Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – 31. Os relatórios sobre a minha morte foram largamente exagerados (1ª parte). Por The Heisenberg

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 31. Os relatórios sobre a minha morte foram largamente exagerados (1ª parte)

Por The Heisenberg the heisenberg

Publicado por seeking alpha logo  em 16 de fevereiro de 2018

Sumário

  • E então fechamos o livro sobre mais uma semana extraordinária para os mercados.
  • Esta foi a melhor semana para os mercados acionistas dos EUA desde 2013 e isto acontece uma semana depois de um verdadeiro descarrilamento de comboio.
  • O que pensar de tudo isto? Bem, tenho algumas ideias sobre o assunto.
  • Aqui está uma viagem abrangente pelos mercados completada com tudo o que se poderia esperar de uma missiva Heisenberg de sexta-feira à noite.

 

Penso que nunca gostei tanto de comentar o comportamento dos mercados como nestas últimas duas semanas. Este foi um dos trechos mais divertidos de que me lembro, e note-se que tenho comentado os mercados desde há muito, muito tempo (os recém-chegados ao blog Heisenberg devem notar que o pseudónimo “Heisenberg” é um fenómeno bastante recente; tenho sempre escrito sob o meu próprio nome, em diversos contextos, em toda a minha vida adulta).

A implosão da negociação bolsista sobre volatilidade de curto prazo provocou uma rápida reavaliação das coisas por parte de investidores e operadores de mercado (traders) de todos os tipos, o que foi muito divertido de observar por dois motivos: 1) todos os que tenham estudado aqueles ETPs de volatilidade de curto prazo, sabiam que eles iriam explodir um dia destes e que neste processo iriam provocar um pico muito elevado no índice VIX; mas mais importante 2) a causa próxima de todo o episódio infeliz que com rapidez desencadeou uma correção sobre as ações a nível mundial foi a venda massiva de obrigações desencadeada por sinais de pressão da inflação e pela degradação das perspetivas da situação orçamental nos EUA. O importante a ter em conta é que, exatamente nada do que aconteceu era realmente “novidade”.

Na verdade, a “surpresa da inflação” e o “colapso das obrigações” estavam no topo da lista de “maiores preocupações” de toda a gente para o ano de 2018 e as reduções de impostos e o estímulo fiscal eram literalmente uma promessa de campanha de Donald Trump, de modo que se pode dizer que a deterioração das perspetivas orçamentais foi telegrafada com 14 meses de antecedência.

Se entrou otimista no ano de 2018 não deveria então ficar surpreendido com o rápido aumento dos rendimentos dos títulos; quero eu dizer, talvez o ritmo fosse um pouco alarmante, mas nada de especial se se estivesse a prestar atenção à maneira como as coisas estavam a desenrolar-se ao longo dos seis meses anteriores. Nem se deveria estar tão alarmado com a explosão dos ETPs de volatilidade de curto prazo porque se compreendemos a sua mecânica, sabemos que, embora certamente seja doloroso no curto prazo (realmente não se pode “suportar ” um súbito aumento de 100% no VIX), esta explosão foi de natureza técnica (o motivo pelo qual a implosão do XIV estava pré-determinada deve-se precisamente ao facto de que o risco e, consequentemente, as repercussões eram, em grande medida, antecipadamente quantificáveis). Assim também foi pré-determinado o efeito dominó do pico VIX, que é, também ele, técnico por natureza. Escrevi tanto sobre isso no ano passado que não conseguiria enumerar todos os meus artigos se o tentasse fazer, e é por isso que, no verão passado, simplesmente dediquei todo um arquivo no meu site apenas para ter a certeza de ter um link conveniente para indicar às pessoas quando aquilo que eu apelidei de o círculo vicioso (“doom loop”) foi finalmente desencadeado.

Também se observará que uma das razões pelas quais o que aconteceu no início deste mês foi tão fácil de classificar é porque era evidente no final de janeiro que o rápido aumento dos rendimentos estava em vias de inverter a correlação positiva de rendimento das ações, o que dava para sentir os sistémicos ventos contrários a chegarem. Isso aconteceria de qualquer maneira e, de facto, a paridade de risco teve um período terrível de 5 dias na semana precedendo a implosão dos produtos assentes na volatilidade de curto prazo. Assim, com a correlação obrigações/ações a aumentar e com a tendência já a inverter-se, isso seria de qualquer modo uma situação bem difícil para alguns dos habituais atores destes mercados.

Bem, se se soubesse disso e se também se tivesse entendido quão disseminada está a negociação sobre a volatilidade de curto prazo em todas as suas diversas formas, não teria dado nenhum salto de lógica para entender que, se algo forçasse suficientemente a negociação sobre este tipo de produtos para desencadear o risco de reequilíbrio nas ETPs VIX alavancadas de curto prazo – o que já era uma situação precária para a paridade de risco e os CTAs – e a enorme massa de produtos sobre volatilidade de curto prazo cairiam repentinamente, provavelmente em cascata, o que significa estar a desalavancar num mercado já em queda. E foi exatamente isso que aconteceu.

