O Euro, a Alemanha e Espanha – Poderá Pedro Sánchez salvar o PSOE? Por Michael Pettis (parte 1)

cacafonia na UEsondagemelpaisevolucao

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Poderá Pedro Sánchez salvar o PSOE?

Por Michael Pettis, em 18 de agosto de 2014

Este artigo, publicado por El País Blogs, 25 de agosto de 2014, com introdução e tradução de Ernesto Ekaizer, e subtitulado O euro, a Alemanha e a Espanha, (vd.  https://politica.elpais.com/politica/2014/08/25/analitica/1408987773_140898.html), foi editado na Viagem dos Argonautas em 1 e 2 de fevereiro de 2016 (vd. https://aviagemdosargonautas.net/2016/02/02/o-euro-a-alemanha-e-espanha-e-entre-parenteses-podera-pedro-sanchez-salvar-o-psoe-ii/). Com a recente reeleição de Pedro Sánchez como secretário-geral do PSOE em 21 de Maio passado, parece-nos oportuna e atual a reedição deste muito interessante artigo escrito há 3 anos atrás, agora em português (parte 1).

euro alemanha e espanha

Michael Pettis é um economista norte-americano. Nascido em Saragoça, Pettis viveu a sua infância em Málaga, e trabalhou em vários bancos norte-americanos. Entre 1996 e 2001, ocupou o posto de diretor-gerente dos mercados de capital da América Latina no banco de investimentos Bear Stearns. Em 1998, quando Argentina era cortejada como darling (querida) dos mercados internacionais, Pettis escreveu um memorandum dirigido ao Departamento de Tesouro dos Estados Unidos no qual assinalava que havia 50% de possibilidades de que a Argentina suspendesse os pagamentos (default) em três anos e que isso aconteceria, no máximo, dentro de cinco anos. O governo de Buenos Aires declarou o incumprimento (default) em dezembro de 2001, três anos depois da previsão de Pettis. Neste texto concentra a sua atenção na evolução da dívida pública e na dívida externa de Espanha, que se aproxima e supera os 100% do Produto Interno Bruto, respetivamente.

Há dias pedi autorização a Pettis para traduzir o seu recente artigo sobre a crise do euro, ocasião em que mantivemos uma troca de opiniões por correio eletrónico. Ele recordou a sua experiência latino-americana e o memorandum sobre a Argentina que escreveu ao Tesouro norte-americano em 1998.

“Muita gente, nomeadamente o ministro Domingo Cavallo, estava furiosa pelo facto de que alguém pudesse dizer uma estupidez tão óbvia, e até mesmo o responsável de investigação do meu banco estava em desacordo comigo, que trabalhava então no departamento de trading, embora de modo mais cortês que Cavallo. Nenhum deles percebia a dinâmica da dívida. Quando os níveis de dívida alcançam um determinado ponto, o modo como os agentes económicos se comportam altera-se e torna-se muito difícil crescer superando o peso da dívida. Não vejo como a Espanha poderá gerir o peso da sua dívida, que é pior cada ano que passa. Ou bem o país reestrutura a sua dívida com o perdão de uma parte da mesma, ou a carga fiscal sobre os trabalhadores e as classes médias terá de aumentar substancialmente. É desonesto pretender que se passará de outro modo”.

Pettis é atualmente professor de Finanças na Escola de Gestão de Guanghua da Universidade de Pequim e tanto a sua informação como a sua capacidade de análise tornam-no num dos principais observadores da evolução económica da China.

Eis o seu artigo intitulado “Pode Pedro Sánchez salvar o PSOE?”, de 18 de agosto de 2014. que bem poderia intitular-se O euro, Alemanha e Espanha.

Ernesto Ekaizer

Se Pedro Sánchez Castejón espera liderar a Espanha e o seu partido para se sair da atual crise económica, ele terá de reconhecer que a crise é fundamentalmente um conflito entre os interesses dos banqueiros europeus e os interesses dos trabalhadores europeus.

No mês passado Pedro Sánchez Castejón foi eleito como o novo secretário geral do Partido Socialista Obrero Espanhol (PSOE) de centro esquerda. O El País designou a sua nomeação como uma “renovação” do PSOE, embora Sánchez pareça ter sido escolhido principalmente devido a ser demasiado novo e desconhecido para poder sofrer a repulsa que a maioria dos espanhóis sente em relação aos poderes políticos estabelecidos.

Mas como novo líder do PSOE, sem uma grande parte da bagagem levada em redor pela velha geração de líderes, tem de fazer frente a uma opção importante. Se ele espera liderar a Espanha e o seu partido para se sair da atual crise económica, ele terá de reconhecer que a crise é, fundamentalmente, um conflito entre os interesses dos banqueiros europeus e os interesses dos trabalhadores europeus, e deveria redesenhar as políticas do PSOE a favor das muito preocupadas classe trabalhadora e classe média. Senão verá com tristeza como a extrema direita da Europa mais cedo ou mais tarde assumirá o controlo do debate, seja diretamente, seja indiretamente à medida que os partidos de centro-direita assimilem os seus argumentos.

