Crise da democracia, crise da Política, Crise da Economia: o olhar de alguns analistas não neoliberais – 17. Trump e os Neocons: dançando a valsa umilateralista. Por Thomas Palley

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Crise da democracia texto 13 analise ciclo economico

 

17. Trump e os Neocons: dançando a valsa umilateralista

 

 

 

 

Por Thomas Palley(*), 29 de maio de 2017 thomas palley

17 Trump e os neocons

 

O fator neoconservador altera dramaticamente a interpretação das bravatas unilateralistas da administração Trump sobre política económica internacional.

 

Os primeiros cem dias de Donald Trump mostraram a sua inclinação para o unilateralismo nas relações internacionais. Essa inclinação reflete a sua disposição oportunista e intimidatória, e também se encaixa bem na sua postura anti-globalização.

O unilateralismo de Trump produziu também uma valsa perigosa com o establishment neoconservador de Washington. O oportunista Trump procura ganhar o apoio do establishment, enquanto o establishment neoconservador olha para o oportunista-em-chefe para implementar a sua visão própria do mundo.

Esta dança é claramente visível nas recentes ações militares, mas estende-se também à política económica internacional que é uma área de preocupação crescente neoconservadora.

Uma outra reviravolta é que o unilateralismo neoconservador pode ser praticado quer contra rivais quer contra aliados. O poder está no centro do projeto neoconservador. E o poder pode ser utilizado para bloquear rivais ou para dominar aliados.

Não se toleram rivais

O projeto neoconservador vai buscar o seu atrativo dentro dos Estados Unidos à crença de que nunca mais deverá haver um poder, como o da antiga União Soviética, capaz de rivalizar com os Estados Unidos.

Originariamente, o projeto neoconservador representava o pensamento ultra-conservador Republicano, mas substantivamente tornou-se um pensamento dominante.

Quer os Republicanos quer muitos Democratas agora acreditam que os Estados Unidos têm o direito de intervir unilateralmente em qualquer parte do mundo, quando quiser.

Estas forças bipartidárias pensam também que os Estados Unidos têm o direito de apimentar o mundo com bases militares e operações militares – nomeadamente tocando à porta da Rússia.

Este bipartidarismo é evidente no apoio de muitos Democratas à guerra do Iraque bem como a sua aceitação da guerra contra o terrorismo como justificação para intervir em todo o lado.

É também evidente no continuado investimento do Presidente Obama na expansão mundial de bases militares e na expansão de operações militares dos Estados Unidos nos Bálticos, na Europa central, sudeste da Europa e Georgia.

 O suplemento Democrata

Enquanto que os Democratas tendem a ser mais brandos que os Republicanos em matéria de potência sem rival, compensam isso complementando a lógica neoconservadora da intervenção global com a afirmação de que os Estados Unidos têm o direito de intervenção em nome da proteção e o avanço da democracia.

Este particular direito deriva do chamado “excepcionalismo dos Estados Unidos”. Segundo esta escola de pensamento, o governo dos Estados Unidos tem a especial missão de transformar o mundo promovendo a democracia. Isso reforça a crença bipartidária no unilateralismo dos Estados Unidos.

Unilateralismo económico, novo capítulo do neoconservadorismo?

O projeto neoconservador preocupava-se originalmente com a supremacia militar e visava a Rússia. Todavia, trata-se do poder dos Estados Unidos em geral, o que significa que envolve potencialmente qualquer país e qualquer dimensão da política internacional.

O objetivo neoconservador é a supremacia incontestável dos Estados Unidos. Se esse objetivo molda a política externa dos Estados Unidos, então a política económica internacional tem de se conformar com ele.

Na era da Guerra Fria, a moeda de poder era ter disposição de armas e ideologia. Na nova era da globalização, o comércio tornou-se uma importante nova moeda de poder, tornando a política económica internacional uma questão chave.

Consequentemente, com Trump, o unilateralismo neoconservador está agora a espalhar-se para as relações económicas internacionais.

A ascensão da China e as suas históricas fundadas aspirações a super-potência contribuíram também para o envolvimento neoconservador com a política económica internacional.

