FRATERNIZAR – 8 de Março de cada ano – DIA MUNDIAL DA MULHER OU DO FEMININO? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Desde que iniciamos os tempos do Grande Mercado, passou a haver dias para tudo e mais alguma coisa. E entre este tudo e mais alguma coisa, há também O Dia Mundial da Mulher, no singular, como a sugerir que se trata de mais um, entre muitos outros objectos, de mais uma, entre as muitas peças da engrenagem social. Não há obviamente o Dia Mundial do Homem, porque no reino do patriarcado-Mercado, todos os dias são dele. Dia da Mulher, incluído. Pelo que a ter de haver um dia especial que nos diga igualmente respeito, às mulheres e aos homens, deveria chamar-se – é uma proposta que aqui sugiro – Dia Mundial do Feminino, sem dúvida, o grande desconhecido, desde que há animais racionais. O Faz-nos mais falta do que o pão para a boca, mas nunca demos por isso, porque o deus macho e todos os seus sistemas de Poder são a negação do Feminino e também os seus assassinos, sempre que ele, inopinadamente, acontece aqui e ali.

Com o reino do Dinheiro-e-do-Mercado que é hoje o nosso mundo, até o Dia Mundial da Mulher acaba subrepticiamente por contribuir – e de que maneira! – para a mais completa descriação das mulheres e dos homens. Já que o mais que as mulheres são estimuladas a fazer é imitar-reproduzir, ao seu modo, o deus macho, o Poder, e logo no mês de Março ou Marte, o deus da Guerra, coisa exclusiva de macho, no império romano. Por este andar mais do que desgraçado, até já se começa a falar hoje num tempo pós-Humano, quando nem sequer descolamos da condição de animais racionais. Desconhecemos por completo que o Feminino, ou a Arte de Cuidar de si, dos demais seres humanos e da Terra, nossa casa comum, é a essência dos seres humanos que nos faz qualitativamente distintos dos animais racionais. E porque estamos hoje acriticamente cada vez mais embarcados na onda da inovação tecnológica a qualquer preço, acabaremos, a breve prazo, reduzidos a menos do que as sofisticadas máquinas dotadas de inteligência artificial, devoradoras de tudo o que é vida, sobretudo, a Vida Humana Consciência.

No princípio, foi o matriarcado. Não o Feminino, que só se manifesta na Fragilidade vivida em reciprocidade maiêutica, assumida como a mais-valia da Vida, quando esta alcança o patamar da Consciência, inevitavelmente orientada pelo mais belo princípio a que é capaz de chegar a Evolução iniciada no big-bang, De cada uma, cada um segundo as suas capacidades, a cada uma, cada um segundo as suas necessidades. O matriarcado mais não foi do que o patriarcado assumido por mulheres mães, detentoras do Poder. Fosse o Feminino e não haveria Poder, não haveria domínio das mães sobre os pais. Haveria Fecundidade, Fragilidade-em-reciprocidade, Vida Consciência. Mas então só com as mães era possível constituir genealogias, uma sofisticada forma de poder, de domínio, já que predominava o regime de acasalamento generalizado e indiferenciado. E uma vez que cada fêmea poderia acasalar com diversos machos, sabia-se, de certeza, quem era a mãe – é das mães que nascemos – não se sabia quem era o pai.

Porém, com a chegada do sistema poligâmico, um homem com muitas mulheres, à semelhança de um deus com muitos súbditos, o patriarcado destrona o matriarcado. Todos os nascidos das mulheres de um homem são filhos dele. Até as religiões-fés religiosas tornam-se patriarcais, adoradoras de um só deus todo-poderoso. E com a chegada dos Livros sagrados, nunca mais as mulheres e mesmo a generalidade dos homens têm voz e vez. Só as elites do Poder. O macho. Primeiro, com os sacerdotes ao comando. Hoje, com o Grande Mercado e seu deus todo-poderoso, o Dinheiro.

Ou somos intrinsecamente Feminino, Fragilidade Humana, Arte de Cuidar de nós, uns dos outros, fecundo útero gerador de Seres Humanos-Consciência, a meta final da Evolução, ou acabamos escravos, comandados por robots dotados de super-inteligência artificial.

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