Carta de Júlio Marques Mota enviada ao Primeiro-Ministro, ao Ministro da Saúde e ao Diretor do Hospital Pediátrico de Coimbra.

25-de-abril-sempre 2018

Carta enviada ao Primeiro-Ministro, ao Ministro da Saúde e ao Diretor do Hospital Pediátrico de Coimbra.

Por Júlio Marques Mota JULIO_MOTA

Algumas reflexões em torno do espírito de Abril de outrora e algumas lágrimas sobre o espírito de Abril de agora.  

Coimbra, 12 de Abril de 2018

Senhor Primeiro-Ministro, senhor Ministro da Saúde, senhor Diretor do Hospital Pediátrico de Coimbra

Tomo a liberdade de a relatar a Vossas Excelências uma situação que em condições normais só poderia ser considerada ficção, mas não é, relato este que é a reprodução de pedido feito a um médico amigo.

 “Tenho uma neta de 4 anos, de nome Adriana,  com um problema muito simples que, de repente, se tornou num problema aparentemente muito complexo!

Tem uma ou duas cáries dentárias. Admitamos que seja uma. Esta foi sujeita a um primeiro tratamento no consultório do Dr. João Paulo Tondela. Tudo correu bem e agendou-se uma segunda sessão para terminar aquele tratamento. Assim se fez. Chegados pela segunda vez ao consultório, senta-se na cadeira mas não se consegue que ela deixe tratar a cárie. Adiou-se e marcou-se uma outra sessão. O resultado foi o mesmo. Voltou-se a marcar uma outra sessão. A quarta sessão. O resultado foi o mesmo.

Decidiu-se fazer os procedimentos necessários para que fosse tratada na Escola de Medicina Dentária. A anestesista entendeu que o melhor sítio seria no Hospital Pediátrico, uma vez que em caso de acidente maior, não esperado mas sempre possível, não teriam ali os meios de resposta em termos de reanimação.

Desencadearam-se procedimentos para que fosse tratada no Pediátrico, no bloco operatório. Um mês depois recebo um telefonema em que marcavam uma consulta para um mês depois. A pessoa que me telefonou, creio ser pessoal qualificado pelo diálogo havido, manifestou-me o seu espanto pelo facto de a anestesista da Escola de Medicina Dentária entender que o local adequado para o tratamento seria uma ida ao bloco operatório no Pediátrico. Este técnico de saúde achava que poderia ser feito na Medicina Dentária

Isto, diz-nos bem que o técnico que me telefonou estava bem a par do problema. Um mês depois, 10 de abril, às 8 horas da manhã, a mãe da criança e, depois eu, lá estávamos no Hospital. Pela conversa telefónica havida fiquei com a sensação de que o processo seria rápido, ou seja, que faria imediatamente as análises para o anestesista e se marcaria com urgência a ida ao bloco, se é que não estaria mesmo já marcada. Engano total.

A consulta deu-se para confirmar o diagnóstico, o que se confirmou, claro. Dali a semanas iria receber uma carta para a miúda se apresentasse no Hospital para fazer análises para o anestesista e depois, se após seis meses não houvesse nenhuma convocatória para a intervenção cirúrgica no Pediátrico, receberia em casa um vale-saúde para ir a um hospital privado. Perguntou-se ao médico como é que se poderia fazer se a criança tem dores, se dorme mal, se dá ela própria, coitada, mau dormir às pessoas em casa e a resposta é lapidar, o tratamento clássico, – Bruffen ou Ben-u-ron. Estamos a falar de uma criança de 4 anos! Acrescenta o médico que o Hospital tem outras prioridades, a menos que voltasse a ter um abcesso. Mas com os diabos, o abcesso está lá! Se tal acontecesse, então entrava na lista e na fila dos prioritários e já agora não sei qual seria aí a demora, porque se trata também de uma lista de espera.

A minha obrigação, e não abdico de a assumir, é colocar o interesse do doente, a minha neta, em primeiro lugar e não estaria disposto a esperar até seis meses para receber depois um vale-saúde e recomeçar o processo para tratar uma cárie dentária numa criança de 4 anos. Portanto estou mesmo interessado em recorrer imediatamente a um hospital privado. Não deixa de ser amargo ter que aceitar que na cidade dita Capital da Saúde os serviços públicos de saúde não tenham condições para tratar uma cárie dentária a uma criança de 4 anos que para o efeito precisa de ser sedada.

Gostaria de saber se o meu amigo poderia desencadear e apressar o processo na clínica particular onde trabalha, ou que me diga então em que clínica posso com segurança e rapidez tratar da questão.  Em situação de doença o dinheiro não é relevante mesmo que este possa ser escasso.”

