A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. I – A Alemanha: Contas externas e financeirização por procuração (parte 1).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

I – A Alemanha: Contas externas e financeirização por procuração (parte 1), por Onubre Einz

Publicado por crieusa.blog.lemonde, em 11 de abril de 2013

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Reedição revista do artigo publicado na Viagem dos Argonautas em 23 de março de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/03/23/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-i-a-alemanha-contas-externas-e-fi/)

 

 

Começamos uma série de artigos sobre a Alemanha examinando as suas contas externas. Esta decomposição permite pôr em evidência as acentuadas diferenças entre a situação dos EUA e a da Alemanha.

Os EUA sacrificaram, literalmente, o bom comportamento das suas contas externas em favor de um modelo de crescimento que passava pela desindustrialização do país e pela financeirização da economia. A Alemanha tomou o caminho inverso. Ela manteve as contas externas equilibradas e uma sólida base industrial, agora em enfraquecimento devido à passagem dos produtos Made in Germany para os produtos Made By Germany.

E, contudo, uma leitura cuidadosa dos dados publicados pelo Bundesbank complica um pouco as coisas. A Alemanha não é um país onde exista uma correlação estreita entre o crescimento do património acumulado pelas famílias e o desenvolvimento de um grande mercado financeiro. A Alemanha é, de facto, um país que se financeiriza subtilmente; sustentaremos a tese de que ela se financeiriza por procuração sem explicar o porquê.

Este trabalho conduzir-nos-á, pois, em duas direções.

  1. Interrogar-nos-emos posteriormente sobre o modelo de crescimento alemão e examinaremos se os traços do capitalismo americano não estarão presentes, sob formas discretas, no modelo de crescimento alemão. A presença destes traços poderia ser o sinal de um declínio inevitável.
  2. Prepararemos assim o caminho para nos questionarmos sobre a eventualidade de um deslocamento do capitalismo para novos horizontes geográficos ; é a questão que está subjacente a este novo blog.

Utilizámos os dados do Bundesbank para reconstituir as contas externas da Alemanha. O Bundesbank decompõe as contas externas da Alemanha utilizando a grelha International Financial Accounts (IFS) do FMI. A balança de pagamentos é apresentada por rubricas de acordo com um esquema ternário habitual: importações, exportações, saldo da balança. Em contrapartida, o Bundesbank não dá o detalhe das contas financeiras, não dando em on-line senão os saldos. É pena, pois o exame do detalhe das contas financeiras não terá a precisão que desejaríamos.

Os dados publicados não são destinados ao público em geral: expressos em dados mensais, é necessário um grande trabalho de compilação para os anualizar.

Estas lacunas da estatística alemã não nos impedirão extrair conclusões picantes sobre o modelo de crescimento alemão.

A – Os dados gerais.

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O balanço geral das contas externas revela uma situação completamente oposta à dos EUA.

A balança de pagamentos anual é excedentária desde 2001, depois dos duros anos a seguir à reunificação em que era deficitária.

A situação financeira da Alemanha inverteu-se. De importadora de capitais durante os anos 90, a Alemanha tornou-se exportadora de capitais após 2001. No gráfico acima, a evolução das curvas mostra claramente que ocorreu uma mutação após 2001.

Depois desta data, a Alemanha parece estar a converter os importantes excedentes da sua balança de pagamentos em exportação maciça de capitais. O saldo das contas externas ilustra este facto; é muito ligeiramente deficitário desde essa data.

Convertendo os excedentes da sua balança de pagamentos, a Alemanha participou, pois, muito fortemente na financeirização da economia mundial dos anos 90.

O total dos capitais líquidos exportados (entrada de capitais – saída de capitais) situa-se em -1607 milhares de milhões de Euros, enquanto que o montante acumulado do saldo da balança de pagamentos é de 1410 milhares de milhões de Euros.

Essa participação seria maior se em vez do saldo dos fluxos financeiros dispuséssemos do detalhe das suas saídas e entradas brutas.

B – A balança de pagamentos ou as contas externas não-financeiras

     1° A balança comercial.

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A balança comercial mostra que as exportações alemãs são muito dinâmicas. Mas as importações não o são menos. O movimento de alta das importações e das exportações, rompido pela crise do milénio, foi retomado logo a seguir desde 2001. O elevado nível das importações e das exportações no final da década (1998) foi ultrapassado em 2007; a crise aguda de 2008-2009 não interrompeu o desenvolvimento do comércio externo alemão que voltou a crescer depois de 2010.

A força industrial da economia alemã é ilustrada no saldo da balança comercial que não pára de aumentar desde há vinte anos. Este saldo contraiu-se no período de recessão, mas retomou imediatamente depois. Foi o caso após a crise do milénio, bem como após a crise aguda de 2008-2009.

O comércio alemão parece, hoje, estar a triunfar da crise. E a economia alemã que o sustenta parece fazer prova de um grande dinamismo demonstrado pelas importações e as exportações de mercadorias.

     2° A balança de serviços.

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A balança de serviços é o calcanhar de Aquiles do comércio externo da Alemanha que praticamente não brilha nesta área. É a tradução em termos de comércio externo da fraca produtividade dos serviços alemães a nível nacional.

Único ponto positivo, a Alemanha tentou preencher o saldo negativo das suas trocas de serviços com um esforço de exportação que acabou por compensar. Enquanto que os anos 1990 se distinguiram por uma degradação da balança de serviços, após 2001 a Alemanha conseguiu melhorar o seu saldo de serviços aumentando as suas exportações. Resultado ? Em 2001-2012, a balança de serviços estava equilibrada. Os excedentes da balança de pagamentos que podem ser convertidos em investimentos financeiros fora da Alemanha deixaram de ser afetados pelo saldo negativo da balança de pagamentos.

     3° A balança dos rendimentos de capitais.

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A balança dos rendimentos de capitais representa a síntese dos juros ganhos nos investimentos financeiros, dos dividendos de ações e dos lucros das empresas, os quais formam os IPD [Intérêt, Profit et Dividende].

Os rendimentos de capitais têm o mérito de dar uma contribuição positiva à balança de pagamentos. Desde 2004, o saldo dos rendimentos de capitais é claramente excedentário.

Antes de 2004, os rendimentos de capitais pagos ao exterior (são registados com o sinal negativo) – custos da reunificação obrigam – estavam regularmente acima dos rendimentos de capitais recebidos pela Alemanha (são registados com o sinal positivo) do exterior. Desde 2004, o saldo dos rendimentos de capitais permite à Alemanha reforçar os excedentes da sua balança de pagamentos.

     4° As componentes da balança de pagamentos.

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O papel proeminente do saldo da balança comercial é incontestável, antes e depois de 2001. A muito forte contribuição do saldo da balança comercial para a balança de pagamentos é apoiada pelos excedentes da balança de rendimentos de capitais após 2004 que haviam tido um eclipse durante os anos 92.

Os excedentes da balança de pagamentos podendo ser convertidos em investimentos financeiros sofreram a amputação das transferências correntes que foram negativas.

Estas transferências correntes são a síntese das transferências de dinheiro público e privado entre a Alemanha e o resto do mundo,  incluindo os movimentos de fundos entre Estados, entre a UE e a Alemanha, as pensões e os salários  (ver http://www.bundesbank.de/Navigation/EN/Statistics/Time_series_databases/Macro_economic_time_series/its_list_node.html?listId=www_s201_b06) .

O resultado foi um aumento do saldo positivo da balança de pagamentos desde 2002 permitindo à Alemanha exportar capitais. São estes capitais que há que examinar, considerando os fluxos financeiros.

(continua)

Texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

 

 

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