Trickle-down, trickle-up, eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte I – 8. Como é que os cortes de impostos vão desencadear uma recessão. Por Patrick Watson

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte I – 8. Como é que os cortes de impostos vão desencadear uma recessão

Por Patrick Watson patrick watson

Publicado por Mauldin Economics em 5 de dezembro de 2017

 

De acordo com os especialistas mais cínicos, os programas governamentais geralmente atingem o oposto do seu objetivo pretendido. E às vezes assim acontece.

Por exemplo, a “guerra contra as drogas” de Richard Nixon ainda está em andamento, mas as drogas estão definitivamente a ganhar a guerra.

Alguns programas governamentais, no entanto, são mais eficazes. Os bombeiros estão a fazer um bom trabalho a extinguir incêndios. A guarda costeira dos EUA salva vidas todos os dias. Os professores da escola pública formam os alunos que preferiam estar noutros lugares.

E depois há o nosso Congresso cada vez mais disfuncional. Por onde começar?

Eu escrevi recentemente sobre como é que o novo plano tributário do Congresso perde a oportunidade de impulsionar o crescimento económico. Agora penso mesmo que pode ser ainda bem pior. Em vez de simplesmente não estimular o crescimento, as mudanças fiscais poderiam realmente desencadear uma recessão. É o que vamos explicar.

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Image: Renegade98 via Flickr

 

Expansão longa e fraca

Eu expliquei há duas semanas porque é que os cortes de impostos não estimularão a economia tanto quanto os legisladores republicanos pensam. A maioria dos CEOs dizem que eles vão utilizar esta economia em impostos para a recompra de ações ou para aumentar os dividendos, não para aumentar o volume de emprego ou para expandir a produção.

Desde então, a Comissão mista sobre os impostos, uma comissão não partidária do Congresso, considerou que a lei de impostos do Senado iria estimular apenas 0,8% do crescimento económico, dividido ao longo de 10 anos, e acrescentar um milhão de milhões à dívida pública dos Estados Unidos.

Mas vamos deixar de lado a dívida, por agora. E se, em vez de pouco ou nenhum crescimento, este projeto de lei fiscal desencadear claramente uma contração na produção e no emprego?

A atual expansão económica é agora a terceira mais longa desde a segunda guerra mundial. É também a mais fraca de todas elas.

Aqui está o gráfico que mostrei neste ultimo Verão.

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Source: BCA Research

A linha amarela é a retoma atual que começou em 2009. Apenas os períodos de crescimento de 1960 e 1990 foram mais longos — e ambos tiveram um crescimento muito maior.

Então, só pelo tempo de duração, já estamos em dívida ou atrasados face à recessão. Sim, a economia poderia melhorar mais a partir daqui… mas provavelmente não por muito tempo.

Potencial alcançado

Na semana passada, o departamento de comércio reviu a sua estimativa para o terceiro trimestre quanto ao PIB ajustado para um ritmo anualizado de 3,3%. Embora isso fosse uma boa notícia, também assinalou qualquer coisa de sinistro.

Além do produto interno bruto real, os economistas registaram o “PIB potencial “. O PIB potencial é o máximo que a economia é capaz de crescer, tendo em conta o número de trabalhadores disponíveis, produtividade e outros fatores. (ou seja a taxa de crescimento do PIB potencial)

Se os dados subsequentes confirmam o crescimento do último trimestre de 3,3%, marcará pela primeira vez desde 2007 que a economia dos EUA alcançou o “seu valor máximo sustentável de PIB”, digamos, alcançou o seu PIB potencial máxima sustentável.

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Image: Washington Post

A diferença entre a linha cinzenta (PIB potencial) e a linha vermelha (PIB real) representa uma capacidade produtiva não utilizada. Podemos ver que tivemos uma grande diferença entre estes dois valores do PIB na recessão de 2009. A diferença, o GAP, reduziu-se lentamente desde então. Agora a diferença desapareceu com o PIB efetivo a ser igual ao PIB potencial.

Ótimas notícias, certo? Sim, são – mas não nos precipitemos, não o celebremos ainda.

O fim está próximo

O PIB real não pode ficar acima do PIB potencial por muito tempo antes de começarem a verificar-se coisas ruins. Este gráfico prova-o:

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Image: Washington Post

 

Vemos aqui como o PIB se moveu acima e abaixo do seu nível potencial desde a década de 1970. Observe que cada vez que a linha verde esteve acima de zero, uma recessão (as barras cinzentas) começou a verificar-se logo a seguir.

“Logo a seguir” pode variar, é claro. O PIB esteve acima do seu nível potencial para períodos prolongados no final dos anos 1990 e em 2006 – 2007, mas em ambos os casos seguiram-se depois intensas crises. Além disso, o FED não estava a pressionar como está agora – o que sugere que a expansão atual está, pelo menos, a aproximar-se do seu ponto final.

A administração Trump e os republicanos do Congresso discordam, dizendo que suas mudanças fiscais irão estimular anos de crescimento económico e mais que pagos por si-mesmos.