A relação entre dinheiro e saúde foi sempre assim, é assim, será sempre assim, talvez menos assim para o governo atual cuja reversão necessária e urgente das políticas de Passos Coelho se faz demasiado  lentamente , mas seguramente é um comportamento de base popular  que o governo anterior  espezinhou,  tomando como prioridade não a saúde mas as economias sobre a saúde e fê-lo com quanta força tinha, desmontando não só o Serviço Nacional de Saúde, como todo o sistema de saúde pública, onde se inclui o sistema das carreiras profissionais de todos os técnicos que trabalham nos serviços de saúde.

Senhor Primeiro-ministro, senhor Ministro da Saúde, senhor diretor do Hospital Pediátrico, tenho 75 anos e tudo isto me faz lembrar uma história triste, do tempo do menino pobre que eu fui. Por volta do ano de 1953-4, no início da minha quarta classe, eu, como milhares de crianças deste país sonhavam que poderiam ir estudar. Naquele tempo, a passagem da quarta classe para o nível de ensino seguinte fazia-se através de uma prova chamada, creio eu à distância, de Admissão ao liceu. No início desse ano escolar, 53, a professora primária na primeira aula perguntou quem é que queria fazer a Admissão ao Liceu. Muitos de nós levantaram a mão e a professora informa: a partir deste ano, para vos levar à Admissão têm de pagar, são 1500 escudos. Mil e quinhentos escudos correspondiam a mais de 3 meses de trabalho de um camponês e a ter trabalho 25 dias por mês. E eu era filho de camponês pobre. Eu, tal como muitos outros, baixei a mão e senti os meus os sonhos feitos de nada esfumarem-se por entre os dedos cerrados. Mas o menino pobre que eu fui não podia perceber aquilo, não podia perceber que o fascismo é um subproduto de um capitalismo selvagem, até porque nem sequer percebia o que era fascismo. Escrevi então ao ministro da Educação de então, creio ter sido o Prof. Pires de Lima, dizendo-lhe que vivia num sistema justo (o fascismo) em que se verificavam situações injustas e aquela era uma dessas situações. Por isso, a situação deveria ser corrigida porque ela era incompatível com a justiça que eu atribuía ao sistema. Pedia pois justiça ao Ministro, a quem manifestava não a minha revolta, era muito cedo para tal, mas a incompreensão perante o que estava a acontecer.

Hoje, quase 65 anos depois, estou numa situação semelhante, não comigo mas com a situação que se passa com a minha neta e que está acima relatada.

Ontem, há 65 anos, o menino pobre que eu fui foi ouvido pelo governo de então. Hoje, face à situação relatada pelo velho professor universitário que eu sou, será que as autoridades me irão responder no plano dos factos, pelo menos com a mesma dignidade como há sessenta e cinco anos o ministro Pires de Lima respondeu, instaurando um inquérito, apurando-se agora responsabilidades? Assim o espero.

Hoje não direi que o sistema é justo ou injusto, não é aqui a questão moral que me importa, hoje direi que no quadro comunitário a solução governativa portuguesa é a melhor de todas elas, a famosa geringonça, mesmo que este esteja amarrado pelas garras de Bruxelas e dos neoliberais puros e duros, assumidos ou não como tal. Mas, tal como antes, direi que a situação de agora acima relatada, é relativamente incompatível com o sistema político atualmente em vigor. As explicações, as razões, para o que aconteceu com a minha neta podem ser múltiplas, possivelmente serão todas incómodas, e deixo ao cuidado de cada um pensar nelas e nas formas de as eliminar. Duas deles nos saltam imediatamente aos olhos: 1. a política da Troika ainda não saiu do Hospital Pediátrico de Coimbra; 2. Há conflito de interesses nos médicos, alimentando-se assim o setor privado que prolifera em Coimbra. Esta segunda hipótese é, nos seus termos gerais, totalmente recusável porque isso significaria desconsiderar toda uma classe médica, o que está completamente errado, o que seria absurdo. É uma classe pela qual tenho muito respeito. E as muitas idas ao Pediátrico dizem-me isso mesmo. Devemos ter orgulho na maioria dos médicos e outro pessoal técnico que lá trabalha. E que de resto têm sido eles também uma das vítimas da política da Troika que tem sido seguida para o setor da saúde. Mesmo a conversa com o médico acima relatada não deve ser levada à letra: na minha opinião, o médico quereria mostrar à mãe da criança o absurdo da situação em que estava metido e sem que disso tivesse qualquer culpa.  Ao nível dos quadros de topo, das chefias, aí já não sei o que dizer, uma vez que esta situação racionalmente não se entende, mas tem de ter uma explicação e alguém deve ser responsabilizado pelo que está a acontecer. Qual, não sei.

