O Euro, a Alemanha e Espanha – Poderá Pedro Sánchez salvar o PSOE? Por Michael Pettis

cacafonia na UE

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Poderá Pedro Sánchez salvar o PSOE?

Por Michael Pettis, em 18 de agosto de 2014 michael pettis

Pela sua atualidade, reeditamos este excecional texto de Michael Pettis ….. escrito há quase 4 anos, em agosto de 2014!

Dele destacamos: ” Pedro Sánchez, o novo líder do PSOE, tem opções. Pode manter as políticas de “responsabilidade”, caso em que cederá a liderança dos trabalhadores e da classe média em dificuldades à direita racista e xenófoba, com as terríveis consequências a longo prazo que isso implicará para a Europa, incluindo uma muito baixa probabilidade de que a União Europeia possa reviver. Ou então pode exercer a liderança em toda a Europa, exigindo um debate significativo sobre a dívida europeia e sobre o euro. Isto exige, entre outras coisas, uma discussão sobre a forma de introduzir a flexibilidade cambial como uma alternativa mais eficiente para ajustar os custos relativos na Europa, e implica o reconhecimento muito explícito de que grande parte da dívida europeia só se pode pagar sob a forma de uma transferência massiva e inaceitável de riqueza dos trabalhadores europeus para os bancos alemães.”

E ainda uma mensagem de esperança: ” Pode haver uma União Europeia de sucesso, e muitas das mudanças que são necessárias para assegurar o êxito provavelmente são relativamente fáceis de aplicar, sobretudo se forem parte de um pacote global que inclua uma significativa reestruturação da dívida e o perdão. Mas a estrutura atual não o permite.”

(Este artigo, publicado por El País Blogs, em 25 de agosto de 2014, com introdução e tradução de Ernesto Ekaizer, e subtitulado O euro, a Alemanha e a Espanha, foi editado na Viagem dos Argonautas em 1 e 2 de fevereiro de 2016, e foi reeditado em português em 9 e 10 de agosto de 2017).

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Michael Pettis é um economista norte-americano. Nascido em Saragoça, Pettis viveu a sua infância em Málaga, e trabalhou em vários bancos norte-americanos. Entre 1996 e 2001, ocupou o posto de diretor-gerente dos mercados de capital da América Latina no banco de investimentos Bear Stearns. Em 1998, quando Argentina era cortejada como darling (querida) dos mercados internacionais, Pettis escreveu um memorandum dirigido ao Departamento de Tesouro dos Estados Unidos no qual assinalava que havia 50% de possibilidades de que a Argentina suspendesse os pagamentos (default) em três anos e que isso aconteceria, no máximo, dentro de cinco anos. O governo de Buenos Aires declarou o incumprimento (default) em dezembro de 2001, três anos depois da previsão de Pettis. Neste texto concentra a sua atenção na evolução da dívida pública e na dívida externa de Espanha, que se aproxima e supera os 100% do Produto Interno Bruto, respetivamente.

Há dias pedi autorização a Pettis para traduzir o seu recente artigo sobre a crise do euro, ocasião em que mantivemos uma troca de opiniões por correio eletrónico. Ele recordou a sua experiência latino-americana e o memorandum sobre a Argentina que escreveu ao Tesouro norte-americano em 1998.

“Muita gente, nomeadamente o ministro Domingo Cavallo, estava furiosa pelo facto de que alguém pudesse dizer uma estupidez tão óbvia, e até mesmo o responsável de investigação do meu banco estava em desacordo comigo, que trabalhava então no departamento de trading, embora de modo mais cortês que Cavallo. Nenhum deles percebia a dinâmica da dívida. Quando os níveis de dívida alcançam um determinado ponto, o modo como os agentes económicos se comportam altera-se e torna-se muito difícil crescer superando o peso da dívida. Não vejo como a Espanha poderá gerir o peso da sua dívida, que é pior cada ano que passa. Ou bem o país reestrutura a sua dívida com o perdão de uma parte da mesma, ou a carga fiscal sobre os trabalhadores e as classes médias terá de aumentar substancialmente. É desonesto pretender que se passará de outro modo”.

Pettis é atualmente professor de Finanças na Escola de Gestão de Guanghua da Universidade de Pequim e tanto a sua informação como a sua capacidade de análise tornam-no num dos principais observadores da evolução económica da China.

