Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – 25. As ações em venda desenfreada (1ª parte).  Por Adam Hamilton

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 25. As ações em venda desenfreada (1ª parte) 

Por Adam Hamilton em 9 de fevereiro de 2018

Republicado por Gonzalo Raffo Infonews

Os mercados de ações anormalmente tranquilos subitamente caíram a pique na semana passada. A volatilidade disparou inesperadamente e arrasou anos de calma artificial maquinada por distorções extremas do banco central.

Este foi um enorme choque para as legiões dos super complacentes operadores a apostarem nos mercados calmos (a volatilidade de curto prazo), e que estão agora a perceber que as ações não estão sempre em alta. Com a venda de ações a disparar, em roda livre, a psicologia do rebanho começará a jogar à baixa, o que irá gerar muito mais vendas ainda.

Enquanto estudante em contracorrente face aos mercados, eu assisti ao desencadear recente de uma venda tresloucada de ações feita numa situação de incrédula estupefação. No campo dos fundamentais, técnicos e sentimentais, os mercados de ações estavam tão ou mais extremados do que as suas últimas importantes situações de máximo das cotações das ações em março de 2000 e em outubro de 2007! Expus tudo isso num ensaio sobre esses mercados de ações altamente arriscados no final de um dia de transações em dezembro de 2017. O escrito ameaçador estava predeterminado para todos aqueles que o quisessem ver.

O aumento extremo de janeiro nos mercados de ações dos EUA tornou este caso de vendas massivas ainda mais provável. Em meados do mês, num outro artigo, avisei: “Os mercados de ações estão agora perigosamente com compras excessivas, o que implica que uma importante venda massiva é provável e iminente. Tais extremos são muito pouco habituais e nunca são sustentáveis por muito tempo, assinalando vendas massivas iminentes”. Então, o facto de que estes loucos mercados de ações finalmente se inverteram não foi pois nenhuma surpresa.

Mas fiquei assombrado com a enorme violência do que aconteceu na sexta-feira passada e na segunda-feira seguinte, foi muito estranho. Mesmo que os incontáveis radicais defensores dos mercados tenham defendido uma liquidação importante, eles tendiam a que esta fosse muito mais gradual inicialmente, quando se estava fora dos picos em alta do mercado. Por isso, foi para mim fascinante observar este desenrolar em tempo real com os meus dados e a CNBC. Os estudantes dos mercados vivem intensamente estes raros eventos anormais!

Os catalisadores da ignição foram multifacetados. O emblemático índice do mercado à escala mundial S&P 500 dos Estados Unidos (SPX) explodiu para um novo e deslumbrante recorde histórico na sexta-feira, 26 de janeiro. Teve um inimaginável aumento de 14,0% em relação à sua média móvel de 200 dias, que em si mesma já era alta e vertiginosamente crescente! A subida de ações durante 8 a 9 anos que tinha alimentado um aumento de 324,6%, parecia imparável. Os operadores estavam universalmente convencidos de que isso iria continuar.

Mas alguns dias de negociação bolsista depois, na terça-feira, 30 de janeiro, emergiram vendas significativas.

Naquela manhã, a Amazon, Berkshire Hathaway e JP Morgan declararam que iriam formar uma empresa de serviços de saúde. Essa notícia inesperada esmagou os principais títulos de empresas de saúde, cortando o SPX em 1,1%. Esse foi realmente um importante dia negativo quando visto à luz dos padrões recentes, o pior que se viu desde meados de agosto.

Com a eufórica psicologia altista afetada, os dados sobre o emprego chegaram alguns dias depois, a 2 de fevereiro. Esse relatório mensal oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA teve até manchetes modestas, mas a grande novidade veio pelo lado dos salários. Os ganhos horários médios superaram as expectativas, subindo 2,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, a melhor leitura da inflação salarial desde junho de 2009. Isso despoletou receios de inflação com o rendimento do Tesouro a 10 anos já em 2,78%.

Taxas de juros prevalecentes mais elevadas são um grande problema para os mercados de ações com uma valorização que significa já a presença de uma bolha. A publicação do índice SPX tinha acabado de sair com os dados de janeiro com as ações das suas 500 componentes de elite arvorando um rácio cotação/dividendos, sobre a média simples de doze meses, de 31,8x! O valor justo histórico é 14x, o dobro deste, 28x é já território formal de bolhas. Num ambiente de taxas mais altas, as valorizações extremas são muito mais difíceis de tolerar. Assim, os mercados de ações dispararam nas suas vendas massivas.

Uma semana atrás, o SPX deslizou o dia inteiro para fechar com uma perda importante de 2,1%. Isso revelou-se a maior descida diária desde setembro de 2016, antes de Trump ter ganho as eleições e a subida extrema das ações resultante primeiro da Trumforia e mais tarde da Taxforia. Algo estava a mudar, o muito pouco natural regime de baixa volatilidade estava a desmoronar-se. Isso deixou especuladores e investidores muito nervosos à entrada do último fim-de-semana.