Os CTAs [1] e a paridade de risco foram forçados a descarregar cerca de US $ 200 mil milhões em exposição de ações (nas estimativas do Bank of America Merrill Lynch- BofAML). De forma mais geral, pensemos sobre quais as implicações para os gestores de portfólios globais com posições já próximas de limites de risco pré-definidos, medidos com uma métrica VaR. Considere isso a partir de uma nota do Barclays na semana passada:

Por exemplo, assuma-se que um gestor de risco se sinta confortável com a gestão de uma carteira de ações a perder um milhão de dólares num mês sob o quinto percentil. Antes da recente retoma de volatilidade, a Figura 1 mostra que o retorno do portfólio de ações do percentil 5 foi de -21,1%, sugerindo um volume máximo de posição de aproximadamente US $ 4,7 milhões para permanecer dentro do limite de VaR definido de 1 milhão de USD. Com a recente retoma da volatilidade implícita, no entanto, o movimento do 5º percentil tornou-se mais negativo à medida que a distribuição dos retornos se tornou mais ampla e agora é de -29,5%, o que implica um novo VaR de quase US $ 1,4 milhão para o mesmo portfólio – bem acima do limite de risco de 1 milhão de dólares estabelecido. Para regressar ao limite VaR de 1 milhão, o gestor de portfólio precisa de reduzir a posição em cerca de 28% para aproximadamente US $ 3,4 milhões, (Nota de tradutor: 3,4 milhões vezes 0,295 é praticamente o milhão assumido de riscos).

Trickle down Parte II Texto 31 1

Veja, isto apenas realça a ideia de que se você se preocupa em ver estes desenvolvimentos chegarem, necessita realmente tentar compreender as razões subjacentes a tudo isto. As pessoas vão-lhe dizer que andar às voltas de tudo isto não interessa à maior parte dos investidores e essas pessoas têm absolutamente razão. Mas se essa é a posição que o leitor quer tomar, então não fique surpreendido por não conseguir perceber como é que é possível que possamos ter uma semana de 5 de fevereiro a 9 de fevereiro, em que o Dow perdeu em duas quebras mais de 1000 pontos com dois dias de intervalo e o VIX sobe 100% numa única tarde.

E veja-se, eu não queria dar-vos a impressão que foram apenas investidores de retalho que foram apanhados de surpresa. Por exemplo, Shahraab Ahmad aparentemente levou uma pancada de 25% durante esta turbulência.

Mas existem na verdade sinais de os investidores de retalho ainda não o compreenderam. Veja-se este gráfico:

Trickle down Parte II Texto 31 2

Como Marko Kolanovic, da JPMorgan, escreve numa nova nota na sexta-feira, não está claro que as pessoas realmente entendem como isto funciona. A saber:

Observamos que a quebra nestes produtos representa uma degradação permanente da estratégia, e os investidores não devem procurar voltar aos níveis de negociação anteriores mesmo se a volatilidade continua a cair. Por exemplo, o SVXY alcançou US $ 138 em meados de janeiro e atualmente está a ser negociado a US $ 13 – se os Futuros sobre VIX ponderados a um mês caíssem cerca de 35% do nível atual ( 17,5) regressando ao mesmo nível que foi negociado em meados de janeiro ( 11,5), o SVXY só aumentaria para $ 17.503 (ou seja, 13 x 1,35) e ainda se negociaria com 87% de desconto relativamente ao seu pico recente.

 

Está a compreender onde quero chegar? Além disso, alguns dos muito inteligentes gestores de fundos importantes sentiram bem o que estava para acontecer. Um destes gestores, Peter Thiel, assumindo que ele ainda mantinha as posições no mercado que assumiu em dezembro, terá muito provavelmente ganho uma soma de dinheiro verdadeiramente obscena ao apostar no disparar da volatilidade, o que se verificou. Podemos apostar que ele pressentiu muito bem o que se estava a passar no mercado financeiro.

 

(continua)

Texto original em https://seekingalpha.com/article/4147887-reports-demise-greatly-exaggerated

 

Seeking Alpha: serviço de conteúdos relativos aos mercados financeiros fornecidos por milhares de membros (sobretudo investidores e peritos da indústria financeira). Fundado em 2004 pelo analista David Jackson. Tem parcerias de distribuição com MSN Money, CNBC, MarketWatch, NASDAQ e The Street. Em 2014 tinha 3 milhões de utilizadores registados.

The Heisenberg: membro de Seeking Alpha desde 2016.

 

Nota

[1]  Commodity Trading Advisers .

 

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