Homenagem ao Carlos Tenreiro, uma série de textos sobre questões de macroeconomia e de alta finança – 9. Sheila Bair vê as sementes de outra crise financeira. Entrevista de Reshma Kapadia

Carlos Tenreiro

Carlos Tenreiro, um estudante de excecional maturidade emocional, de rara cultura, de rara sensibilidade e de alta capacidade pedagógica para transmitir o que sabia e até muitas vezes a gerar nos estudantes uma apetência por aquilo que ele mesmo ainda não sabia, mas que faria parte da sua trajetória de conhecimentos a desenvolver.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

9. Sheila Bair vê as sementes de outra crise financeira

Entrevista de Reshma Kapadia Reshma Kapadia

Publicado por Barron s em 1 de março de 2018

 

Texto 9 1

Foto: Stephen Voss para a Barron’s

 

Sheila Bair demonstrou que não tem medo de ser a pessoa solitária que sinaliza possíveis problemas. A ex-presidente da FDIC-Federal Deposit Insurance Corporation [1] [2006-2011] é conhecida pelos seus alertas precoces sobre o mercado hipotecário de subprime, e continua a detetar problemas no sistema financeiro.

Bair passou grande parte da sua carreira em Washington, D.C., começando como membro da equipa do senador [republicano] Robert Dole, e desde sempre se sentiu confortável em ir contra o consenso. Em 1992, como Comissária da Commodity Futures Trading Commission, Bair foi o único voto dissidente contra o afrouxamento das regras para as empresas do setor da energia, argumentando que isso estabelecia um “precedente perigoso”. Menos de uma década depois, o colapso da Enron provou que estava certa. Durante a crise financeira, Bair, nomeada para liderar a FDIC pelo presidente George W. Bush em 2006, entrou em confronto com outros funcionários, à medida que pressionava pela necessidade de modificações nas condições dos empréstimos e que se opunha ao resgate dos grandes bancos.

Depois de deixar a FDIC em 2011, Bair passou dois anos como presidente do Washington College, uma pequena escola liberal no ensino das artes em Maryland, onde se concentrou num outro problema crescente – o endividamento dos estudantes. Bair também atuou como consultora de várias instituições, incluindo a China Bank Regulatory Commission e o Pew Charitable Trust, onde chefiou o Conselho de Risco Sistémico, um grupo não partidário que visa melhorar a estabilidade financeira. Ela também pertenceu a vários conselhos de administração de empresas, incluindo Industrial and Commercial Bank of China, e Paxos, uma empresa que negociava sobre bitcoins.

É um portfólio que lhe dá uma boa vantagem sobre as questões mais prementes do mercado. Falámos com Bair para ouvir as suas opiniões sobre a grande dívida da China, sobre as questões problemáticas que ela vê no sistema financeiro e na economia dos EUA e sobre o que os reguladores devem fazer sobre os bitcoins.

 

Barron’s: Os investidores preocupam-se se a elevada dívida da China é um risco para a economia global e para a estabilidade financeira. Isso é uma preocupação com sentido?

Bair: Nós olhamos para a dívida da China e até torcemos os dedos de preocupadas que ficamos, hum. É muito elevada. Mas eles percebem que é uma ameaça para a estabilidade financeira e estão a lidar com a situação. No mês passado, os reguladores tomaram conta da empresa privada de seguros Anbang Insurance para evitar que ela entrasse em falência. [A Anbang é um conglomerado que se expandiu agressivamente no exterior, adquirindo hotéis, incluindo o Waldorf Astoria em Nova York.] É um sinal de que continuam a combater o crescimento imprudente e a alavancagem excessiva.

E que mais está a China a fazer para estabilizar o seu sistema financeiro?

Eles precisam de reduzir o seu endividamento, de aumentar a transparência e de garantir que os bancos permaneçam acima do risco de crédito. Os bancos estão muito conscientes da qualidade do crédito e dos empréstimos de má qualidade. As palavras que se ouve são “prudência” e “crescimento sustentável”, e há agora mesmo uma enorme ênfase na gestão de riscos por parte dos dirigentes bancários e dos reguladores. Eles estão também a enfrentar o problema de gestão de património. Isso significa mais créditos nos balanços bancários, porque estes produtos estavam fora dos balanços. Mas isso é uma aboa coisa, pelo menos é transparente.

Quais são as perguntas que os chineses mais frequentemente lhe fazem?

Eles estão muito focados em como os investidores ocidentais olham para eles. Há uma certa confusão e até apreensão sobre qual é a atitude dos EUA para com eles, mas eles continuam a querer a aprovação dos investidores ocidentais. Isso pode funcionar a favor de mais transparência e decisões mais orientadas para o mercado.

A China acaba de abolir o limite de dois mandatos para os presidentes, preparando o caminho para que Xi Jinping permaneça no poder indefinidamente. Que risco representa isso para a aceitação por parte dos investidores?