Em toda a Europa, não menos que em Espanha, os decisores políticos recusaram-se a reconhecer as contradições fundamentais geradas pela criação do euro, tal como, na década de 1920, se negaram a reconhecer as contradições fundamentais criadas pelo padrão ouro.

A flexibilidade dos câmbios é um dos mecanismos através dos quais uma economia se ajusta à volatilidade do crescimento e às variações dos preços relativos. Contudo, quando um país cede o controlo da sua moeda essa volatilidade não desaparece. Em vez disso o ajustamento permitido pelas mudanças no valor de câmbio da moeda tem agora de ocorrer por algum outro mecanismo.

Um deles, muito comum, é sob a forma de ajustamento dos salários. Sob um padrão-ouro rígido, os países com moedas sobrevalorizadas normalmente ajustar-se-ão através da diminuição dos seus salários relativamente aos dos seus parceiros comerciais e, é claro, o impulso mais forte para provocar a queda desses salários foi o desemprego causado pela expansão dos setores de bens de exportação transacionáveis em detrimento dos bens domésticos. Por outras palavras, a volatilidade que poderia ter sido absorvida pela moeda foi resolvida principalmente à custa dos trabalhadores.

O economista norte-americano Barry Eichengreen defendeu em Golden Fetters (Algemas de ouro. O Padrão-ouro e a Grande Depressão 1919-1939- Oxford University Press, 1992) que o padrão-ouro durou tanto tempo durante o século XIX provavelmente devido a que a conexão entre a taxa de câmbio e o desemprego não foi plenamente compreendida e, mais importante ainda, que os trabalhadores não estavam suficientemente organizados e emancipados para se protegerem do processo de ajustamento que resolvia os desequilíbrios entre as moedas. Em virtude destas condições se terem alterado, sobretudo nas democracias liberais, Eichengreen considerava improvável um regresso ao padrão-ouro.

Mas dentro da área do euro, o ajustamento tem de assumir a mesma forma que no padrão ouro. Dentro desta zona os ajustamentos cambiais não são possíveis, e consequentemente a Europa é obrigada a realizar o clássico ajustamento do padrão-ouro quando os preços e os salários estão desalinhados internamente.

Com a Alemanha a ter desvalorizado efetivamente o seu euro durante a década posterior à sua criação relativamente a países como a Espanha, para a qual o euro estava sobreavaliado, um desalinhamento de salários e preços [em Espanha] tem de ser resolvido essencialmente através de ajustamentos de preços e salários. E isto implicou, como é óbvio, que estes países tenham sido forçados a sofrer altas taxas de desemprego até se conseguir ajustar os salários.

A forma “correta” para resolver os desajustamentos internos seria a Alemanha reativar a procura interna e aumentar os seus salários internos mas, por variadas razões, que têm que ver principalmente com a determinação da Alemanha de proteger os seus bancos relativamente às decisões de empréstimos realizados na última década, esta alternativa é pouco provável se não houver uma pressão muito maior por parte das nações periféricas. Com o fim de proteger os bancos, que querem uma moeda forte e que todas as dívidas sejam totalmente reembolsadas ou subsidiadas com transferências do setor das famílias, o grosso do ajustamento será suportado pelos trabalhadores e por uma classe média ansiosa.

Dito de outro modo, a Europa sofre de uma procura estruturalmente débil em grande parte devido à procura estruturalmente débil na sua maior economia, a Alemanha, e a consequência é que durante muitos anos a Alemanha baseou-se no excesso de procura dos países periféricos da Europa para equilibrar a oferta e a procura. A crise de 2008 pôs fim a esta forma de equilíbrio tornando impossível aos países periféricos da Europa consumir em excesso. Em vez de resolver o problema mediante o fomento da procura na Alemanha, a solução aplicada pela Europa é reduzir a procura no resto da região (a redução dos salários reduz o consumo). Se a Europa fosse uma economia pequena, um aumento da conta corrente [da balança de pagamentos] poderia compensar esta crescente debilidade da procura, mas a Europa é demasiado grande para depender da procura externa. Tem, pois, de se basear no desemprego para “resolver” a débil procura interna.

Proteger o valor da moeda e da dívida externa é habitualmente considerado como agir “de maneira responsável”, mas isso tem um custo. A elite política, tanto de esquerda como de direita, tem sido relutante em tornar explícita a conexão entre as políticas alemãs, o euro e o desemprego nacional, preferindo em vez disso culpar as políticas laborais nacionais erradas, apesar de estas políticas laborais serem muito anteriores à crise do euro. Esta confusão afeta não apenas a Espanha. Mario Draghi, por exemplo, recentemente culpou a “falta de reforma do mercado laboral e as regulamentações comerciais excessivas” do fracasso atual da Itália em crescer, como se estes fossem problemas apenas depois de 2008.

