assinalemos as sessões organizadas pela revista de Bernard-Henri Levy (La Règle du Jeu), apelidadas de “Fórum contra Marine Le Pen e o partido do ódio“. A próxima sessão realizar-se-á hoje, 5 de maio. O objetivo é incentivar os eleitores a moverem-se para ir à segunda volta e assim fazerem barragem contra o partido da Frente Nacional. Espera-se aí a presença de Yann Moix, Audrey Pulvar e Laurent Joffrin! Eles irão explicar que vão combater com armas e bagagens contra a praga loira. No último show, Christine Angot veio trazer o seu testemunho. Como François Fillon não estava na sala nem num raio de uma centena de quilómetros em torno da Mutualité, manteve-se sensata e não mordeu ninguém. Estavamos à beira de uma grande noite festiva no Théâtre du Rond-Point, em torno de Jean-Michel Ribes, com um concerto de Cali. Aliás, Ribes assinou um estrondos “Apelo do mundo da cultura contra a FN” nas páginas do Libération, com a cantora de tele-crochet Camilla Jordana, Léa Seydoux, os irmãos Dardenne e Béatrice Dalle. O nome Emmanuel Macron está totalmente ausente do texto, que apela de novo e sempre a que se “faça barragem” a Le Pen.

Em Malpasset, como noutros lugares, a História ensinou-nos que, às vezes, as barragens não resultam… Outra petição intitulada “Votar Macron para a República, sem ilusão” (sempre nas páginas do Liberation), assinado por intelectuais que todo o mundo nos inveja, tais como Georges Tin patrão de Cran ou Aymeric Caron e a muito evitável senadora Esther Benbassa, parece ser o produto de um gerador automático das horas mais sombrias… Pode ler-se aí, de forma não muito ordenada, palavras como: OEA, Vichy e Hitler. Um espanto!

Tem-se o sentimento de um mundo parisiano-parisiense que joga um jogo ligeiramente autista. O do “tranquilizemo-nos”. O mundo das posturas… mundo que olha a França a partir do seu pedestal, com a cabeça nas nuvens, numa espécie de oásis celestial que tranquiliza o Ego das gentes do VI Arrondissement de Paris e que recusa estar à escuta do povo, que é, seja dito de passagem, frequentemente o seu público… e que dará provavelmente no domingo uma votação superior a 40% a Marine Le Pen. Fazendo, no entanto, um esforço simples, esta elite teria podido certamente abordar e analisar as origens do mal, ou seja, quais as raízes do voto extremista – num contexto de crise económica interminável, de promessas não cumpridas, de inversão da curva do desemprego e de país sob tensão, gangrenado pela subida dos fundamentalismos, do terrorismo, que é um cancro deste século, e das violências quotidianas. Mas para compreender isso, esta casta teria talvez de fazer o esforço de tirar a cabeça do seu caixote de lixo dourado. Esta elite que procura ainda fazer opinião, que tem o monopólio da palavra pública, que tem nas mãos os meios de comunicação social, quando não é ela mesma controlada por eles…

Justiça para Theo, mas não para o polícia queimado

Neste fim-de-semana, no quadro da tradicional manifestação de 1 de maio, no final do cortejo, as forças de segurança foram alvo de ataques violentos por parte dos manifestantes e membros de ‘Black Blocs’, pretensamente antifascistas. Atingido por um coquetel Molotov, um CRS de 40 anos acabou por se transformar numa tocha humana. A imagem já deu a volta ao mundo e nomeadamente foi notícia de primeira página do New York Times. Essa imagem parece ter sido um pouco menos relevante para a imprensa francesa. O homem está em estado grave, com queimaduras de terceiro grau. Onde estavam, neste últimos dias, os peticionários que reclamavam ainda há pouco tempo justiça para Théo e difundiam de maneira irresponsável a ideia de uma polícia em guerra total contra os jovens dos bairros ©? Onde estavam eles para denunciar esta imagem – que certamente terá mais impacto do que a maioria dos discursos, debates e de avisos de alarme quanto à votação de domingo? E isto não passa de um simples exemplo.

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E na França Macroniana em levitação que se anuncia, o ressentimento que alimenta a votação na extrema-direita só pode aumentar. Na França de Macron, que se vislumbra no seu programa e nos seus discursos, na efervescência das suas palavras vazias e frases ocas; o seu calão de marketing; a França “start-up Nation”; a França da uberização; a França, que faz (o quê?); a França, que ousa (a quê?); que lugar para a outra França? A que é conhecida como a França “periférica”, a França que sofre, que é desconsiderada, que lugar para esta França que se sente traída? Contra a ascensão em força deste ressentimento, a farândola antifascista, os coktails-jantares no Teatro Rond-Point e as imprecações mediáticas não terão qualquer impacto. E isto não fará mais do que reforçar este sentimento de humilhação. Continuemos neste tom e teremos seguramente a Frente Nacional no poder em 2022. E como me dizia um amigo como piada, certamente Hans Gruber em 2027…

François-Xavier Ajavon, Les pieds nickelés de l’antifascisme contre la peste blonde- Le pire barrage contre le FN. Texto disponível em :

https://www.causeur.fr/intellectuels-artistes-anti-fn-liberation-44150.html

[1] N.T. Sucessivamente membro do RPR, do RPF e da UMP, antes de fundar em 1999 e presidir o Debout la France (DLF), partido que se reclama gaulista e soberanista. Presidente da Câmara de Yerres (Essonne) desde 1995 e deputado do departamento desde 1997. Candidato às eleições presidenciais de 2012 e de 2017, obteve 1,79 % e 4,70 % dos votos, respetivamente (vd. wikipedia).

 

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