Tinha sido um recorde total de 405 dias de negociação desde a última queda de 5% do SPX, incrivelmente extrema. Então, essa venda massiva realmente atingiu um ponto fraco dos mercados financeiros, comecei a ouvir conversas casuais de conhecidos com os quais eu não falava desde há anos. Aquando da festa do Super Bowl na casa de um amigo, na noite de domingo, quando os convidados que eu não conhecia descobriram o que eu faço para ganhar a vida, aí senti-me como uma celebridade. Passamos bastante tempo a falar sobre os mercados e as pessoas estavam realmente preocupadas.

A segunda-feira 5 de fevereiro foi extraordinária, um dia recorde em alguns aspetos. Os futuros do SPX diminuíram menos de 1% na negociação prévia do mercado, nada que fosse selvagem. Mas quando os mercados de ações dos EUA abriram, a venda começou gradualmente a fazer bola de neve. Isto intensificou-se consideravelmente em torno das 3 da tarde, com o SPX a afundar -2,3% a -4,5% ao longo do dia, literalmente, em 11 minutos! Não havia nenhuma notícia, simplesmente parecia e sentia-se que estávamos como perante uma cascata com as ordens de venda com limite de perdas, ou seja, com as ordens de vender desde que atinja dado preço.

Todos os operadores prudentes colocam ordens de venda a partir de dado preço nas suas posições sobre ações. Estas ordens são uma medida essencial para gerir o risco. Uma vez que uma ação caia uma percentagem predefinida a partir do seu melhor nível alcançado durante uma negociação, essa posição é vendida automaticamente, com o objetivo de limitar as perdas. Em vendas massivas no mercado de ações, à medida que as perdas derivadas desta ordem de venda imediata são atingidas sequencialmente, elas alimentam as vendas já  em andamento. Quanto mais ações caírem, mais ordens de venda imediatas são acionadas, mais as ordens de venda alimentam o turbilhão.

O SPX saltou um pouco, mas ainda mergulhou um enorme 4,1% na segunda-feira! Esse foi um dia muito mau qualquer que seja o padrão de referência, na verdade foi o pior dia desde meados de agosto de 2011, que se seguiu à desvalorização da dívida soberana dos EUA pela Standard & Poor’s. Todos tomam nota quando os mercados de ações sofrem a sua maior queda diária em 6 anos e meio. Isso realmente muda a psicologia coletiva, quebrando a euforia desenfreada de janeiro.

Mas, surpreendentemente, o mergulho do SPX não foi o mais interessante da segunda-feira. A volatilidade implícita nas opções do SPX é seguida no famoso medidor de medo VIX. Ele disparou em aumento uns estupendos 125,8% naquele dia, o seu maior pico diário alguma vez testemunhado! Isso causou um colapso colossal no mercado de baixa volatilidade. Desde a vitória eleitoral de Trump, mais operadores e mais capitais afluíram ao mercado de ações para apostar na ideia de que a volatilidade continuaria a descer.

Os estudantes da história do mercado sabiam que era uma aposta absurda antes do pico de segunda-feira. A volatilidade do mercado de ações sempre foi cíclica, assim como os preços das ações. Os níveis de volatilidade excecionalmente baixos ou altos significam sempre que se irá voltar ao normal. Por isso, apostar que a baixa volatilidade das ações nos últimos meses continuaria a diminuir ainda mais, foi uma aposta louca e suicida mesmo antes de segunda-feira.

Esse pico épico VIX devastou totalmente esses tipos.

Existem, ou existiram, notas VIX de volatilidade inversa que são altamente arriscadas.  Estes títulos VIX de volatilidade inversa foram concebidos para responderem da mesma forma quando a volatilidade cai, alguns até com alavancagem que os traders gostam de amplificar ainda mais com a sua própria margem. Um dos principais ETN inversos do VIX foi XIV, que é um VIX soletrado ao contrário. Tinha fechado em US $ 129,35 por ação na quinta-feira, 1 de fevereiro, mas nesta terça havia implodido 94,3% num evento a justificar o encerramento!

Todos estes ETN inversos-VIX eram futuros VIX vendidos a descoberto e os operadores destes produtos tiveram que se tornar compradores massivos sobre esta mesma venda massiva SPX para fecharem as posições devastadas. Na segunda-feira, os bancos patrocinadores desses ETNs loucos tiveram que comprar 282 mil contratos de futuros VIX, um record extremo! Isso catapultou o próprio VIX para 50.3 na manhã de terça-feira, tão alto como nunca tinha ficado com exclusão de acidentes e situações de pânico.

 

(continua)

Texto em http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.pt/2018/02/stock-selling-unleashed-safe-haven.html

 

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