CARTA DE BRAGA – A tranquilidade de um homem livre – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

“Barquilhos” eram umas toscas folhas de cone feitas de massa que D. Ramon confeccionava e vendia. A massa, toda trabalhada à mão, era muito mais grosseira do que a dos regulares cones dos sorvetes.

Parei aqui, neste parágrafo de “Herdar estrelas”, o saborosíssimo livro que o pintor Tomaz Borba Vieira editou na Salamandra e que só agora me chegou às mãos!

Parei para recordar os vendedores da “bolacha americana” que, era garoto, corriam os sítios onde andávamos, a vender aqueles rolos de sabor espantoso, escondidos numa lata avermelhada e redonda, pendurada nos ombros com uma corda grossa e que nos faziam sonhar o mar.

Parei para descansar da leitura e olhar em volta a saber dos meus ocasionais companheiros de viagem, quando o comboio das 8 e 34 para o Porto, também parou na estação da Trofa, num dia da semana passada.

Ao meu lado esquerdo, uma rapariga nova, dezassete ou dezoito anos, com headphones nos ouvido e a olhar um laptop onde passa uma novela qualquer e, em frente, um rapaz um pouco mais velho, auscultadores, portátil nas pernas, a escrever a espaços e rindo baixinho de quando em vez.

À minha frente, uma senhora de calças cuidadosamente rotas, o buraco em cima do joelho esquerdo quase tapado por um pedaço irregular de plástico negro também ali colocado com gosto e precisão e os inevitáveis fios entre telemóvel e ouvidos.

Do lado de lá destes dois últimos personagens mais quatro pessoas, uma quase dormindo, mas todas com aquelas extensões devidamente instaladas, assim como a quase totalidade das pessoas que consegui ver, mesmo as que iam de pé, isto olhando só em frente.

Mas uma das pessoas que ocupava a terceira fila a partir da minha, um homem de uns trinta anos e também com auscultadores, agarra o telemóvel com a mão direita, mas apontado aos olhos, enquanto a mão esquerda sobe e baixa para acarretar algo minúsculo que não consigo identificar e que leva à boca (amendoins?) e mastiga de boca fechada, sem fazer qualquer ruído.

Na estação de S. Romão entra um sujeito de uns setenta anos, boné, blusão e calças camuflados como se fosse militar e calçando botas a condizer. Fica encostado ao separador de vidro, de costas viradas para mim.

Quedo-me imóvel a tentar imaginar o que o podia levar àquela fardamenta e, na estação de São Frutuoso, entra uma senhora bem mais velha que, lá mesmo à frente, só encontra lugar por um senhor da mesma idade lhe ceder o dele.

Quando o comboio volta a andar, o senhor dos amendoins põe uma maçã pequena na mesma mão do telemóvel e morde-a com gosto, mão esquerda na mesma tarefa de subir e descer, talvez por a maçã lhe saber melhor se houvesse companhia! (seriam amendoins?).

Na estação da Travagem, comboio parado, arruma o resto da maçã num saco de plástico e traz de volta uma garrafa de água.

Reparo então que há mais gente a olhar para o senhor dos amendoins (seriam?) embora disfarçando a atitude e ele vai bebendo da garrafa para lavar a cavidade bocal com desvelo, engolindo a seguir, atitude que repete três vezes, tudo feito sem qualquer espavento.

Depois arruma todas as coisas com cuidado sem nunca tirar os auscultadores, poisa o telemóvel nos joelhos e, na estação de Águas Santas, puxa de uma agulha de fazer malha e um novelo pequeno de lã verde.

Com a mesma atitude tranquila, começa a acrescentar a malha de uma peça redonda de uns vinte centímetros, iniciada num centro em preto e continuada com um pedaço de uns três centímetros à volta e em azul, depois outro pedaço em amarelo e, quando termina a lã verde, puxa de outro novelo, agora vermelho e recomeça a tarefa balanceando a cabeça, talvez a acompanhar a música que sairia do telemóvel.

O senhor e a actividade são um encanto para as minhas companheiras de viagem a ver pelos olhares cúmplices e sorridentes e, em Campanhã, levanto-me para olhar o resto da carruagem.

Tirando os que estávamos em volta do senhor dos amendoins e da agulha para fazer malha, posso afirmar que vi muita gente pendurada nos headphones e, aparentemente, só eu “usava” um livro!

Em S. Bento, ele é o penúltimo a sair da carruagem depois de ter arrumado tudo lenta e zelosamente mas antes e, já com o arrumo acabado, olha para mim, sorri e, com a mão direita, faz-me uma espécie de continência!

Respondo com um obrigado mais entendido que sonoro e sou o último a sair!

¡Há Abril!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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