Publiquei dois artigos sobre o que se passava nos Estados Unidos quanto à utilização de drogas agora legalizadas para fins recreativos. Dois textos que mostravam à evidência o que é o capitalismo americano e onde se falava sobre o cannabis e a bolsa. Entretanto, enviei-os a alguns amigos meus. De três deles tive reações curiosas. O primeiro retomou o texto e enviou-o aos seus amigos com o comentário fortemente crítico relativamente à lógica subjacente à realidade exposta no artigo: “Viva o capitalismo!” O segundo comentário a que aqui me refiro dizia: “isto parece um mundo de ficção científica ou eu estou a ficar velho?”. E na sequência mandou-me um artigo publicado a 24 de Janeiro que completava e de que maneira o artigo anterior. E o terceiro diz-me que se talvez se trate da confirmação do que falava Aldous Huxley, da droga Soma que tornava os cidadãos felizes.
Entretanto a revista francesa Causeur publica hoje um artigo sobre a juventude endinheirada e a viver na ponta da moda, dando uma clara ideia da sua visão do mundo. O artigo fala-nos pois sobre gente jovem, gente sempre na moda e de dinheiro, gente que se calhar é apoiada pelos media franceses, pelas revistas, pelos jornais, pela televisão, dando-nos uma ideia de que esta será muito diferente do que se fala sobre a juventude americana e talvez sobre franjas da juventude portuguesa.
E os meus três amigos acima referidos têm razão: por um lado, o capitalismo não se coíbe de nada desde que isso resulte em lucros, pois no lógica do capitalismo a moral mede-se nos cifrões das contas bancárias, pois são estas a expressão da moral no capitalismo selvagem que vivemos hoje, e, por outro, isto parece mais uma reportagem de ficção científica mas, infelizmente não é, é o espelho da América que poderemos amanhã ver na Europa ou algures, é o espírito da capitalismo, não como o via Joan Robinson e os seus colegas de Cambridge, mas como o vêem os homens da Finança hoje, em que tudo é válido desde que dê dinheiro, desde que valorize os títulos que se tem em carteira.
Dúvidas do que afirmo? Vejamos o que nos diz um dos mais cotados membros desta alta finança que nos esmaga, o multimilionário Ray Dalio, gestor do fundo de cobertura Bridgewater, numa entrevista concedida a uma especialista dos mercados financeiros, Gillian Tett, e alto quadro do Financial Times:
“Mas Dalio recentemente passou a considerar que não tem sentido falar acerca de “a economia”, ou de negócio sobre essa “máquina” global. Isso resulta de uma questão que os multimilionários geralmente preferem evitar: o aumento da desigualdade de rendimento. Mais especificamente, Dalio acha que a desigualdade está a aumentar tão rapidamente que criou múltiplas “economias”: embora a elite viva numa economia em expansão, “para os 60% de menores rendimentos, ou até mesmo para os 80%, há uma economia deprimida que não está a crescer bem”. Isso significa que devemos refletir na forma como falamos sobre “economia”, diz ele. A América precisa de uma “comissão nacional para repensar as nossas métricas económicas”.
Mas essa visão também mudou a forma como ele modeliza o futuro: ele acha que esta crescente desigualdade está a criar tantos conflitos que haverá um conflito político – e não económico – a impulsionar os mercados em 2018 e mesmo para além de 2018. “[Nessa altura] não haverá a mesma volatilidade da inflação, crescimento e de taxas de juros.
Portanto, as questões políticas são hoje mais importantes do que as questões macroeconómicas “, diz Dalio. “O mundo tem sido até aqui conduzido pelas políticas dos bancos centrais. Não é agora este o caso “, acrescenta, observando que os investidores devem estar atentos não (apenas) às declarações do Fed, mas” também às próximas eleições em França ou no Reino Unido, ou quão hospitaleiro será Jeremy Corbyn relativamente ao capital? “
Eu digo-lhe que concordo de todo o meu coração com o que acaba de dizer, mas sublinho que isso cria um desafio prático. Dalio adora utilizar modelos de computador para prever fluxos financeiros e fazer negociação sobre títulos e gasta enormes recursos para estar na vanguarda da utilização das tecnologias digitais, incluindo a inteligência artificial. Mas como é que alguém pode prever o aparecimento do populismo ou da revolução com uma equação?
