EDITORIAL: O FOGO NO VERÃO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO – por João Machado

Há décadas que o Verão em Portugal é sinónimo de incêndios florestais. Clicando nos dois primeiros links abaixo poderão encontrar alguns elementos sobre a evolução da dimensão destes nos últimos cinquenta anos. Não é preciso um grande esforço, nem grande perícia, para compreender que a falta de uma política florestal adequada, o atraso no ordenamento do território e o despovoamento das regiões do interior (aquilo a que se chama é uma zona cada vez maior do país) estão entre as causas principais da catástrofe ocorrida este fim de semana no centro do país, e que parece estar a ultrapassar tudo o que ocorreu em anos anteriores. Outras há com certeza, também de grande importância, relacionadas directamente com a necessidade de reformular e reforçar os serviços de protecção civil, a começar pelos bombeiros (os seus efectivos são suficientes? o seu estatuto é adequado? as remunerações?) e pôr cobro (o que quer dizer: prevenir e resolver adequadamente) situações que periodicamente são referidas na comunicação social, como foi o caso dos helicópteros Kamov. Neste campo ainda há que referir a necessidade urgente de trabalhar cada vez mais com as populações, no sentido da prevenção das catástrofes, primeiro, e a seguir de haver preparação para as atitudes a tomar quando estas ocorrem.

Voltando ao campo da grande política recorda-se a importância de ter presentes os efeitos das alterações climáticas que estão a ocorrer no nosso planeta (apesar do que dizem personalidades como Donald Trump). Neste blogue, no editorial de 17 de Agosto do ano passado (clicar no terceiro link abaixo) procurámos alinhar alguns elementos sobre os sucessivos aumentos das temperaturas atmosféricas nos últimos anos. Não dispomos de elementos precisos sobre o que está a ocorrer este ano, mas não será descabido pensar que a tendência se manteve este ano. O fogo em Pedrógão Grande (pedimos desculpa por algum erro cometido na nossa interpretação) terá sido iniciado por uma faísca emitida durante uma trovoada seca. Estes fenómenos estarão a agravar-se devido ao aquecimento global.

Procuramos deixar dito que está claro que algumas das causas do terrível incêndio que está a assolar o nosso país têm de ser contrariadas por políticas muito concretas, que poderão ter de ser desenvolvidas ao longo de décadas, e mesmo de séculos. Reverter tendências migratórias, pôr no terreno novas políticas florestais e agrícolas, priorizar o ordenamento do território, são efectivamente tarefas para o longo prazo. Mas o longo prazo não é para iniciar daqui a um tempo indeterminado. Pelo contrário é obrigatório começar hoje mesmo. Sob pena de desperdiçar o curto e médio prazo e tudo o mais. E os nossos Verões  serem cada vez mais aflitivos.

Propomos que cliquem nos links abaixo:

http://www.dn.pt/lusa/interior/pedrogao-grande-quercus-lamenta-total-laxismo-das-autoridades-em-politica-florestal-8571917.html

http://www.uc.pt/fluc/depgeo/Cadernos_Geografia/Numeros_publicados/CadGeo30_31/Eixo1_4

https://aviagemdosargonautas.net/2016/08/17/editorial-julho-de-2016-o-mes-mais-quente-de-sempre/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_dos_inc%C3%AAndios_florestais_em_Portugal

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

2 comments

  1. Júlio Marques Mota

    Uma questão eu gostava de levantar: os meios pesados e caríssimos postos em marcha nos ataques aos fogos não são eles já um subsector de produção de material pesado que está na mão de particulares, em vez de todo ele estar nas na mão do Estado, isto é desde a produção à utilização final?

    Uma outra questão: quais são hoje as medidas de proteção da sociedade em face de pirómanos? Não necessitará esta situação de um novo e mais apertado enquadramento jurídico contra os piróamnos? Como se compreende que em clima de risco de ter quase todo o país a arder, haja “pirómanos reincidentes” à solta? Não passará tudo isto pela avaliação da questão das liberdades individuais face à urgente necessidade de defender os bens coletivos; floresta, populações, qualidade dos solos, qualidade do ar, qualidade das águas etc, ?

    São questões soltas aqui deixadas face à urgente resposta a dar a uma situação que desde já e até para o futuro está a sair caríssima para o país.

    Como comentário direto: um bom texto como editorial e que também subscrevo por inteiroi.

    JMota

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