CARTA DE BRAGA – “NOVOS ESCRIBAS?” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

Em 2017 foram entregues 150 mil declarações em papel. Este ano já não será possível. E a tecnologia para entregar pela Internet mudou.

Foram apenas 2,8% do total, mas, em valor absoluto, o número de declarações de IRS entregues em papel no ano passado ainda atingiu as 150 mil. Em 2018, este número será zero. Tudo porque, pela primeira vez, é obrigatória a entrega de todas as declarações deste Imposto pela internet.

“Expresso”, 08.02.18

Eucaliptal, algures, há quase uma semana.

 

– Ó vizinho, o seu filho vem cá, até ao fim de Março?

– O que é que se passa, senhor Abel? Porque quer saber do meu filho?

– É que este ano tenho de fazer o Imposto no computador e eu nem sequer sei o que isso é! E o seu rapaz está sempre a mexer nessa coisa! Poderia ajudar-me, porque não sei de mais ninguém a quem possa pedir! Estas modernices só nos vêm complicar a vida!

– E porque quer que seja o meu filho a fazer a declaração?

– A quem é que vou pedir? A um gajo qualquer que nem conheço? Um gajo que vai passar a saber da minha vida?

– Mas você pode calar e guardar tudo para si!

– Se calo, os gajos das finanças aparecem logo para me chatear! Se for para lá, encontro filas que nunca mais acabam quando for o dia da entrega, por haver muitos como eu e a maioria é dos vizinhos cá do lugar!

– Teremos de nos desemerdar!

– Pois! Mas é uma pena o seu rapaz não estar por cá!

O senhor Abel andou para casa e no caminho passou pelo lugar da fruta.

 

– Ó Rosa, ajudas-me a separar os papéis para o Imposto?

– Outra vez, senhor Abel? Essa merda nunca mais vai acabar?

– E este ano ainda está pior! O Imposto tem de ser feito com computador!

– Pois, senhor Abel! Vai haver muita gente que se vai governar à custa dos ceguinhos dessas maquinetas, como nós os dois!

– Tu já não te lembras, mas antigamente, havia gente a quem se pedia e às vezes até se pagava, para nos escrever cartas! Mas ali só se botava o que a gente queria e nunca se abria muito a boca para ninguém saber da nossa vida! E agora?

– Vamos ter de falar com alguém que saiba destas coisas! Talvez com o senhor prior!

– E já pensaste no que vai acontecer nas vilas e aldeias mais pequenas onde a maioria é gente como nós? Nem vai haver padres para tantos!

– E o senhor já pensou na quantidade de problemas para essas pessoas, por essas terras fora? Há muita que nem sequer sabe o caminho das finanças, isto se ainda as houver lá na terra? Não acontecerá a mesma coisa como já acontece quando se tem de ir ao centro de saúde ou ao tribunal? Também é serviço para os bombeiros? Como é que vai ser?

Eucaliptal, ano 2018, impostos, computadores, bombeiros, desemerdanços, conversas no lugar da fruta e outros, os gajos das finanças e novos escribas!

– Não haverá quem ofereça também uns óculos novos, só de leitura?

– Porquê, senhor Abel?

– Vai haver muita conta a conferir e acertar lá mais para a frente, em Abril e Maio! Eles é que dizem!

– Temos que andar para a frente, senhor Abel!

– E onde vai ser? Na nossa casa, na do senhor prior, na das Finanças ou aqui no lugar da fruta? Ao menos aqui, até tu Rosa, podias ajudar!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Maria Mamede

    ‘stou sem palabras!!! E a brincar , a brincar, disse a verdade de muita gente à rasca!
    Abraço

    Gostar

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