Eis o seu artigo intitulado “Pode Pedro Sánchez salvar o PSOE?”, de 18 de agosto de 2014. que bem poderia intitular-se O euro, Alemanha e Espanha.

Ernesto Ekaizer

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Se Pedro Sánchez Castejón espera liderar a Espanha e o seu partido para se sair da atual crise económica, ele terá de reconhecer que a crise é fundamentalmente um conflito entre os interesses dos banqueiros europeus e os interesses dos trabalhadores europeus.

No mês passado Pedro Sánchez Castejón foi eleito como o novo secretário geral do Partido Socialista Obrero Espanhol (PSOE) de centro esquerda. O El País designou a sua nomeação como uma “renovação” do PSOE, embora Sánchez pareça ter sido escolhido principalmente devido a ser demasiado novo e desconhecido para poder sofrer a repulsa que a maioria dos espanhóis sente em relação aos poderes políticos estabelecidos.

Mas como novo líder do PSOE, sem uma grande parte da bagagem levada em redor pela velha geração de líderes, tem de fazer frente a uma opção importante. Se ele espera liderar a Espanha e o seu partido para se sair da atual crise económica, ele terá de reconhecer que a crise é, fundamentalmente, um conflito entre os interesses dos banqueiros europeus e os interesses dos trabalhadores europeus, e deveria redesenhar as políticas do PSOE a favor das muito preocupadas classe trabalhadora e classe média. Senão verá com tristeza como a extrema direita da Europa mais cedo ou mais tarde assumirá o controlo do debate, seja diretamente, seja indiretamente à medida que os partidos de centro-direita assimilem os seus argumentos.

Em toda a Europa, não menos que em Espanha, os decisores políticos recusaram-se a reconhecer as contradições fundamentais geradas pela criação do euro, tal como, na década de 1920, se negaram a reconhecer as contradições fundamentais criadas pelo padrão ouro.

A flexibilidade dos câmbios é um dos mecanismos através dos quais uma economia se ajusta à volatilidade do crescimento e às variações dos preços relativos. Contudo, quando um país cede o controlo da sua moeda essa volatilidade não desaparece. Em vez disso o ajustamento permitido pelas mudanças no valor de câmbio da moeda tem agora de ocorrer por algum outro mecanismo.

Um deles, muito comum, é sob a forma de ajustamento dos salários. Sob um padrão-ouro rígido, os países com moedas sobrevalorizadas normalmente ajustar-se-ão através da diminuição dos seus salários relativamente aos dos seus parceiros comerciais e, é claro, o impulso mais forte para provocar a queda desses salários foi o desemprego causado pela expansão dos setores de bens de exportação transacionáveis em detrimento dos bens domésticos. Por outras palavras, a volatilidade que poderia ter sido absorvida pela moeda foi resolvida principalmente à custa dos trabalhadores.

O economista norte-americano Barry Eichengreen defendeu em Golden Fetters (Algemas de ouro. O Padrão-ouro e a Grande Depressão 1919-1939- Oxford University Press, 1992) que o padrão-ouro durou tanto tempo durante o século XIX provavelmente devido a que a conexão entre a taxa de câmbio e o desemprego não foi plenamente compreendida e, mais importante ainda, que os trabalhadores não estavam suficientemente organizados e emancipados para se protegerem do processo de ajustamento que resolvia os desequilíbrios entre as moedas. Em virtude destas condições se terem alterado, sobretudo nas democracias liberais, Eichengreen considerava improvável um regresso ao padrão-ouro.

Mas dentro da área do euro, o ajustamento tem de assumir a mesma forma que no padrão ouro. Dentro desta zona os ajustamentos cambiais não são possíveis, e consequentemente a Europa é obrigada a realizar o clássico ajustamento do padrão-ouro quando os preços e os salários estão desalinhados internamente.

Com a Alemanha a ter desvalorizado efetivamente o seu euro durante a década posterior à sua criação relativamente a países como a Espanha, para a qual o euro estava sobreavaliado, um desalinhamento de salários e preços [em Espanha] tem de ser resolvido essencialmente através de ajustamentos de preços e salários. E isto implicou, como é óbvio, que estes países tenham sido forçados a sofrer altas taxas de desemprego até se conseguir ajustar os salários.