A subida dos marginais

Não surpreende o facto de que o fracasso em enfrentar a raiz fundamental da crise tenha deixado a política europeia mais vulnerável aos partidos marginais e populistas. Mas enquanto a extrema esquerda pouco mais faz do que dar publicidade à indignação, a extrema direita montou um ataque hábil e coerente contra a estrutura monetária da Europa e o establishment bancário. Os seus ataques nem sempre são racionais – culpar a imigração estrangeira, ou os EUA, ou a China, pelos problemas da Europa indicia um elevado nível de confusão – mas posicionaram-se com clareza.

É por isto que a extrema direita tem estado tão bem em toda a Europa, e continuará a estar, e eventualmente em Espanha, à custa dos grandes partidos. Nem o PSOE nem o PP (o partido de centro direita em Espanha) reanimarão a economia de Espanha agindo “responsavelmente”, dada a intransigência das forças subjacentes à crise económica. Excepto no caso muito pouco provável de a Alemanha inverter energicamente as políticas de contenção salarial e de rendimento das duas últimas décadas, a Espanha realmente terá somente duas opções políticas, ambas muito difíceis.

Madrid pode provocar confusão no consenso da elite e avançar agressivamente para uma reestruturação da dívida externa Espanha, ao mesmo tempo que redefine a sua participação no euro, por exemplo, abandonando a união monetária e ao mesmo tempo que comprometendo-se de maneira credível (isto é, com o apoio da Alemanha) a reintegrar-se na união monetária numa determinada data futura. Neste caso, a Espanha sofrerá um ano de caos antes de que as reformas postas em prática, ironicamente, por Mariano Rajoy possam provocar um retorno a um crescimento rápido.

Alternativamente, a Espanha poderá continuar a sofrer muitos mais anos de elevado desemprego e, com isso, um peso crescente de dívida. A recente melhoria anémica da economia espanhola, anunciada com grande fanfarra, não ajudará quase nada a resolver qualquer destes problemas, sobretudo com a Alemanha e a França a debilitarem-se. O desemprego manter-se-á elevado durante muitos anos e a combinação de desemprego prolongado, a emigração de muitos dos melhores e mais brilhantes profissionais, a infraestrutura deteriorada do país, e uma erosão no panorama político assegurarão que a Espanha será uma das nações doentes da Europa durante décadas.

Para evitar a irrelevância do PSOE, Pedro Sánchez deve reconhecer formalmente que os fracassos das políticas acumulados nas últimas quatro décadas, incluindo a rigidez laboral e a corrupção fora de controlo, embora sendo reais, não são a causa da crise. A alta taxa de desemprego em Espanha, a dívida excessiva e a estagnação do crescimento são o resultado indireto das políticas postas em prática pela Alemanha dirigidas a reduzir a participação dos salários alemães no PIB e reduzindo também o investimento nacional. Estas políticas provocaram em Espanha os mesmos problemas que afetaram simultaneamente Portugal, França e o resto da Europa periférica.

Desde 2001, com o consumo e o investimento decrescentes em relação à produção alemã de bens e serviços, a única forma de que a Alemanha pudesse evitar um aumento do desemprego era conseguir um excedente crescente na sua conta corrente. As restrições impostas pelo euro, que garantiram as exportações massivas de capital alemão para o resto de Europa, permitiram à Alemanha obter este excedente, enquanto os seus vizinhos europeus, que deixaram de ter o controlo da sua política monetária e incapazes de impedir que as importações de capital alemão que provocaram a subida do preço dos ativos e dos produtos de consumo, se viram obrigados a sofrer os equivalentes défices externos.

Estes países tinham somente duas possíveis respostas aos desequilíbrios alemães. Em primeiro lugar, as taxas de juro baixas e as crescentes importações de capital da Alemanha podiam desencadear um boom insustentável do consumo e elevar os custos internos em relação aos da Alemanha; isto foi o que se passou anteriormente a 2008. Em segundo lugar, a renovada competitividade obtida pela indústria alemã obrigaria os vizinhos europeus da Alemanha a absorver o desemprego que deveria ter afetado a Alemanha; isto foi o que aconteceu depois de 2008, uma vez esgotado o boom de consumo.

O seu compromisso real com a Europa tornou difícil aos políticos reconhecerem que a crise foi causada por muitas das políticas, incluindo a criação do euro, que pareciam fundamentais para a unificação europeia, e por isso atribuíram as causas da crise às distorções internas, e sobretudo aos elevados salários. Uma vez que o Banco Central Europeu (BCE) expressou a sua disponibilidade [julho de 2012] para proporcionar liquidez ilimitada, e apesar do elevado e crescente peso da dívida e do forte desemprego, Bruxelas declarou que a crise do euro tinha, em larga medida, ficado para trás.

(continua)

Texto original de Michael Pettis em

http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/56405Logo Michael pettis

 

 

 

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