A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. VIII – A sub-acumulação do capital e a crise presente dos capitalismos históricos (parte 1).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

subacumulação

VIII – A sub-acumulação do capital e a crise presente dos capitalismos históricos, por Onubre Einz (parte 1).

 

 

 

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr, em 30 de junho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 21 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/21/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-viii-a-sub-acumu/).

Este texto tem como objetivo analisar as taxas de acumulação ou de investimento de capital produtivo nos EUA, na Europa e no Japão. Nós permanecemos fiéis ao método utilizado nos textos anteriores. Começamos pelo exemplo americano para questionar outros países que estão a sofrer os brutais efeitos da depressão atual.

Os EUA têm-nos mostrado que a queda da taxa de acumulação de capital foi em grande medida explicável pelo papel crescente assumido pela repartição do rendimento a favor das famílias de mais elevados rendimentos. Estas famílias são as que compõem o último decil, as famílias do top 10, cuja posição pode ser alargada até ao decil imediatamente abaixo, compondo as famílias do top 20, que conseguiram alargar o fosso com os restantes 8 decis à custa de uma queda do investimento e de uma crescente desigualdade na distribuição de rendimento entre os americanos. As rivalidades patrimoniais têm acentuado este fenómeno através da imposição às sociedades anónimas de uma acumulação de capital financeiro concorrente com a acumulação produtiva.

Trata-se, neste texto, de analisar se podemos encontrar no caso de outros países traços deste processo que não podemos completar aqui apenas por uma comparação da distribuição do rendimento nacional entre as classes sociais. É muito cedo para fazer essa análise.

Nós queremos antes recolocar esta questão colocando-a ao nível dos capitalismos históricos, ou seja, das sociedades que fizeram o seu arranque económico antes de 1914. Nesta hipótese temos o Japão, a Itália, a Espanha, a França, a Alemanha, a Grã-Bretanha e os EUA para tratar esta questão.

Também gostaríamos de aproveitar esta questão para abrir uma perspetiva mais ampla. Será que só podemos explicar a introdução e a generalização do modelo de capitalismo anglo-saxónico por uma lógica de classe, ou não será igualmente necessário ver no desenvolvimento das desigualdades de rendimento penalizando o investimento a tradução de uma crise antiga dos capitalismos históricos sendo acompanhada por uma revolução na distribuição dos rendimentos que ela tornou possível?

A expressão de capitalismo histórico que aqui utilizamos aponta para capitalismos em situação de maturidade. Por maturidade, entendemos uma industrialização completa, o desenvolvimento do consumo de massas, um lugar crescente de despesa em serviços e por uma saturação relativa dos mercados. Esta saturação é relativa, porque a criação de riqueza, a distribuição dessa riqueza entre rendimento e investimento e a divisão do rendimento entre as classes sociais fixa sempre os limites específicos para um processo de criação de riqueza e de saturação dos mercados. Portanto, não pode haver saturação absoluta.

Estes capitalismos em situação de maturidade têm todos em comum terem já enfrentado uma crise de estagflação na década de 1970, que foi o produto de uma saturação dos mercados. É a saída desta crise antiga que lançou os alicerces da atual crise. E é esta crise presente que ameaça transformar as opções feitas no início dos anos 1980 em fator de bloqueio e de declínio irreversível do capitalismo histórico. É que os capitalismos históricos perderam a batalha decisiva: estes recuam inexoravelmente na divisão social do trabalho conforme mostra o investimento. Portanto, é para este que nos devemos virar.

A – Uma constatação: a queda generalizada das taxas de investimento. Transformação dos capitalismos dominantes em capitalismos em declínio.

1° Notas preliminares.

Nos gráficos que irão ilustrar este texto devemos ter em conta somente as tendências das taxas de acumulação de capital. Não pretendo comparar países uns com os outros; de facto, as fontes estatísticas são produzidas por organizações de diferentes países; a comparação dos dados seria falseada desde o início. Se nos envolvêssemos em comparações destas apenas podíamos ser levados a análises absurdas.

Tivemos também de fazer opções de cálculo sobre as taxas: para o Japão e os EUA, os dados são simples: a formação bruta de capital produtivo é a síntese dos investimentos em imobiliário das empresas e em meios de produção (equipamentos e software para os EUA, fábricas e equipamentos para o Japão). Os dados trabalhados pela Comissão Europeia (base de dados AMECO) tiveram de se cingir aos instrumentos produtivos devido a que o cálculo dos imóveis para as empresas agrega os edifícios que resultam de investimento público no imobiliário ou de vocação coletiva (escolas, universidades, hospitais, etc.). Para os países europeus, o facto de ter de isolar os meios de produção, com exclusão do imobiliários para as empresas, não prejudica a demonstração deste texto. Nós podemos raciocinar sobre dados estatísticos incompletos porque estamos a analisar as tendências de investimento por longo período.

Por fim, medimos as taxas de acumulação de capital produtivo relativamente ao PIB dos países selecionados, e esta taxa de acumulação produtiva nacional mede o esforço em investimento de cada país. Nós mantivemos a utilização da taxa bruta de acumulação de capital produtivo em países diferentes, com exclusão das taxas de acumulação líquidas (Formação bruta de capital fixo-consumo de capital fixo), porque estatisticamente os dados são muito heterogéneos. As taxas brutas de acumulação correspondem ao que é comumente referido pela expressão Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), e as taxas líquidas à formação líquida de capital produtivo (FNCP).

2° As taxas de acumulação nacional bruta do capital produtivo.