A forma “correta” para resolver os desajustamentos internos seria a Alemanha reativar a procura interna e aumentar os seus salários internos mas, por variadas razões, que têm que ver principalmente com a determinação da Alemanha de proteger os seus bancos relativamente às decisões de empréstimos realizados na última década, esta alternativa é pouco provável se não houver uma pressão muito maior por parte das nações periféricas. Com o fim de proteger os bancos, que querem uma moeda forte e que todas as dívidas sejam totalmente reembolsadas ou subsidiadas com transferências do setor das famílias, o grosso do ajustamento será suportado pelos trabalhadores e por uma classe média ansiosa.

Dito de outro modo, a Europa sofre de uma procura estruturalmente débil em grande parte devido à procura estruturalmente débil na sua maior economia, a Alemanha, e a consequência é que durante muitos anos a Alemanha baseou-se no excesso de procura dos países periféricos da Europa para equilibrar a oferta e a procura. A crise de 2008 pôs fim a esta forma de equilíbrio tornando impossível aos países periféricos da Europa consumir em excesso. Em vez de resolver o problema mediante o fomento da procura na Alemanha, a solução aplicada pela Europa é reduzir a procura no resto da região (a redução dos salários reduz o consumo). Se a Europa fosse uma economia pequena, um aumento da conta corrente [da balança de pagamentos] poderia compensar esta crescente debilidade da procura, mas a Europa é demasiado grande para depender da procura externa. Tem, pois, de se basear no desemprego para “resolver” a débil procura interna.

Proteger o valor da moeda e da dívida externa é habitualmente considerado como agir “de maneira responsável”, mas isso tem um custo. A elite política, tanto de esquerda como de direita, tem sido relutante em tornar explícita a conexão entre as políticas alemãs, o euro e o desemprego nacional, preferindo em vez disso culpar as políticas laborais nacionais erradas, apesar de estas políticas laborais serem muito anteriores à crise do euro. Esta confusão afeta não apenas a Espanha. Mario Draghi, por exemplo, recentemente culpou a “falta de reforma do mercado laboral e as regulamentações comerciais excessivas” do fracasso atual da Itália em crescer, como se estes fossem problemas apenas depois de 2008.

A subida dos marginais

Não surpreende o facto de que o fracasso em enfrentar a raiz fundamental da crise tenha deixado a política europeia mais vulnerável aos partidos marginais e populistas. Mas enquanto a extrema esquerda pouco mais faz do que dar publicidade à indignação, a extrema direita montou um ataque hábil e coerente contra a estrutura monetária da Europa e o establishment bancário. Os seus ataques nem sempre são racionais – culpar a imigração estrangeira, ou os EUA, ou a China, pelos problemas da Europa indicia um elevado nível de confusão – mas posicionaram-se com clareza.

É por isto que a extrema direita tem estado tão bem em toda a Europa, e continuará a estar, e eventualmente em Espanha, à custa dos grandes partidos. Nem o PSOE nem o PP (o partido de centro direita em Espanha) reanimarão a economia de Espanha agindo “responsavelmente”, dada a intransigência das forças subjacentes à crise económica. Excepto no caso muito pouco provável de a Alemanha inverter energicamente as políticas de contenção salarial e de rendimento das duas últimas décadas, a Espanha realmente terá somente duas opções políticas, ambas muito difíceis.

Madrid pode provocar confusão no consenso da elite e avançar agressivamente para uma reestruturação da dívida externa Espanha, ao mesmo tempo que redefine a sua participação no euro, por exemplo, abandonando a união monetária e ao mesmo tempo que comprometendo-se de maneira credível (isto é, com o apoio da Alemanha) a reintegrar-se na união monetária numa determinada data futura. Neste caso, a Espanha sofrerá um ano de caos antes de que as reformas postas em prática, ironicamente, por Mariano Rajoy possam provocar um retorno a um crescimento rápido.

Alternativamente, a Espanha poderá continuar a sofrer muitos mais anos de elevado desemprego e, com isso, um peso crescente de dívida. A recente melhoria anémica da economia espanhola, anunciada com grande fanfarra, não ajudará quase nada a resolver qualquer destes problemas, sobretudo com a Alemanha e a França a debilitarem-se. O desemprego manter-se-á elevado durante muitos anos e a combinação de desemprego prolongado, a emigração de muitos dos melhores e mais brilhantes profissionais, a infraestrutura deteriorada do país, e uma erosão no panorama político assegurarão que a Espanha será uma das nações doentes da Europa durante décadas.

