DO TEATRO DE AMADORES AO EXERCÍCIO DA CIDADANIA – II – PROPOSTA MÍNIMA – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

DO TEATRO DE AMADORES AO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

por António Gomes Marques

(conclusão)

II – Proposta Mínima

 

O homem, até por uma questão de sobrevivência, sempre teve necessidade de dominar a natureza. Desta necessidade terão nascido os rituais de celebração que procuravam acalmar os efeitos da natureza. Estes rituais, mais propriamente cerimónias religiosas, com os seus ritos plenos de magia e de símbolos, o que terá levado muitos historiadores de teatro a verem nestes verdadeiros espectáculos a origem do teatro, havendo, no entanto, outros historiadores com opinião diversa. A preocupação de agradar aos deuses para obter os seus favores na fertilização da terra e para a obtenção de boas colheitas ou mesmo para os favorecerem nas lutas com tribos rivais ou na caça são dados que a história regista como provados, mas, de facto, as pinturas encontradas em cavernas e que, inquestionavelmente, registam o que podemos chamar de encenações teatrais são registos da Antiguidade Grega, como também há documentos que atestam a realização de espectáculos teatrais na civilização egípcia, portanto anteriores aos espectáculos gregos.

Mas não é esta a questão que nos interessa aqui, muito menos entrar na polémica sobre a origem do teatro. O que a mim mais me interessa é referir que esses rituais ou mesmo as práticas religiosas eram produto do colectivo, ou seja, nesses rituais ninguém era excluído, todos participavam.

Quando nos referimos aos séculos passados mais próximos e falamos de classes sociais, todos, com mais ou menos certezas, sabemos do que falamos; hoje «é verdade que se tornou difícil ou mesmo impossível falar de classes sociais, não é porque as relações sociais e profissionais se tivessem tornado mais brandas, mas porque as grandes categorias sociais se fragmentaram em grupos mais reduzidos, implicando não só uma diferenciação entre elas, mas também comportamentos opostos. Sobretudo, categorias como os trabalhadores emigrados suscitam a rejeição de uma boa parte da população.» (Touraine, 2012, pág. 63).

Ora, são as acções em que todos participem que me interessa invocar e que me parece poderem ser chamadas de animação cultural, acções essas que poderão tratar das questões aparentemente mais insignificantes, mas o que temos de pensar é a quem poderão interessar tais acções. As pessoas, ao nível da rua, do bairro, da cidade ou mesmo, o que seria ideal, ao nível do país sentem-nas como suas? Então, poderemos pensar que a acção em questão é boa e devemos empenhar-nos no seu desenvolvimento.

Todas as épocas têm os seus mitos e a nossa não foge à regra, mas os mitos não são eternos. Hoje, um dos mitos que vivemos é o do consumismo, o que nos faz recordar governantes do nosso país a incentivar-nos ao consumo, à obtenção de crédito, ou seja, o que importava era ter dívidas. Sabemos, nós, sobretudo os que trabalham por conta de outrem, aos sofrimentos que isso nos levou a todos, os que contraíram dívidas e os que não as contraíram, factura que ainda estamos a pagar. Quem beneficiou foram os mesmos, de que ninguém sabe os nomes, que identificamos como mercado financeiro especulativo, não criador de riqueza, note-se! Ora, os mitos são fruto da imaginação dos humanos e «Estas ordens imaginadas são intersubjetivas, pelo que para transformá-las temos de mudar, ao mesmo tempo, a consciência de milhões de pessoas, o que não é fácil. Uma mudança de tal magnitude só pode ser levada a cabo com a ajuda de uma organização complexa, como um partido político, um movimento ideológico ou um culto religioso. No entanto, para estabelecer organizações assim tão complexas, é preciso convencer muitos estranhos a cooperarem uns com os outros. E isso só acontecerá se os estranhos acreditarem em alguns mitos partilhados. Ou seja, para alterar uma ordem imaginada existente, temos, primeiro, de acreditar numa ordem imaginada alternativa.» (Harari, 2017, pág. 145).

Portanto, sigamos o conselho, mas com alguma modéstia. Motivos «para unir a malta», como cantava o Zeca, não nos faltam e o teatro de amadores, dentro da animação cultural como eu gostaria, tem aqui um manancial que pode aproveitar, usando de um pouco de imaginação. Sabemos também que, para haver teatro, temos de ter um pré-texto e a sua representação num palco para um público e, se esse pré-texto tratar de questões que o público assuma como suas, temos o caminho para o êxito aberto.

Para começar, temos um espaço para aprofundar e, em muitos locais, para desenvolver, que é o espaço das autarquias.

Teremos de começar por tentar captar os mais jovens; conquistados estes, mais fácil se torna atrair os mais velhos, a começar pelos seus pais. Para isto, não podemos deixar de exercer um trabalho contínuo junto das Escolas, onde há sempre um ou outro professor disposto a colaborar nesta acção e, juntos, captar a atenção das Associações de Pais, não podendo entrar-se em contradição com as actividades da própria Escola, procurando mesmo colaborar nelas se nos for dado esse espaço, nem contrariar as próprias actividades curriculares do estabelecimento de ensino.

