A beleza perdida da Itália, ou um episódio mais da morte anunciada da União Europeia – 3 textos de Heiner Flassbeck sobre a atual situação político-económica italiana (2º texto)

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

2. Itália: caindo no caminho errado

Por Heiner Flassbeck Heiner-Flassbeck

Publicado por flassbeck_logo em 30 de maio de 2018

Estamos a entrar na fase seguinte de eventos em Itália e as rodas giram cada vez mais rapidamente à medida que nos dirigimos para um desastre que resultará no fim do euro e da União Europeia. A Europa do Norte e os europeístas cépticos do Sul espumando de raiva contra a soberania italiana impediram, mais uma vez, um debate sério sobre o rumo correto da união monetária. Isto é o fim da Europa.

Aconteceu exatamente como eu disse antes (aqui), mas foi muito mais rápido do que se esperava. Em Itália, a crise causada pela política económica estúpida e irresponsável do Norte da Europa está já a acelerar um pouco mais rapidamente em direção ao desastre europeu. Com a devolução do governo designado pelo primeiro-ministro escolhido pela coligação da Liga e do Movimento 5 Estrelas, não apenas estarão iminentes novas eleições, mas aproxima-se uma verdadeira crise constitucional. O modo como o Presidente interferiu na formação do governo poderá estar previsto na constituição, mas politicamente conduzirá a um devastador resultado para a sua própria posição aparentemente pro-Europeia.

Paolo Savona, o designado Ministro das Finanças, foi provavelmente o motivo para a elite política da UE interferir mais uma vez na política interna italiana. Pode-se perfeitamente imaginar como, nos bastidores, os “bons europeus” em Itália e no estrangeiro pressionaram o presidente italiano para o convencer de que Savona é um “inimigo da Alemanha”. A análise de Savona sobre a atual situação financeira da Itália é largamente correta. A comparação que faz com o Tratado de Versalhes e a análise daquilo que a literatura económica apelida de “problema de transferência” é também uma apreciação muitíssimo sensata (aqui uma explanação e referências na Alemanha). É verdade, como assinalei muitas vezes, que no país, nomeadamente a Alemanha, que John Maynard Keynes queria proteger com a sua análise do problema de transferência, ninguém ainda percebeu do que se trata. A iliteracia económica do povo simplesmente não quer ser perturbada no seu pequeno mundo primitivo a qualquer preço.

Foi a Europa salva?

Todos os que ofenderam abertamente a Itália nestes dias, mas também aqueles para quem a posição “anti-Europeia” dos parceiros da coligação era uma espinha nas suas gargantas, certamente se esfaquearão pelas costas. Muito bem, a Europa salva novamente! Mas, cuidado: o povo italiano e aqueles que de novo se candidatem a ser eleitos para o parlamento italiano não são tão estúpidos como os meios de comunicação dominantes gostariam que fossem. Talvez este povo responda em novas eleições com um decidido “agora mais que nunca” e dê aos dois partidos, os quais se lançaram na posição de ruptura de Itália, o retumbante mandato que nenhum presidente poderá ignorar.

E é já claro também aquilo que será a campanha eleitoral. Com a sua posição, que torna a Europa responsável por muitos dos problemas de Itália, a Liga e o Movimento 5 Estrelas terão ainda maior impacto na população. Todos os outros partidos, por outro lado, poderão reduzir-se a ponto de ficarem irreconhecíveis. Então deixará de haver uma calma discussão sobre as opções europeias, como poderia ainda ter sido possível, mas haverá antes uma batalha política, cujo grande perdedor foi já claramente identificado: a Europa!

 

Quem quer que suprima a verdade…

Apesar de todos os avisos de tempestade vindos de Itália, o popular jogo “Os outros são sempre os culpados, mas nós não” continuará a ser jogado na Alemanha no decorrer das próximas semanas. Agora, a maioria dos partidos e quase todos os meios de comunicação “declararam” que a miséria Europeia foi causada pelas nações europeias do Sul. O Norte está completamente inocente. O generoso tributo que “os do Sul” pagaram ao povo alemão – em termos de quota de mercado que perderam em todo o mundo – durante quase uma década é ignorado. Temos reprimido a verdade durante tanto tempo, não se pode de repente sacá-la da manga, mesmo se se compreende que é mais do que tempo de o fazer. O partido de ultra-direita alemão AfD, que paradoxalmente deve a sua existência às mentiras europeias, castiga sem piedade todos os que contradigam a “mentira alemã” qualificando-os de traidores à mãe-pátria.

No caso de Itália, como na Grécia, a Europa “terá” de declarar explicitamente agora que simplesmente ignora os votos democráticos que ponham em causa os tratados europeus ou mesmo a discussão aberta de mudanças fundamentais na política da união monetária. Isto é independente de se as preocupações manifestadas dos críticos se justificam ou não. Alguns são simplesmente retratados como perdedores permanentes, enquanto que outros são declarados vencedores permanentes. Tudo isto não resulta de que o sistema europeu funcione bem, mas porque os vencedores simplesmente declaram que não existem alternativas.

 

… colherá o ódio

Apenas pessoas loucas poderão pensar que uma tal relação pode durar eternamente. Não, o ódio provavelmente aumentará tanto em poucos meses que deixará de ser possível haver discussões sérias ao nível europeu. O tsunami de estupidez e os insultos que a Itália teve de aguentar estes dias, especialmente vindos da Alemanha, e que os políticos alemães não contestaram vigorosamente, queimou finalmente todas as pontes. como vai um governo alemão reunir novamente com um governo italiano em termos de iguais e numa atmosfera construtiva e amistoso?

O que é trágico é que a França continue a não reconhecer o seu erro histórico por ter defendido a posição da Alemanha desde o início, em vez de tomar o partido dos países do Sul. A este respeito, Macron é igualmente o homem errado no local errado, tal como o seu predecessor Hollande. Apenas a França poderia inverter a situação tomando claramente partido pela Itália e exortando a Alemanha a fazer mudanças. Mas provavelmente existirá falta de competência económica e senso político em Paris.

 

Texto original em http://www.flassbeck-economics.com/italy-going-down-the-wrong-path/

 

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