Para evitar a irrelevância do PSOE, Pedro Sánchez deve reconhecer formalmente que os fracassos das políticas acumulados nas últimas quatro décadas, incluindo a rigidez laboral e a corrupção fora de controlo, embora sendo reais, não são a causa da crise. A alta taxa de desemprego em Espanha, a dívida excessiva e a estagnação do crescimento são o resultado indireto das políticas postas em prática pela Alemanha dirigidas a reduzir a participação dos salários alemães no PIB e reduzindo também o investimento nacional. Estas políticas provocaram em Espanha os mesmos problemas que afetaram simultaneamente Portugal, França e o resto da Europa periférica.

Desde 2001, com o consumo e o investimento decrescentes em relação à produção alemã de bens e serviços, a única forma de que a Alemanha pudesse evitar um aumento do desemprego era conseguir um excedente crescente na sua conta corrente. As restrições impostas pelo euro, que garantiram as exportações massivas de capital alemão para o resto de Europa, permitiram à Alemanha obter este excedente, enquanto os seus vizinhos europeus, que deixaram de ter o controlo da sua política monetária e incapazes de impedir que as importações de capital alemão que provocaram a subida do preço dos ativos e dos produtos de consumo, se viram obrigados a sofrer os equivalentes défices externos.

Estes países tinham somente duas possíveis respostas aos desequilíbrios alemães. Em primeiro lugar, as taxas de juro baixas e as crescentes importações de capital da Alemanha podiam desencadear um boom insustentável do consumo e elevar os custos internos em relação aos da Alemanha; isto foi o que se passou anteriormente a 2008. Em segundo lugar, a renovada competitividade obtida pela indústria alemã obrigaria os vizinhos europeus da Alemanha a absorver o desemprego que deveria ter afetado a Alemanha; isto foi o que aconteceu depois de 2008, uma vez esgotado o boom de consumo.

O seu compromisso real com a Europa tornou difícil aos políticos reconhecerem que a crise foi causada por muitas das políticas, incluindo a criação do euro, que pareciam fundamentais para a unificação europeia, e por isso atribuíram as causas da crise às distorções internas, e sobretudo aos elevados salários. Uma vez que o Banco Central Europeu (BCE) expressou a sua disponibilidade [julho de 2012] para proporcionar liquidez ilimitada, e apesar do elevado e crescente peso da dívida e do forte desemprego, Bruxelas declarou que a crise do euro tinha, em larga medida, ficado para trás.

A crise não se deve aos preços dos títulos

Mas embora os investidores possam ser perdoados por pensarem assim, a crise europeia não se deve aos preços dos títulos [os preços dos títulos funcionam de modo inverso às taxas de juro de modo que quando o juro ou o rendimento sobe, o preço baixa, e vice-versa].

O colapso dos preços dos títulos em 2008-09 refletia os receios bem reais de insolvência [default], e o facto de que o BCE tenha decidido proporcionar liquidez ilimitada para sustentar os preços dos títulos não resolveu de modo nenhum os riscos de insolvência. Além do mais, os precedentes históricos sugerem que a determinação do BCE só durará até que os bancos europeus, e especialmente os bancos alemães, tenham sido suficientemente recapitalizados (à custa das famílias, é claro) para se reconhecer que muitos países europeus nunca pagarão as suas dívidas. Uma vez que tenham o capital suficiente para absorver os incumprimentos soberanos, o apetite da Alemanha e de outros países para continuarem a financiar uma dívida impagável desvanecer-se-á.

Um recente texto dos economistas Barry Eichengreen e Ugo Panizza torna clara esta contradição. Os autores mostram que países como Espanha podem pagar a sua dívida somente sob pressupostos inverosímeis quanto ao tamanho dos superávites orçamentais necessários para isso. Como dizem na síntese:

Para que as dívidas dos países da Europa com problemas sejam sustentáveis, na ausência de reestruturação da dívida, de ajuda externa ou um aumento inesperado da inflação, os governos terão de conseguir grandes superávites orçamentais primários [sem contar com o pagamento dos juros da dívida], em muitos casos superiores a 5% do PIB, durante períodos de até dez anos. A história sugere que este tipo de comportamento, ainda que não inteiramente desconhecido, é excepcional. Os países conseguiram esses grandes superávites por períodos tão prolongados enfrentaram circunstâncias excepcionais. Em suma, esta análise não nos deixa optimistas em relação a que os países em crise da Europa sejam capazes de manter superávites orçamentais primários tão grandes e persistentes como aquilo que é projetado oficialmente“. 