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As taxas de acumulação de capital produtivo do Japão e dos EUA indicam uma diferença significativa na evolução dos seus esforços de acumulação.

Os EUA realizam um esforço de investimento produtivo crescente a partir de 1960. Este esforço atingiu um ponto alto na viragem na década de 1980. Desde a década de 1980, a acumulação de capital produtivo afundou-se nos Estados Unidos. É a escolha de um modelo de crescimento passando por significativas deslocalizações e por substituição de produção interna por importações, que estão na origem desta evolução, deslocalizações e substituições por bens importados que permitem moderar as altas salariais à custa de uma massiva desindustrialização. Os défices comerciais alargam-se, a situação privilegiada do dólar e o desenvolvimento do mercado financeiro permitem o refinanciamento do défice da balança de pagamentos.

No Japão, a quebra da acumulação de capital produtivo é mais recente. A acumulação é forte até à crise de 1973. A acumulação de capital retoma apenas no início da década de 1980, atingindo um pico em 1992 e tem a partir daí uma queda significativa. Esta queda é o produto da explosão da bolha nos mercados de títulos e da bolha do imobiliário que datam dos anos de 1990.

Há um faseamento diferente dos períodos de acumulação de capital. Mas as últimas três décadas nos EUA e no Japão mostram uma tendência comum quanto à queda da taxa de acumulação.

Nestes dois casos, pode-se incriminar um aumento da partilha da riqueza a favor dos rendimentos mais altos e em detrimento do investimento. A distribuição desta riqueza mostra um aumento sensível nos rendimentos mais elevados desde há 30 anos e o aumento regular do coeficiente de Gini sem que se note uma clara afirmação dos rendimentos do capital (juros e dividendos) na formação dos rendimentos mais elevados.europe

Na Europa, a erosão das taxas de acumulação nacional é evidente para três países: a Itália, a Espanha e a Alemanha desde 1970. A França viu a sua taxa de acumulação cair menos fortemente, mas essa taxa era muito baixa na década de 1970 em comparação com o primeiro grupo de países.

A comparação sobre o longo período da Alemanha e do Reino Unido indica uma queda das taxas de acumulação de ambos os países, apesar das taxas de acumulação produtivas serem muito distantes uma da outra. A data charneira da baixa geral das taxas de acumulação é a década de 1990. Mas a erosão das taxas de acumulação produtiva tem sido um fenómeno mais ou menos precoce na maioria dos países de capitalismo antigo.

Deixaremos de lado o aumento das desigualdades na repartição do rendimento, o que nos levaria muito longe.

 

3° A comparação das taxas de acumulação

Pensar na lógica das taxas de acumulação, significa que se deve sempre ligar a acumulação bruta, a acumulação líquida e o stock de capital acumulado

Uma baixa na taxa de acumulação bruta de capital supõe sempre uma queda na formação líquida de capital produtivo em virtude de o aumento da formação bruta de capital se alinhar com o aumento do consumo de capital fixo.

Uma formação líquida de capital fixo mais lenta implica uma desaceleração no aumento do stock nacional de capital produtivo, seja este stock expresso em valor ou em volume.

A lenta progressão do stock de capital expresso em valor e em quantidade física (em volume) pressupõe um aumento compensatório da produtividade para manter o crescimento da riqueza nacional. A produtividade é, na verdade, a alavanca que evita que a taxa de crescimento da riqueza nacional não seja fixada pelas taxas de acumulação de capital produtivo, bruta e líquida, pois, com efeito, a taxa de crescimento declinaria então fortemente. Mantivemos a produtividade do trabalho para medir esta eficácia produtiva, a produtividade multifactorial é de facto uma medida que não permite comparações internacionais fiáveis devido ao estabelecimento da base do seu cálculo (séries estatísticas heterogéneas ou incompletas).

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O crescimento da produtividade do trabalho por hora compensa uma acumulação de capital em desaceleração desde os anos de 1990. Este forte crescimento na maioria dos países – com exceção da Itália e da Espanha – permite ao PIB não estar sujeito a fortes contrações no seu crescimento. Se o crescimento do PIB não sofre as consequências negativas de taxa de acumulação em baixa por todo o lado é porque a eficácia produtiva dos meios de produção tem estado a crescer. De facto, com a taxa de acumulação a descer, uma produtividade constante ou baixa levaria com efeito a uma queda do PIB.

A questão central é a de determinar se a produtividade por si só pode compensar uma erosão da taxa de acumulação de capital produtivo.

4° Capital conquistador e Capital em declínio.

Para responder a esta questão, pensamos que devemos fazer uma distinção entre um capital conquistador e um capital em declínio. O capitalismo é dito conquistador, quando as taxas de acumulação bruta e líquida e o stock de capital produtivo nacional aumentam muito rapidamente. O capitalismo está em declínio, quando se dá o inverso.

Portanto, é evidente que os capitalismos históricos estão todos um pouco mais ou menos em declínio desde há uns vinte anos. A data da sua entrada em ‘declínio‘ é variável, mas o produto final destes declínios mais ou menos antigos é por todo o lado uma queda na taxa de acumulação do capital desde há uma vintena de anos.

Isto não é uma observação de fraco significado. Ainda dominando a economia mundial na década de 1970, os capitalismos históricos começaram a estar desde há duas ou três décadas perante uma situação de declínio lento, o que hoje se traduz para eles por uma grande crise.

(continua)

Onubre Einz. La sous-accumulation du capital et la crise présente des capitalismes historiques, texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/06/30/la-sous-accumulation-du-capital-et-la-crise-presente-des-capitalismes-historiques/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

 

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