A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. I – A Alemanha: Contas externas e financeirização por procuração (parte 2).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

I – A Alemanha: Contas externas e financeirização por procuração (parte 2), por Onubre Einz

Publicado por crieusa.blog.lemonde, em 11 de abril de 2013

financeirizacao collagefinancas

Reedição revista do artigo publicado na Viagem dos Argonautas em 24 de março de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/03/24/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-i-a-alemanha-contas-exter/)

 

 

(conclusão)

B – A balança financeira 

     1° Dados gerais

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Dividimos o saldo financeiro (A) – medindo as saídas ou entradas de capitais que figuram no primeiro gráfico deste texto – em três conjuntos que o determinam:

  • As operações da banca federal com o exterior e a formação das suas reservas cambiais (B);
  • Os investimentos diretos no exterior ou IDE (C);
  • As operações financeiras privadas (D)

Apesar das operações da Banca federal e a formação de reservas cambiais, parece evidente que houve uma profunda transformação da lógica dos fluxos financeiros desde há mais de 20 anos. Desde 2004, a Alemanha retomou com saldo positivo os investimentos diretos no exterior (C), como era igualmente a situação antes da crise do milénio. Mas o que é novo, é que a Alemanha se tornou um exportador líquido de capital financeiro desde 2004, depois de ter sido um importador líquido na década precedente.

A comparação entre o saldo dos IDE e o saldo das operações financeiras privadas mostra que a Alemanha é uma potência cada vez mais exportadora de capital-dinheiro e cada vez menos realizadora de investimento direto no estrangeiro (IDE).

Uma lógica financeira está, pois, a sobrepor-se a uma lógica produtiva nos movimentos financeiros da Alemanha com o resto do mundo.

Por conseguinte, a conversão dos excedentes da balança de pagamentos faz da Alemanha uma plataforma produtiva permitindo, através do saldo da balança de pagamentos, tornar possível uma exportação líquida de capitais dominada pelos fluxos financeiros em detrimento dos fluxos de investimentos produtivos.

     2° Componentes dos investimentos financeiros.

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As componentes dos investimentos financeiros permitem abordar superficialmente o seu conteúdo. As aplicações de carteiras compostas principalmente por ações e obrigações foram uma importante área de aplicações financeiras da Alemanha no exterior. A tendência geral é muito clara, afirmando-se desde 1992, com o ano de 2001 a marcar a separação entre duas épocas. Para os outros investimentos que agrupam os produtos financeiros mais perigosos e uma série de aplicações de diversa natureza, a tendência é ainda mais acentuada, e é desde meados dos anos 90 que a Alemanha exporta os seus capitais e participa na financeirização da economia com uma determinação não diminuiu. É o que atestam as curvas de tendência.

Tendo em conta a reunificação que pesa ao longo de toda a década de 90, pode-se considerar que o saldo positivo dos investimentos em carteira se manteve positivo nos anos 90 devido às compras estrangeiras de títulos do Tesouro (dívida pública alemã) que são contabilizados em aplicações em carteira. Pode-se admitir que sem a reunificação os investimentos em carteira se teriam ajustado a outros investimentos.

Neste caso, a conversão dos excedentes da balança de pagamentos em produtos financeiros teria sido claramente mais marcada.

 

     3° Operações do Bundesbank.

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Nas suas saídas de capitais o Bundesbank não ficou atrás. Mas estas operações técnicas entre bancos centrais não podem ser associadas à lógica dos investimentos financeiros. No que diz respeito à formação das reservas cambiais, os seus saldos desde o final dos anos 90 indicam que a Alemanha não alterou o seu nível. O que é bastante lógico com a criação do Euro e o papel atribuído ao BCE.

 

Pequenas conclusões

A análise detalhada das contas externas alemãs permite tirar uma série de pequenas conclusões.

Em primeiro lugar, a Alemanha já não tem, claramente, uma lógica de investimento de uma economia produtiva. Ela deslizou lentamente para uma financeirização dos seus excedentes correndo o risco de colocar em plano secundário a economia produtiva.

A Alemanha entrega-se a esta financeirização por procuração. É conduzindo operações de investimento financeiro no exterior que a economia alemã participa na financeirização. A Alemanha não é um motor ativo neste processo, como nos EUA, mas utiliza-o para fazer pender a sua economia para o lado das finanças.

A organização económica da Alemanha continua a ser uma organização aparentemente dominada por fortes considerações de produção e investimento. É dificilmente questionável. No entanto, as suas contas externas permitem identificar uma tendência de aumento da financeirização. Neste contexto, a economia alemã pode fornecer através dos excedentes da sua balança de pagamentos o combustível da sua financeirização, não estando mais comprometida assim tão claramente com uma lógica de produção.

Esta primeira análise permite colocar uma questão : como explicar que a Alemanha esteja tentada pela financeirização dos excedentes fornecidos pela sua economia nacional. Este será o tema de um próximo texto.

Uma serie de  questões surgem a seguir: existirão outros sinais que denunciem uma transição da economia alemã para uma esfera financeira que o exterior lhe proporciona mas que ela se recusa a construir internamente? Encontrar-se-á uma relação entre a financeirização e a busca de um crescimento através das exportações comerciais? De facto, são estas últimas que disponibilizam o capital dinheiro reexportado sob a forma de aplicações financeiras. E não haverá nestes excedentes colocados no estrangeiro traços de uma modificação da repartição da riqueza produzida na Alemanha?

Uma financeirização por procuração, muito diferente de uma financeirização voluntária à americana poderá anunciar um declínio atuando na Alemanha pela porta do cavalo.

Esperamos que nos tenhamos feito compreender: no nosso pensamento a via estatística não é um caminho de ideias feitas sobre a Alemanha. Essa via deve permitir levantar lebres, correr atrás delas para levantar questões e interrogações.

Nos próximos textos seguiremos esta lebre que nos passou entre as pernas a propósito da análise das contas externas da Alemanha. É uma lebre que corre muito na paisagem ideológica francesa. A Alemanha é hoje a terra da grande promessa : esforço dos trabalhadores, moderação dos salários, inovação e competitividade, produtos de forte valor acrescentado e de qualidade, são as características da economia alemã. É o modelo a seguir…

O belo exemplo alemão não teria ele uma lógica muito diferente daquela que as nossas elites dirigentes e os media coniventes nos apresentam para melhor fazerem passar o rigor e a austeridade? Ao colocarmos esta questão estamos no cerne da questão do declínio e das poções amargas que as classes dirigentes sem projeto nos fazem engolir.

A pesquisa das estatísticas que fizemos trouxe-nos à memória a palavra de Me de Stael : « A Alemanha, é exótica», e nós acrescentaremos que ela é também cheia de surpresas.

Ver texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

 

 

 

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