Por outras palavras, em algum momento, os países periféricos europeus terão ou que espremer os seus cidadãos muito mais do que parece ser possível em democracia, ou então terão que reestruturar a sua dívida com o perdão de uma parte significativa dela.

A extrema direita, e principalmente a Frente Nacional de Marine Le Pen em França, desenhou um ataque frontal à fonte real da crise do euro. Reconhecem que as políticas que obrigaram a baixar os salários alemães provocaram o colapso da procura, e que o euro força o resto da região a competir com a Alemanha através da redução dos salários nacionais, o que, paradoxalmente, reduzirá ainda mais a procura global na Europa. Mediante o abandono da União Europeia e a recuperação do controlo sobre a política monetária, a França poderia quase seguramente conseguir uma descida do desemprego, uma forte melhoria da sua conta corrente, e o crescimento mais rápido do PIB.

establishment francês insiste que Le Pen não é uma ameaça, porque se alguma vez se torna demasiada poderosa, a esquerda e o centro unir-se-iam contra ela para impedir que a Frente Nacional ganhe qualquer eleição. Mas mesmo que pudessem ter razão, não estão a ver a questão principal. A única maneira para os partidos de centro poderem evitar uma vitória da Frente Nacional seria a de adotarem a maior parte das suas políticas. Como o assinala um recente artigo do Le Monde Diplomatique:

Todavia, a principal razão [para o fracasso anterior da FN em chegar ao poder] pode ter sido a adoção por Sarkozy de políticas essenciais avançadas pela FN: a promoção de uma identidade francesa; preferência dos nacionais na contratação; acesso à proteção social e serviços públicos; hostilidade em relação a imigração de baixo rendimento; leis de delitos especiais para os imigrantes nascidos no estrangeiro. Os votantes simpatizantes da FN viram Sarkozy como um instrumento mais viável para as suas políticas. Como Le Pen Jr. explicou, “a única coisa que debilitou a Frente Nacional foi a estratégia de Sarkozy de se apresentar como uma espécie de duplo da FN”. Sarkozy viu que “o povo francês se virava cada vez mais para a opção da Frente Nacional. Conseguiu aproveitar a força desse rio e desviá-la a seu favor. Mas, ri Marine Le Pen,o rio voltou ao seu leito“.

A elite política da Europa nega-se a reconhecer o que é bastante óbvio. A união monetária, tal como funciona atualmente, força que desequilíbrios num país afetem os vizinhos dentro da união, e não existe um mecanismo para a resolução dos desequilíbrios no lugar de origem. Países como a França e a Espanha não têm como enfrentar as políticas na Alemanha que forçaram o aumento da taxa de poupança nacional do país (reduzindo os salários), ao mesmo tempo que diminuíram o investimento nacional, excepto mediante a redução das suas próprias poupanças nacionais, seja sob a forma de um boom de consumo insustentável [anos 2000-2008] ou seja por um aumento do desemprego [2008 em diante].

Banqueiros responsáveis vs. trabalhadores com fome

Nesta divisão entre a “responsável” elite política e a direita anti-euro “irresponsável”, a Europa está a reproduzir uma das batalhas clássicas da história entre banqueiros e trabalhadores. Ao longo dos séculos XIX y XX (e de facto muito antes), a dívida e as crises monetárias opuseram uns contra os outros. Às vezes, ganharam os banqueiros, como aconteceu na década perdida da América Latina da década de 1980, e os EUA nos finais 1970, e, outras vezes, ainda que nunca sem luta, ganharam os trabalhadores, como aconteceu na década de 1930, tanto nos EUA sob Roosevelt, como na Alemanha (aparentemente) sob Hitler [programa de obras públicas e fabricação de armamentos].

Tanto se são os banqueiros que têm razão quanto aos benefícios a longo prazo de manter a trajetória ou se são os trabalhadores que têm razão (e a história deixa claro que nenhuma das partes tem sempre razão), ao defenderem a moeda e a santidade da dívida, os responsáveis políticos da Europa tomaram o partido dos banqueiros. Com o fim de proteger a estrutura monetária atual permitiram que o desemprego dos trabalhadores suba e a incerteza e o medo se espalhe pela classe média.