Contudo, isso faz emergir tensões e contradições dentro da aliança empresas-neoconservadores. A China é um rival potencial que preocupa os neoconservadores, mas é também uma importante fonte de lucros (atuais e futuros) que atrai as empresas.

Unilateralismo e hiper-nacionalismo

A inclinação neoconservadora para o unilateralismo funde-se perfeitamente com a inclinação psicológica de Trump para o unilateralismo. Ambos se entendem bem no atual clima político doméstico de hiper-nacionalismo.

O nacionalismo foi incentivado numa base bipartidária e constitui um terreno fértil para o unilateralismo. Todos os políticos, Republicanos e Democratas, agora ostentam um crachá na lapela com a bandeira.

As convenções políticas de ambos os partidos estão repletas de balões e panos vermelhos, brancos e azuis. A bandeira emoldura qualquer evento político, e o “Deus abençoe a América” (God bless America) está na boca de todo o político.

Além disso, a narrativa torcida da globalização feita por Trump, que responsabiliza “os estrangeiros e os imigrantes”, alimenta simultaneamente o nacionalismo e o unilateralismo.

Na perspetiva de Trump, alguém que não os gestores de topo das empresas dos Estados Unidos – e a sua implacável busca de auto-enriquecimento e interesse pessoal — tem de ser culpado pelas consequências de todos os encerramentos de fábricas nos Estados Unidos.

O fator neoconservador e Trump

A importância do fator neoconservador resulta de que altera dramaticamente a interpretação das bravatas unilateralistas da administração Trump sobre política económica internacional.

Em vez de ser uma fanfarronice temporária de Trump, essas bravatas são consistentes com a ideia neoconservadora das relações internacionais.

A deriva para o unilateralismo inspirada pelos neoconservadores explica o entusiasmo inicial dentro dos Estados Unidos que acolheu as ações militares unilaterais de Trump.

Esta é também a razão porque as suas críticas em relação à NATO levantaram tão poucas ondas no establishment de Washington e porque motivo esse mesmo establishment foi tão rápido a envolver-se na proposta de alteração do imposto de fronteira (border adjusted tax-BAT), apesar do seu carácter unilateral e da sua inconsistência com as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio).

O futuro das relações internacionais

A ilação a tirar é que o unilateralismo de Trump pode não ser uma aberração política temporária. Em vez disso, pode refletir tendências neoconservadoras duradouras dentro do atual regime dos Estados Unidos.

Apesar da intensidade destas tendências vir a ter fluxos e refluxos, constituem agora uma característica permanente. Isso tem implicações para a ordem das relações internacionais que os governos estrangeiros terão de assimilar.

Uma das preocupações é a excessiva dependência das exportações de alguns países em relação ao mercado dos Estados Unidos que torna esses países economicamente vulneráveis às restrições punitivas de acesso aos mercados impostas pelos Estados Unidos. Uma segunda apreensão diz respeito às aquisições por empresas estado-unidenses de empresas líder estrangeiras.

A Europa tem também de reconhecer que poderá sofrer efeitos negativos de ressaca em virtude das intervenções unilaterais dos Estados Unidos no Médio Oriente e noutros lugares. Em contraste, os Estados Unidos estão protegidos pelos oceanos Atlântico e Pacífico, e essa proteção pode fomentar ainda mais a temeridade militar dos Estados Unidos.

Texto original disponível em https://www.theglobalist.com/trump-and-the-neocons-doing-the-unilateralist-waltz/

(*) Thomas Palley é um economista independente, doutorado em Economia pela Universidade de Yale, reside em Washington DC. Foi diretor adjunto de Políticas Públicas na AFL-CIO, diretor do projeto Reforma da Globalização no Open Society Institute, economista chefe da US-China Economic Security Review Comission. Atualmente é membro do programa Schwartz Economic Growth  na New America Foundation. Publicou artigos em numerosas revistas e jornais académicos. Recentemente fundou Economics for Democratic & Open Societies. O objetivo do projeto é fomentar a discussão pública sobre o tipo de acordos económicos e condições que são necessários para promover a democracia e uma sociedade aberta. Os seus numerosos artigos de opinião encontram-se publicados na sua página web  http://www.thomaspalley.com.

 

 

 

 

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