O próprio Presidente Trump disse no mês passado pensar que o crescimento poderia chegar aos 4% e até mesmo “um pouco mais alto.”

Concordo que poderá haver realmente um ou dois trimestres de 4% de crescimento anualizado. Mas vai continuar assim por anos? Provavelmente não, a menos que o PIB potencial venha a dar um grande salto.

Eis aqui o gráfico potencial do PIB acima, extrapolando o futuro tal como poderia ser visto se houvesse um crescimento de 3-4% na próxima década.

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Image: Washington Post

Lamento que este gráfico seja tão alto, mas esse triângulo vermelho é necessário para projetar tanto crescimento como o Presidente o antecipa e que o Congresso diz que vai mais que compensar os cortes de impostos. A pequena zona a amarelo que está por baixo é a estimativa menos emocionante de economistas independentes.

Em ambos os casos, para acontecer o que os republicanos preveem, o PIB deve crescer acima do potencial durante anos, a menos que o PIB potencial suba de uma forma igualmente espetacular.

Isso não é impossível: uma grande descoberta tecnológica pode fazê-lo, digamos, uma cura para o cancro que liberte mais trabalhadores, ou supercomputadores portáteis que tornem os trabalhadores mais produtivos.

Mas igualmente provável, uma recessão, desastre natural, guerra ou outro choque poderia reduzir drasticamente o PIB. As projeções acima não consideram essa possibilidade.

Expansões a transformarem-se numa “explosão”

O PIB real pode ultrapassar o PIB potencial no final de um ciclo, mas, por definição, esse crescimento é insustentável. Os meios de produção necessários para aumentar o PIB — os trabalhadores disponíveis, a produtividade — não crescem de forma suficientemente rápida e então essas expansões acabam por fazer uma grande “explosão”.

Agora considere o que mais está a acontecer.

A Reserva Federal está em modo de restrição, subindo as taxas de juros de curto prazo e reduzindo o valor dos seus ativos no seu balanço. Os funcionários do FED pensam que a economia está perto do pleno emprego, e eles querem controlar a pressão da inflação antes que esta saia fora do seu controlo.

Se este corte de impostos finalmente é aprovado – e eu ainda tenho dúvidas que isso aconteça – não considero que este corte nos impostos vá criar algo como o crescimento à taxa de 3-4% do PIB. Eu penso que fará o oposto, porque o Tesouro dos Estados Unidos contrai empréstimos de centenas de milhares de milhões de mais dólares para cobrir a despesa do défice. E isto fará aumentar as taxas; não é bom para o setor de imobiliário nem para as despesas dos consumidores.

Tal como a guerra contra as drogas nos deu mais drogas, a “guerra contra o crescimento lento” pode nos dar um crescimento ainda mais lento.

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Image: Danlele Pesaresi via Flickr

Detonadores da recessão

Aqui, é onde estamos:

  • A expansão atual está a ficar velha, sugerindo que uma recessão pode começar a qualquer momento.
  • O crescimento do PIB está a verificar-se acima do PIB potencial, o que também aponta para a recessão num futuro próximo.
  • O FED está a pressionar, o que em breve levará a que seja acompanhado por outros bancos centrais.
  • Os empréstimos do Tesouro provavelmente irão aumentar nos próximos anos, à medida que aumentem os défices.
  • Bitcoin e outras cryptomoedas parecem-se cada vez mais com uma bolha.

Tudo isso está a acontecer mesmo que não tenhamos surpresas. A guerra com a Coreia do Norte, uma rutura de NAFTA, uma crise bancária chinesa, um Brexit difícil -qualquer um desses eventos poderia extinguir o crescimento global.

O meu principal medo quando entrámos em 2017 foi que o FED fosse apertar demasiado e demasiado rapidamente, empurrando a economia para uma recessão deflacionista.  Ainda acho que este é o cenário mais provável.

Se esta lei sobre impostos for aprovada na sua forma atual, a recessão pode acontecer mais cedo e ir mais fundo. A pressão combinada da politica orçamental e monetária pode ser o gatilho para a desencadear.

No entanto, primeiro podemos ter uma situação de inflação que poderá durar algum tempo. O PIB efetivo esteve acima do PIB potencial durante quatro anos no final dos anos 1990, e por mais de um ano aquando da loucura do setor imobiliário.

Foram tempos divertidos enquanto duraram. Depois, a diversão acabou.

Uma coisa tenho a certeza que não vai acontecer, é que não iremos ter outros 10 anos de ininterrupto crescimento de 3% ou 4% do PIB real, como os políticos tão levianamente prometem. Isso é pura fantasia.

A gravidade ainda se aplica, não importa que as pessoas o desejem ou não. Poderemos ter uma demonstração disso mesmo muito em breve.

 

How Tax Cuts Will Trigger Recession, disponível em Gonzalo Raffo (http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.pt/2017/12/how-tax-cuts-will-trigger-recession.html) e em Mauldin Economics (http://www.mauldineconomics.com/connecting-the-dots/how-tax-cuts-will-trigger-recession)

 

 

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