“Pode-se converter o que cada um pensa num algoritmo”, insiste Dalio. “Criamos um indicador de conflito olhando para o que nos dizem os media e para as coisas. Fazemos análises de todos os conflitos políticos no passado e do seu impacto nos mercados [na base dos modelos] “
“Este número crítico produz algumas conclusões alarmantes. No ano passado, as analises do modelo de Dalio mostravam que a proporção do voto captados pelos candidatos populistas aumentou de cerca de 7 por cento em 2010 para 35 por cento em 2017. Esta enorme mudança, aparentemente, tinha antes acontecido uma só vez, na década de 1930, pouco antes da segunda guerra Mundial. Então, os algoritmos prevêem uma outra guerra? Dalio evita a questão, mas admite que não consegue ver nada que reverta esta trajetória. Isso é parcialmente assim porque acha que a tecnologia digital está inexoravelmente a exacerbar a desigualdade através da eliminação de empregos. ” Nós estamos a caminho de um mundo onde cada um de nós tem de ser capaz de escrever algoritmos e falar essa língua ou então irá ser substituído por eles. “, acrescenta Dalio. Outro problema é o crescente nível de endividamento global. “Eu não estou a prever nada como o tipo de crise de dívida que tivemos em 2008”, diz ele. “Mas há uma enorme pressão financeira que vai atingir duramente 60 por cento ou mais das pessoas de menores rendimentos , especialmente quando temos pela frente a próxima recessão.”
Tudo bem claro, nós “estamos a caminho de um mundo onde cada um de nós tem de ser capaz de escrever algoritmos e falar essa língua ou então irá ser substituído por ele”-
É pois a realidade de agora americana que aqui se expunha nos textos sobre charros, e porque não será também esta a realidade em Portugal amanhã, sob a tutela das empresas americanas a explorar aqui o mercado de cannabis que entretanto tornaram sofisticado?
A esquerda portuguesa que pense nisto… são os meus votos.
Entretanto, um professor desta minha cidade, Coimbra, a quem enviei o presente texto mandou-me também a sua tomada de posição face ao artigo que agora apresento, dizendo o seguinte:
“Assustador!
Porém, se os jovens americanos consideram que o álcool é mais nocivo que a marijuana, tal não é o caso da maioria dos jovens europeus, nomeadamente dos jovens universitários portugueses, espanhóis, franceses, etc., que consomem conjuntamente as duas (ou mais, como o ecstasy) substâncias para obter um efeito, uma “sensação” mais rápida e explosiva.
Basta ver o exemplo da Queima das fitas em Coimbra e o nº de casos de coma ou overdose provocados pela ingestão de “shots” simultaneamente com drogas psicoativas e, por fim um charro para prolongar o efeito.
É óbvio que a máfia da alta finança (com a bênção dos governos seus lacaios) não pode deixar escapar tal fonte de rendimento. Aliás, a colusão da alta finança e da máfia “tradicional” não é fenómeno recente, basta lembrar o mero exemplo, entre milhares, do 18th Amendment de 1920. Nada, ou quase nada, mudo intrinsecamente desde então. Os lobbies mafioso-financeiros têm sempre a última palavra….”
E assim terminou o comentário deste meu amigo professor.
Curiosamente a revista Causeur publica hoje um artigo sobre gente jovem, gente sempre na moda e de dinheiro, gente que se calhar se aproxima do que o meu amigo professor descreve sobre a Universidade de Coimbra na Queima das Fitas e digo pelo menos, porque parte da visão do mundo que emerge das práticas descritas no artigo da revista Causeur ou descritas no comentário do meu amigo professor são muito semelhantes. E estas práticas distinguir-se-ão elas da visão do mundo dos jovens americanos, dos mesmos grupos sociais, que se explica nos dois artigos citados? Penso que não, mas gostaria de estar enganado.
É pois este artigo que agora vos disponibilizo com autorização do diretor da revista Causeur.
Júlio Marques Mota
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Pedimos desculpa ao Júlio Marques Mota de só publicarmos este seu oportuno comentário sobre os tempos que vivemos. Em todo o caso ele não perdeu qualquer actualidade. A seguir indicamos os links que dão acesso aos artigos acima mencionados:
UMA EMPRESA VISIONÁRIA E UMA REFERÊNCIA NO MERCADO DA MARIJUANA, por MAXWELL CARLTON
SOBRE CHARROS: AS START-UPS EM MARIJUANA VENCEM, por FARHAD MANJOO


A verdade é que estamos assistir à decadência da chamada civilização ocidental. Quantas, ao longo dos milénios, já desapareceram? Depois do imperialismo – é inexorável – só pode chegar a derrocada passando por um regresso à discussão sobre qual o sexo dos anjos. Há um outro poder económico que está a emergir nas margens doutro lago. O Atlântico perde o seu valor em favor do Pacífico e quem, abusiva e injustamente, tem dirigido o mundo ocidental – disso não pode haver dúvidas – não sabe administrar a retirada, bem pelo contrário.CLV