Há, portanto, que criar sinergias com as Escolas, aproveitar todas as estruturas da área em que estamos inseridos: Teatro, Cinema, Biblioteca e Centros de Documentação, Departamentos de Formação, Centros de Exposições, Museus, Centros de Acolhimento, procurando, especificamente, desenvolver um trabalho coordenado com as estruturas das mais variadas instituições do Concelho, a começar com a área da própria autarquia que trata das actividades culturais, com as Juntas de Freguesia, com as Associações Recreativas, incluindo as Musicais e as Desportivas, com as Associações Ecologistas e, naturalmente, com os Grupos de Teatro de Amadores que existam ou promovendo a sua criação. E mesmo com empresas, nem que seja para verificar da sua disponibilidade para dar apenas alguns apoios financeiros.

Há, com toda a certeza, na área abrangida pela Autarquia, um número de pessoas, que pode ser significativo, com experiência até profissional ou no teatro de amadores ou nas mais variadas associações, que poderão ser contactadas e atraídas para o nosso objectivo se lhes demonstrarmos que contamos com a sua experiência.

Há uma outra realidade com que não podemos deixar de contar e que se prende com a actividade dos partidos políticos, sempre desconfiados em relação a qualquer intervenção na sociedade, local ou nacional, que não seja por eles dominada, devendo a nossa forma de actuar demonstrar que a acção que desenvolvemos não é contra este ou aquele partido, sendo, portanto, bem-vindos os seus militantes em igualdade de direitos e deveres com aqueles que ao projecto já estão dedicados.

Os amadores de teatro são fundamentais na conquista de públicos, dado que cada vez mais as portas das escolas se lhes abrem e também porque uma enorme percentagem de portugueses viu teatro graças à actividade desenvolvida pelos amadores. Os profissionais de teatro, na minha opinião, devem meditar neste aspecto e não podem esquecer que os amadores se vêm tornando cada vez mais exigentes, mesmo no campo estético, por cada vez mais os grupos de teatro de amadores serem constituídos por pessoas com um grau cultural bem mais elevado do que há alguns anos, graças ao seu esforço pessoal mas também devido aos cursos de formação virados para o teatro, em Portugal e no estrangeiro. Se os profissionais de teatro estiverem atentos, poderão retirar grandes vantagens na colaboração com este tipo de estruturas, sendo o benefício para todos, a começar pelos habitantes da área abrangida.

Está a falar-se de um programa para vários anos, dado que, primeiro, há que ouvir e, depois, ir ao encontro das necessidades das populações no que ao campo cultural respeita.

Temos de saber criar uma estrutura disciplinada, onde cada um tem que saber o lugar que ocupa, inclusive na hierarquia da organização. Portanto, a organização tem que ser eficiente. A minha experiência de vida, com realce para a vida profissional, diz-me que esta é uma questão fundamental.

É bom que fique claro que, em toda a acção, haverá sempre o cuidado de não competir com a acção dos que desenvolvem actividades de índole cultural, a começar pelas Autarquias. A acção da estrutura a criar deve estar preparada para ser humilde e ter uma acção complementar, com a esperança de, um dia, se construir um plano de acção que envolva todas as estruturas existentes na área envolvida, ao nível do Concelho ou mesmo ao nível intermunicipal.

Portela (de Sacavém), 2017-09-12

 

Bibliografia

 

Brecht, Bertolt (1964) estudos sobre TEATRO – Para uma arte dramática não-aristotélica, coligidos por Siegfried Unseld. Lisboa, Portugália Editora, numa tradução directa de Fiama Hasse Pais Brandão, com a colaboração de Lieselotte Rodrigues;

Dias, Luís Augusto da Costa (2011): O «Vértice» de uma Renovação Cultural – Imprensa periódica na formação do Neo-Realismo (1930-1945), Tese de Doutoramento em História, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra;

Dort, Bernard (1980): Leitura de Brecht, tradução de Mário Sério, Lisboa, Forja Editora, SARL;

Espinosa, (2012): Tratado Político, Tradução do latim, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio, Lisboa, Temas e Debates e Círculo de Leitores;

Ferreira, Costa, (1985):Uma Casa com Janelas para Dentro, Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda-Sociedade Portuguesa de Autores;

Harari, Yuval Noah (2017): Sapiens, De Animais a Deuses – História Breve da Humanidade, Tradução de Rita Carvalho e Guerra, Amadora, Elsinore, 20/20 editores;

Marques, António Gomes (2009): E assim nasceu uma paixão pelo teatro, in «Teatro Moderno de Lisboa (1961-1965) – Um Marco na História do Teatro Português», Lisboa, Tito Lívio, com a colaboração de Carmen Dolores, Editorial Caminho;

Marques, António Gomes (Coord.), (2014): Revista Nova Síntese, n.º 9 – Imprensa Regional e Neo-Realismo, Vila Franca-de-Xira, Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo;

Pita, António Pedro (2002): Conflito e Unidade no Neo-Realismo Português, Porto, Campo das Letras – Editores, S. A.;

Pessoa, Deolindo (2012): CITEC – Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho – 40 Anos, Montemor-o-Velho, Edição do CITEC;

Pita, António Pedro, Dias, Luís Augusto Costa (1966): a imprensa periódica na génese do movimento neo-realista – 1933-1945, Vila Franca-de-Xira, Museu do Neo-Realismo;

Rebello, Luís Francisco (2009): Prefácio «Era uma vez…» a «Teatro Moderno de Lisboa (1961-1965) – Um Marco na História do Teatro Português», Lisboa, Tito Lívio, com a colaboração de Carmen Dolores, Editorial Caminho;

Alain Touraine, 2012, «Depois da Crise», Lisboa, Instituto Piaget.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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