É muito cedo para o dizer. Mais importante será saber como ele irá utilizar o seu poder, particularmente na continuação de maior abertura aos mercados e de melhorar a transparência. Estou impressionada com a diferença no tom da liderança política – com Xi a falar sobre desalavancar, restringir as bolhas de ativos e aceitar linhas de compromisso de curto prazo para o crescimento sustentado a longo prazo. Compare isso com o que se passa nos EUA, onde temos um movimento a pressionar para uma maior desregulação e para aumentar o volume de empréstimos. Entristece-me que estejamos a ficar prisioneiros da lógica do curto prazo.

Que parte da pressão de desregulamentação nos EUA a preocupa mais?

Muitas reformas financeiras pós-crise ainda estão a ser finalizadas. Embora a administração atual tenha sido eleita numa campanha do tipo contra os grandes bancos, tornou-se muito favorável a estes mesmos bancos. Não tenho problemas com alguma desregulamentação, mas não posso acreditar que estejamos a avançar para enfraquecer ainda mais as regras de capital próprio para os bancos.

Está a referir-se a uma mudança técnica numa provisão de uma lei bipartidária que deverá chegar ao Senado ainda este mês.

Sim. Tem muitas boas disposições jurídicas, como aliviar desnecessárias infraestruturas de supervisão em bancos regionais e comunitários que foram apanhados numa rede mais ampla após a crise. O foco das reformas pós-crise deveria ter sido nas grandes e complexas instituições financeiras que provocaram o problema. Então isso é ótimo. Mas, é claro, os grandes bancos estão a tentar aliviar os requisitos de capital [estabelecidos após a crise financeira]. Ouço as más línguas dizerem que o Gabinete do Controlador de Moeda dos EUA e a Reserva Federal também estão a defender a redução das exigências no que diz respeito aos requisitos de capital próprio.

Porque é isso problemático nesta fase do ciclo económico e do crédito?

Nestes tempos benignos, quando os bancos têm sido lucrativos durante muitos anos e em que eles acabaram por obter uma grande redução nos impostos, pretende-se que os bancos continuem a construir reservas de segurança. Afrouxar as exigências em termos do capital próprio é agora apenas uma loucura. Quando chegarmos a uma desaceleração da economia, os bancos não terão a almofada para absorver as perdas. Sem uma almofada, teremos 2008 e 2009 novamente.

A ideia de que precisamos afrouxar nas exigências para com os bancos para que possam conceder mais empréstimos para alimentar o crescimento – depois de uma década de política monetária altamente acomodatícia, de um enorme corte de impostos financiado pelo défice e da desregulamentação – é ser-se muito míope. E não é suportado por dados: o crescimento dos empréstimos excedeu o crescimento do produto interno bruto. Há uma grande quantidade de dívida na economia. As memórias – e as lições – do que nos levou à crise estão a ser completamente ignoradas. Um resultado de resgatar os grandes bancos foi que eles emergiram com muito mais poder político.

O que é que isso significa para a saúde do sistema financeiro 10 anos após a crise?

Não houve muita responsabilização após a crise. Isso foi um erro. Eu preocupo-me com o facto de que ainda temos o mesmo sistema. Sim, é mais seguro pois os bancos têm mais capital – até agora – e mais supervisão, e os testes de esforço são úteis. Mas fundamentalmente não mudámos o sistema.

Onde, então, onde é que vê problemas potenciais que poderiam desencadear a próxima crise?

Eu manteria debaixo de olho a dívida dos cartões de crédito. A dívida subprime automóvel tem sido um problema desde há alguns anos e as avaliações sobre os créditos utilizados para financiar a liquidação de dívidas são altas. Qualquer tipo de empréstimo garantido apoiado por um ativo que está sobrevalorizado deve ser uma preocupação. Foi o que aconteceu com a habitação.

A dívida das empresas também não teve tanta atenção quanto a que deveria ter. É financiada pelo mercado, em vez de ser financiada pelo banco, mas os bancos ainda têm exposição ao risco. Depois, há o ciber-risco. Foi-nos necessário tanto tempo para passar às reformas pós-crise que nos atrasámos em relação ao risco sistémico do ciberespaço, mas os reguladores estão muito focados nisso agora.

Isso é muito preocupante. O que significa isso para a economia?

Com a reforma tributária combinada com a desregulamentação e com a economia finalmente a crescer, a economia poderia apresentar uma boa taxa de crescimento para estes dois próximos anos. Mas depois disso, se continuarmos a lançar gasolina para a fogueira com os défices públicos, eu tenho que me preocupar com a enorme gravidade que pode assumir a próxima desaceleração e se ainda disporemos de capacidade de resposta a essa mesma recessão. Felizmente, dentro de alguns anos, o Fed terá estabelecido taxas de juros suficientemente elevadas para que possa aliviar a pressão sobre o curto prazo.

Mas do lado fiscal, há muito pouco espaço de manobra. Eu preocupo-me quando vejo o estatuto de porto seguro do Tesouro a ser questionado. À medida que o Fed aumenta as taxas enquanto nós estamos a aumentar os défices, isso terá um impacto negativo nas ações. Estas são coisas que eu gostaria de tomar antecipadamente como garantidas. Eu não acho que o Congresso tenha a menor ideia de que a razão que o leva a ter esta prodigalidade é que nós somos o animal mais bonito do matadouro. É que estamos no matadouro. A nossa situação orçamental não é boa.

