
Portugal ousou pôr de lado a austeridade. Está a ter uma grande retoma da sua economia.
Por Liz Alderman 
Publicado por
, em 22 de julho de 2018
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Numa altura de crescente incerteza na Europa, o país desafiou os críticos que insistiam na austeridade como resposta à crise económica e financeira do continente.
Lisboa — Ramón Rivera mal tinha acabado de realizar o seu negócio de produtor de azeite de oliveira, iniciado na região do Alentejo varrida pelo sol, quando a crise da dívida europeia rebentou. A economia desmoronou, os salários foram cortados, e o desemprego dobrou. O governo de Lisboa teve de aceitar uma ajuda internacional humilhante.
Mas à medida que a miséria se aprofundava, Portugal tomou uma posição ousada: em 2015, afastou as medidas de austeridade mais duras que os seus credores europeus tinham imposto, ativando um ciclo virtuoso que colocou a sua economia de retorno a uma trajetória de crescimento económico. O país reverteu cortes nos salários, nas pensões e na Segurança Social, e concedeu incentivos às empresas.

A viragem de 180ª do governo, e a vontade de dinamizar a procura tiveram um efeito poderoso. Os credores declararam-se opostos a este movimento, mas a tristeza que se tinha apoderado da sociedade portuguesa através de anos de apertar do cinto começou a desvanecer-se. A confiança do mundo empresarial começou a reaparecer de novo. A produção e as exportações começaram a descolar, inclusive nos olivais do senhor Rivera.
“Tínhamos fé de que Portugal sairia da crise”, disse Rivera, diretor-geral da firma Elaia. A empresa concentrou-se na tecnologia de última geração para a apanha da azeitona e é agora um dos maiores produtores de azeite de Portugal. “Vimos que este era o melhor lugar do mundo para investir.”
Numa altura de incerteza na Europa, Portugal desafiou os críticos que insistiam na austeridade como resposta à crise económica e financeira do continente. Enquanto países desde a Grécia até à Irlanda- e durante um certo período Portugal igualmente- seguiram a linha da austeridade, Lisboa resistiu, o que contribuiu para reavivar a retoma da sua economia que levou o crescimento económico no ano passado ao seu mais alto nível de toda uma década.

A mudança é visível em quase todos os lugares. Hotéis, restaurantes e lojas abriram em massa, alimentados por uma onda de turismo que ajudou a reduzir o desemprego por metade. No bairro de Lisboa, chamado Beato, um mega campus para jovens empresas, start-ups, surge dos escombros de uma fábrica de material militar abandonada. Bosch, Google e Mercedes-Benz abriram recentemente escritórios e centros de pesquisa digital aqui, empregando no seu conjunto alguns milhares de pessoas.
O investimento estrangeiro em aeroespacial, construção e outros setores está a um nível recorde. E as indústrias portuguesas tradicionais, incluindo têxteis e fábricas de papel, estão a investir em inovação, impulsionando um boom nas exportações.
“O que aconteceu em Portugal mostra que demasiada austeridade aprofunda uma recessão, e cria um círculo vicioso”, disse o primeiro-ministro António Costa numa entrevista. “Nós concebemos uma alternativa à austeridade, focando-nos sobre um mais elevado crescimento e sobre mais e melhores empregos.”

Os eleitores levaram António Costa, um líder do centro-esquerda, ao poder no final de 2015 depois de ter prometido reverter cortes sobre o rendimento, que o governo precedente tinha aplicado com o objetivo de reduzir o défice elevado de Portugal, sob as condições impostas por um resgate internacional de 78 mil milhões de euros. António Costa formou uma aliança fora do comum com o partido comunista e partidos mais à esquerda, que tinham estado fora do poder desde o fim da ditadura em Portugal em 1974. Estes partidos uniram-se com o objetivo de impedir que se voltasse a aplicar alguns dos aspetos mais duros da austeridade que tinha vindo a ser aplicada enquanto que ao mesmo tempo queriam equilibrar as contas públicas de acordo com as normas europeias para respeitar as exigências de Bruxelas.
O governo elevou os salários do setor público, o salário mínimo e as pensões e até mesmo restaurou a quantidade de dias de feriado para os níveis de antes do resgate internacional contra as objeções de credores como a Alemanha e o Fundo Monetário Internacional. Os incentivos para estimular a atividade empresarial incluíam subsídios de desenvolvimento, créditos fiscais e financiamento para pequenas e médias empresas.
António Costa compensou estes retornos com cortes nas infraestruturas e noutras despesas, reduzindo o défice orçamental anual para menos de 1% do seu produto interno bruto, em comparação com 4,4 por cento quando assumiu o cargo. O governo está no caminho certo para alcançar um excedente por volta de 2020, um ano antes do previsto, acabando com um quarto de século de défices.
Os funcionários europeus estão agora a admitir que Portugal pode ter encontrado uma melhor resposta à crise. Recentemente, eles recompensaram Lisboa, elevando o ministro das finanças do país, Mário Centeno, que ajudou a projetar as mudanças, ao cargo de Presidente do Eurogrupo, o influente coletivo dos Ministros das Finanças da zona euro.
O volte-face da economia teve um impacto notável na psique coletiva de Portugal. Enquanto o desânimo permanece na Grécia depois de uma década de cortes na despesa, a recuperação económica de Portugal tem-se articulado à volta da restauração dos níveis de confiança tanto ao nível das pessoas como das empresas.
“As despesas efetivas em estímulos foram muito pequenos”, disse João Borges de Assunção, professor na Lisbon School of Business and Economics da Universidade Católica. “Mas o estado de espírito do país mudou completamente e, de uma perspetiva económica, isso é mais importante do que a mudança real na política.”
As perspetivas muito mais favoráveis têm levantado empresas como Elaia, o produtor de azeite. A sua empresa-mãe, Sovena, criou Elaia como um start-up numa vasta planície agrícola no sul de Portugal em 2007, um pouco antes da recessão. O seu início não poderia ter sido pior mas os gestores persistiram, abrindo caminho para um aumento na produção, quando a crise estava a aumentar.