Mas ainda que no longo prazo possam estar certos para adoptarem essa posição, os precedentes históricos sugerem que os votos dos descontentes irão para qualquer partido, seja de esquerda ou de direita, que defenda mais vigorosamente a causa dos trabalhadores contra os banqueiros. Se os partidos do centro não o fizerem, como fez Roosevelt na década de 1930, os extremistas fá-lo-ão. Enquanto os políticos centristas europeus se negarem a enfrentar a causa fundamental da crise europeia, e a extrema esquerda gastar a sua energia em teatro e raiva, a quota de votos da extrema direita irá aumentando.

Pedro Sánchez, o novo líder do PSOE, tem opções. Pode manter as políticas de “responsabilidade”, caso em que cederá a liderança dos trabalhadores e da classe média em dificuldades à direita racista e xenófoba, com as terríveis consequências a longo prazo que isso implicará para a Europa, incluindo uma muito baixa probabilidade de que a União Europeia possa reviver. Ou então pode exercer a liderança em toda a Europa, exigindo um debate significativo sobre a dívida europeia e sobre o euro. Isto exige, entre outras coisas, uma discussão sobre a forma de introduzir a flexibilidade cambial como uma alternativa mais eficiente para ajustar os custos relativos na Europa, e implica o reconhecimento muito explícito de que grande parte da dívida europeia só se pode pagar sob a forma de uma transferência massiva e inaceitável de riqueza dos trabalhadores europeus para os bancos alemães.

Contrariamente aos alarmistas que vêem qualquer passo atrás como uma ameaça existencial para a Europa, este debate não significaria o fim do sonho de uma Europa unificada. Seria simplesmente admitir que a Europa não tem ainda as instituições necessárias para garantir a sobrevivência da união monetária, e que o capital, o trabalho, a banca e as diferenças fiscais atualmente existentes asseguram que a flexibilidade eliminada pela união monetária ressurgirá por meios mais destrutivos. Pode haver uma União Europeia de sucesso, e muitas das mudanças que são necessárias para assegurar o êxito provavelmente são relativamente fáceis de aplicar, sobretudo se forem parte de um pacote global que inclua uma significativa reestruturação da dívida e o perdão. Mas a estrutura atual não o permite.

Ao minar a força irresistível daqueles que querem destruir a União, um debate sério que reconheça o custo insuportável para os trabalhadores europeus da estrutura atual, poderia na realidade ser a melhor maneira de salvar a Europa. Insistir que a Europa atual é a única Europa possível não tem sentido, e inclusive muitos dos mais fortes partidários da Europa podem entender isto. Mas argumentar que a versão atual da Europa pode evoluir gradualmente apesar dos enormes custos que têm de ser assumidos pelos trabalhadores, especialmente em países como a Espanha, sobreestima o atrativo popular da Europa e subestima o grau até ao qual as elites políticas exageraram os seus compromissos com a sua criação.

Os velhos dirigentes do PSOE não o elegeram para este papel, mas se Pedro Sánchez assumir a liderança, na Europa e em Espanha, e abrir o debate sobre o euro, reconhecendo que a estrutura atual no funciona e definir, com a ajuda da retrospetiva, quais as vulnerabilidades que têm de ser enfrentadas numa União Europeia reformada, o novo líder do partido poderá deter o declínio do PSOE e reverter o repugnante nacionalismo que se propaga pela Europa. Espanha e outros países que sofrem elevadas taxas de desemprego devem unir-se e pressionar a Alemanha para que resolva a sua estrutural débil procura interna, por um lado, e a dívida excessiva de que padecem estes países, por outro.

Não obstante, se Pedro Sánchez continua a pretender que a crise se resolveu pela disposição do BCE em refinanciar a dívida de Espanha, uma disposição que o banco provavelmente manterá enquanto os bancos alemães não estejam suficientemente capitalizados para reconhecerem o óbvio [que a dívida é impagável], então o novo líder socialista poderá encontrar-se a si mesmo numa Espanha e numa Europa que vira cada vez mais para a direita nacionalista. Na batalha entre trabalhadores e banqueiros serão os trabalhadores os que, em última instância, decidirão quem deverá determinar a política. 

 

Texto original de Michael Pettis em Logo Michael pettis  http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/56405 

 

 

 

 

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