A senhora também mostrou preocupações com o atual nível de endividamento estudantil que é da ordem de US $ 1,3 milhões de milhões. Acha que isso poderia desencadear uma crise financeira?

Essa dívida está nas contas do governo, assim não, não será uma crise de mercado. Mas existem paralelos com 2008: existem enormes montantes de empréstimos não reembolsáveis feitos a pessoas que não podem pagá-los e a fácil disponibilidade desses empréstimos está a levar a uma inflação de ativos. Em 2008, isso refletiu-se nos preços da habitação. Hoje, são as propinas no ensino. É muito fácil aumentar as propinas na Universidade porque os meninos obterão empréstimos para as pagar. Se se dá o incumprimento sobre estes empréstimos, os principais beneficiários – as instituições de ensino – perdem a pele neste jogo, como na crise das hipotecas.

Qual é para si uma solução possível?

Os acordos de participação de rendimento permitem que os alunos paguem um empréstimo com base numa percentagem dos seus rendimentos durante um longo período. É impossível para um estudante do primeiro ciclo universitário saber quais serão seus ganhos e a sua capacidade de reembolso quando se formar, ainda que a dívida estudantil seja fixa. Nós precisamos de professores de matemática no secundário, como precisamos de gestores de hedge funds, mas temos um sistema de pagamento único, quer se ganhe $ 36.000 ou $ 360.000.

Alguém utiliza este tipo de acordos?

Alguns, como a Universidade de Purdue, estão a experimentar este tipo de acordos. Devem ser estruturados de modo a que as faculdades financiem US $ 1 e o governo financie US $ 1, e eles partilhem o pagamento dos estudantes. Dessa forma, o retorno do investimento da faculdade depende de se um aluno se forma e obtém um emprego, alinhando os incentivos institucionais com o sucesso dos estudantes. Os investidores privados estão a liderar muito disto, mas isso deixa-me desconfortável.

Porquê?

Os investidores privados procuram grandes prémios de risco. Eu temo que eles favoreçam as áreas principais [STEM – ciência, tecnologia, engenharia e matemática] com que se obterão salários mais elevados. Precisamos de um programa para apoiar uma ampla gama de disciplinas. Precisamos de obter apoios filantrópicos, do governo e de doações nesta mistura de apoios.  Em vez de se terem limitadas parcerias de mestrado, as fundações universitárias deveriam colocar algum dinheiro na formação dos seus filhos.

Como é que a dívida estudantil afeta a desigualdade e a economia?

As histórias dos empréstimos a estudantes apresentam sempre alguém que emprestou US $ 90 mil para ir para uma Universidade ou para uma Faculdade de Medicina. Mas essas pessoas geralmente obtêm empregos e têm um grande potencial de ganhos e os programas sobre perdão de dívidas ajudam-nos desproporcionalmente. A situação de dificuldade económica e social e as altas taxas de incumprimento situam-se sobretudo entre os jovens que levantam empréstimos de US $ 10.000 para ir para uma escola privada, com fins lucrativos, e que depois abandonam o ensino; $ 10.000 podem não parecer muito para si e para mim, mas para um estudante de primeira geração ou para alguém sem um diploma universitário, isso é muito dinheiro. A dívida estudantil também suprime a formação de pequenas empresas. Os jovens que teriam iniciado uma atividade na garagem dos seus pais não o podem fazer agora, porque estão endividados, devem por exemplo US $ 50.000. Além disso, o endividamento representa uma carga financeira terrível para os nossos filhos, o que não existia há 20 anos.

Nós também não tínhamos bitcoins há 20 anos atrás. Alguns banqueiros centrais estão preocupados com a mania em torno das criptomoedas. Qual é a sua opinião?

Não coloque dinheiro em bitcoins que você não possa de forma alguma perder. Mas eu não acho que devemos proibi-lo – as notas verdes no seu bolso também não têm um valor intrínseco. O valor é baseado no que os outros pensam que é o seu valor. Isso é verdade para qualquer moeda. A regulação deve estar centrada numa boa divulgação, na educação, proteção contra a fraude e assegurando que não seja utilizada para atividades ilícitas. Deixe o mercado descobrir o que vale a pena. Isso é o que se está a fazer agora.

 

Texto original em https://www.barrons.com/articles/sheila-bair-sees-the-seeds-of-another-financial-crisis-1519916556

 

O autor: Reshma Kapadia, licenciada em jornalismo pela Universidade de Columbia, é editora senior em Barron’s Magazine onde trabalha desde 2012. Anteriormente foi colunista no Wall Street Journal (SmarMoney Magazine) (2005-2012) e correspondente da Reuters (1998-2005).

Nota

[1]  N.T. O Federal Deposit Insurance Corporation é uma agência federal dos Estados Unidos da América cuja principal função é a de garantia de depósitos bancários. (vd. https://en.wikipedia.org/wiki/Federal_Deposit_Insurance_Corporation )

 

 

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