CARTA DE BRAGA – “Agora, Platão seria publicitário” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

O Ti Zé Miguel, o homem esquivo e direito de quem já falei uma ou duas vezes, o meu amigo que não conhecia uma letra, nem do tamanho de um autocarro, disse-me um dia, já nem sei a propósito de quê, “O teu lugar não é aqui nem em sítio nenhum! O teu lugar é aquele que andas à procura!”

Há dias, evocando-o a ele e à sua imensa sabedoria, meti esta frase no Google e logo saiu uma outra que lhe servia perfeitamente de complemento, “Se não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve”, afirmando-a de Lewis Carroll.

Com efeito, o problema maior é a escolha do caminho!

– Tentemos à nossa volta, com os que nos são mais próximos.

Experimentem pedir a algum ou alguma para desligar o telemóvel, qualquer que seja o modelo e vejam a reacção. O mais certo é verificarem que, sem aquele complemento, eles deixam mesmo de existir. Com aquela coisa, a amizade tem o tamanho do número de likes, o expoente absoluto da banalização das relações entre humanos.

– Por outro lado e se acreditarmos em Certeau, a palavra cultura, designa, entre outros termos, a imagem e a percepção do mundo próprio a um meio ou a uma época.

Mas que imagem ou ideia poderemos ter deste meio, desta época e desta sociedade se, seguindo agora Innerarity, se entendermos o trato humano como uma mera troca de mercadorias (e ainda com likes!)?

Porque, dizia Bauman, também não se vê já o lugar onde está o poder pois, nesta sociedade líquida, está sequestrado por bancos e finanças.

– Convém notar que os noticiários afirmaram, há uns dias, que os Bancos cá do sítio multiplicaram por 37 os lucros só deste ano, ganhando mais 480 milhões de euros.

Lá, onde a li, a notícia salientava “Os bancos cobraram em Portugal e nas operações internacionais, mais 33 milhões de euros aos clientes do que no mesmo período do ano anterior. A subida foi quase exclusivamente conseguida na actividade doméstica, que gerou 370 milhões de euros em comissões”.

– Não consigo esquecer as somas enormes gastas a salvar bancos, electricidades e outros, onde depois se instalou gente a ganhar somas desmedidas e postergando outra, sem se olhar a qualidade da corda onde bambeava.

Mas, pelos números, quase posso afirmar que, apesar dos meus conhecimentos das economias se ficarem pelas micro, o cidadão já não passa de um mero cliente e alguma coisa estará muito mal quando se vê aumentar a riqueza para alguns, sem diminuir o penar da enorme maioria!

– Uma outra dificuldade está também patente nesta outra pequena notícia – “o tempo de serviço em aulas de Inglês, Música e Educação Física nas Actividades de Enriquecimento Curricular, deixa de contar. Assim, estes professores poderão ser ultrapassados nos concursos por colegas do ensino privado”.

Mais uma vez a cultura e o ensino em questão!|

Quase aposto que se aquelas aulas fossem de ‘deve e haver’ ou ‘carregar em botões’, ainda continuariam a contar!

Perante isto, estou convencido que, se Platão vivesse agora, não passaria de um publicitário!

Por quê escolher caminhos e para quê a Filosofia?

Agora, um bom filósofo não passa de um desmancha-prazeres (afirmação que mereceria, com toda a certeza, muitos likes)!

 

António M. Oliveira

 

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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