A GALIZA COMO TAREFA – e aí, na Espanha? – Ernesto V. Souza

Portugal, hoje, está muito bem”, diz o rapaz, engenheiro eletrónico, aluno de pós-graduação, a uma outra companheira de turma. Ela, na casa dos 40, contrato precário de professora doutora e especialista em Engenharia florestal, afirma com a cabeça. “Pois é“, diz outro, este doutorando de Medicina que vem de passar um Erasmus em Coimbra e de celebrar o fim de ano em Lisboa, “não é como antes”.

A crise económica, na Espanha, é uma evidencia. Uma cantiga constante de preocupação que lastra o futuro, um tanto apagada pelo revival nacionalista e bombardeamento mediático patrioteiro, que não deixa ouvir a voz triste e medonha da gente nova, e não tão nova, formada, e sem futuro na Espanha.

O tema da conversa é Portugal, a economia de Portugal, as possibilidades laborais em Portugal para licenciados e doutores em especialidades científicas, económicas, industriais e tecnológicas. Também Madonna, o futebol e Salvador Sobral aparecem. A língua é uma tentativa de português entrefebrado de castelhano, que no melhor dos casos parece o galego inicial dos neofalantes das cidades galegas. O contexto é o de umas aulas básicas de língua portuguesa para pessoal universitário: docentes, pesquisadores, pessoal de administração e alunos de cursos de pós-graduação e doutoramento.

Quem ia dizer. Assisto estuporado, eu próprio por acaso profissional parte da turma, a um diálogo que se repete, uma e outra vez no após aula e na aula. Nas motivações e expectativas, no interesse por apreender uma língua que para os castelhanos é tão distante como para nós o italiano ou o francês.

O interesse profissional por aprender português, os intercâmbios, duplas docências, possibilidades de trabalhar numa universidade, congressos, seminários, publicações e também de mais em mais, a possibilidade de um futuro profissional em Portugal de começar ou reencaminhar uma trajetória académica que na universidade espanhola não é possível, é murmúrio que começa a ser ouvido nas universidades castelhanas.

Interessante. Portugal aí como referente. Mesmo com o espetacular bloqueio informativo com que os média espanhóis envolvem Portugal: as novas políticas, económicas e sociais que chegam de Portugal nos últimos anos após a mudança política cara a esquerda e de uma política internacional e económica diametralmente oposta à da conservadora “austeridade” espanhola, definida pela Europa.

Os efeitos da crise económica, da precarização crescente e da cativação do investimento público na Espanha estão a movimentar os olhos da nova Castela cara Portugal, por vez primeira desde a Revolução dos Cravos, diria eu, enxerga-se, assim, com inveja.

O pessoal inclui Portugal na agenda. Bem melhor que os países do Norte da Europa, da América nem falar. Com o Brexit, a crise e uma certa hostilidade ao migrante na Alemanha, França e Holanda, os mercados laborais possíveis são exóticos e afastados: Dubai, Austrália, China… Portugal está perto e é próximo. Pode-se ir e voltar num dia em havendo necessidade, e as gentes, a alimentação, os climas não são assim tão diferentes.

Na Galiza (onde tradicionalmente Portugal é um destino possível para emigrar, e onde o pessoal – por aquela casualidade e mistério sem resolver da afinidade da língua – está potencialmente mais dotado para apreender português), lá, também, algumas vozes (por fora da tradicional torcida reintegracionista), de mais em mais, começam a enxergar Portugal, o espaço económico e empresarial português, com inveja, saudades, desejo e possibilidade tentadora.

Sorrio para mim, eu emigrante, sempre de passo cambiado, a lembrar hoje aquele ditado un tanto afrontoso que há apenas uma década se jogava aos reintegracionistas galegos: “Se Portugal fosse a França ou a Alemanha, toda a gente na Galiza seria lusista e correria a aprender bom português”.

Portugal para a Galiza, o português para os galegos, estão aí sempre, de sempre, após Minho e na rede a um clique. Mas apenas se as Espanhas de Douro, Tejo e Guadiana se interessarem maciçamente por Portugal, a Galicia (e Galiza com elas) terão interesse.

Que cousas. A pouco que nos despistemos e mudam os tempos…

One comment

  1. Abanhos

    Texto bem gerentes.
    Que delícia de leitura

    Gostar

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