Dos tempos da minha infância aos tempos da minha velhice, as semelhanças são flagrantes, mas os tempos aparentemente são muito diferentes. Serão mesmo muito diferentes?

Hoje, dia 11 de abril a minha neta voltou ao Hospital Pediátrico. Tinha um abcesso, o que já lá estava! Foi-lhe receitado um antibiótico e volta tudo à estaca zero. Ainda hoje, de uma clínica privada recebo a informação de que não a podem tratar, isso é um assunto de Hospital Pediátrico. Irei procurar outras clínicas na cidade e há várias.

Sabe-se, há mais de 300 pessoas, crianças, em lista de espera, uma lista que permanece quase contante desde há seis meses para resolver problemas de saúde oral. Revoltante, haja então alguém, alguém que olhe pelas crianças deste país. É o mínimo que se pode pedir. Não, digamos antes, é o mínimo que se pode exigir. E já agora uma pergunta: ninguém é responsável pela existência de uma tão longa fila de espera?

Sensatamente, dir-me-ão, que isto é um problema de reversão das políticas da Troika, de Passos Coelho, e a reversão é uma coisa difícil. Dir-me-ão que a reversão é um fenómeno complexo, e poder-me-ão dar múltiplos exemplos nesse sentido, como por exemplo o que se passa agora na guerra comercial desencadeada entre os Estados Unidos e a China, provavelmente de efeitos negativos muito importantes, provavelmente mais negativos para os Estados Unidos que para a China possivelmente. Porém, colocar aqui o problema da dificuldade de reversão é estar a confundir um elefante com um mosquito, porque se de reversão se poderá então falar, será negativamente, ou seja, não há nenhuma reversão. Por isso, achamos que a explicação mais viável é a que enunciámos como hipótese nº1, a de que a política da Troika se mantém integralmente no Hospital Pediátrico de Coimbra. Se esta hipótese é verdadeira, retomo o problema da minha infância, temos um bom modelo de política, a geringonça, temos situações que, como esta, são com ela incompatíveis.

Escrevo esta carta que a Vªs. Exªs dirijo como sendo um protesto contra o que se passou com a minha neta e espero que esta sirva para que a todas as crianças com problemas eventualmente semelhantes lhes seja assegurado um tratamento condigno, o que não aconteceu agora e que, portanto, seja eliminada esta lista de centenas de crianças à espera, mas com todas elas tratadas. Não desejo mais nada, mas isto já significaria que o meu protesto teria servido para alguma coisa, mesmo que a expressão alguma coisa tenha a dimensão da Humanidade, por representar o respeito pelo direito a cuidados de saúde condignos para todos, pobres e ricos.

A terminar este meu protesto deixem-me deixar uma pergunta que um amigo meu, um antigo professor de Economia que lecionou durante anos em Cambridge, me colocou há dias, quando trocámos alguns pontos de vista sobre a situação económica mundial. Dizia-me ele:

“Poderíamos razoavelmente esperar ter uma velhice mais confortável. Pessoalmente, não sinto que a culpa seja nossa se o futuro não é o que esperávamos que fosse, mas talvez seja também nossa culpa, sendo certo que não consigo ver onde é que errámos …O que é acha?”

Senhor Primeiro-ministro, Senhor Ministro da Saúde, senhor Diretor do Hospital Pediátrico, sinto que o que se passou com a minha neta no sistema público de saúde possa ser também nossa culpa, mas não consigo ver onde é que errei? Poderão dizer o mesmo que eu, poderão dizer o mesmo que o meu amigo, o antigo professor de Economia em Cambridge? Tomo a liberdade de lhes perguntar: o que acham?  

Sem outro assunto, queiram aceitar este meu desabafo, sendo certo que não quero magoar ninguém, sendo certo que com ele pretendo apenas servir o meu país, os filhos do meu país, da mesma forma como outrora, quando não passava de um menino pobre e protestei junto do ministro do regime fascista.

Com os meus respeitosos cumprimentos e certo da atenção que irão dispensar a este texto, o que antecipadamente agradeço, apresento os meus respeitosos cumprimentos.

Coimbra, 11 de Abril de 2018

Júlio Marques Mota

One comment

  1. Carlos A.P,M.Leça da Veiga

    Achar não acham nada. Pairam em alturas que não lhes são devidas mas, coitados, imaginam-se “dirigentes”. A incultura, o oportunismo e a desonestidade assentaram arrais no topo das carreiras e das sinecuras. Como, nos anos quarenta, diria e escreveu nas paredes o velho Pai Lopes, Professor de História no Liceu de Passos Manuel, “quem paga, um contribuinte, Lopes de Oliveira”. CLV

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