Elaia diz que gera 14 por cento da produção de azeite em Portugal hoje, e contribuindo para um renascimento nas exportações portuguesas, que agora constituem 40 por cento da atividade económica. Os drones zumbem sobre vastos olivais, plantados com precisão com 2.000 árvores por hectare, comparando com as 150 árvores de uma quinta tradicional, controlando as culturas para detetar infestação de insetos, níveis de água e o momento ideal para a colheita. As azeitonas são colhidas à máquina. Em vez de mãos no campo, a empresa contrata técnicos para trabalhar com os robôs e a empresa associou-se com universidades para a investigação.
“Portugal melhorou muito depois dos anos difíceis que tivemos”, disse Jorge de Melo, chefe executivo da Sovena. “O ambiente é muito melhor do que era antes, e isso é importante para a economia.”
No entanto, o sucesso de Portugal continua vulnerável.
O crescimento está a arrefecer desde os 2,7 por cento alcançado no ano passado, com Costa a manter o investimento público ao seu mais baixo nível desde há 40 anos para reduzir o défice. Enquanto os salários do setor público recuperavam face aos níveis anteriores à crise, estes praticamente não mudaram desde aí. A precariedade social perdura, agravada pela propagação de contratos a tempo parciais e fracamente remunerados. E o salário mínimo de 580 euros por mês, se bem que tenha subido, continua a ser um dos mais baixos da zona euro.
Os sindicatos de Portugal estão agora a ameaçar com greves para pressionar o governo a uma maior reversão da austeridade, para aumentar os salários e desbloquear as despesas públicas para reduzir as desigualdades.
António Costa insiste que o governo deve continuar a reduzir o défice para compensar a maior ameaça que pesa sobre Portugal: a sua enorme dívida, ainda uma das maiores da zona euro. Os bancos portugueses estão enredados nas areias movediças dos créditos de má qualidade concedidos desde antes da crise disparar e o país continua vulnerável a qualquer turbulência do mercado financeiro que possam ser provocados pelos problemas na Itália vizinha.
“Nós não estamos a ir do lado escuro para o lado brilhante da lua”, disse o primeiro-ministro. “Ainda há muito a fazer.”
“Mas quando começámos este processo, muitas pessoas disseram que o que queríamos alcançar era impossível”, acrescentou. “Nós mostramos que há uma alternativa.”
Para cimentar o ciclo de crescimento, o governo está a colocar o pouco investimento que faz em iniciativas direcionadas como incentivos fiscais para empresas estrangeiras e para a formação dos desempregados.
A uma hora e meia a leste de Lisboa, em Évora, uma fábrica de cinco hectares construída pelo fabricante francês de peças de avião Mecachrome ergue-se das planícies onduladas do Alentejo ladeadas por sobreiros. Atraída em 2016 pelos incentivos governamentais e pelos empréstimos da União Europeia, investiu $30 milhões num vasto parque aeroespacial onde escavadoras estão a limpar os campos para depois se dar lugar a estradas e a atividades empresariais.

Robôs forjam peças de precisão para Airbus, Boeing e outros gigantes da indústria. A maioria dos 150 técnicos foram recrutados nas proximidades por uma agência de desemprego que iniciou um programa intensivo de formação com o governo.
Luis Salgueiro, 29 anos, um aprendiz na Mecachrome, estava desempregado durante a crise. Ele finalmente conseguiu trabalho como empregado de mesa, e depois numa fábrica de tomate, antes de voltar a cair na situação de desempregado. Na fábrica Mecachrome, no entanto, ele estava a ajudar a codificar uma máquina complexa para produzir uma parte do avião em titânio. Ao completar a sua aprendizagem deverá então ocupar um posto de trabalho em tempo integral.
“O meu futuro parece-me que pode vir a ser brilhante, a partir de agora”, disse ele, radiante, enquanto ia gesticulando pela fábrica.
Christian Santos, diretor da Mecachrome em Portugal, disse que planea contratar mais 150 trabalhadores e investir milhões em investimentos adicionais nos próximos três anos.
“As coisas estão a acontecer em Portugal”, disse ele. “Há aqui um entusiasmo pujante.”

Camilo Soldado contribuiu para a presente reportagem.
Liz Alderman é a correspondente chefe europeia para o mundo dos negócios baseada em Paris, cobrindo os desafios económicos e da desigualdade na Europa. Anteriormente foi editora assistente, e durante cinco anos foi editora no então International Herald Tribune.
Texto original em https://www.nytimes.com/2018/07/22/business/portugal-economy-austerity.html

Olha que chatice!!! a direitalha nao vai gostar desta reportagem de certeza