Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – A crise política alemã está ligada ao futuro da Europa. Por Wolfgang Münchau

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

A crise política alemã está ligada ao futuro da Europa

wolfgang-munchau Por Wolfgang Münchau

FTimes em 17 de junho de 2018

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Horst Seehofer, Ministro do Interior e Presidente da CSU, desencadeou a mais grave crise governamental da Chanceler Angela Merkel © AFP

 

O unilateralismo da CSU está em conflito com o apoio de Merkel à integração europeia.

 

Pode-se dizer “não” a uma Chanceler alemã quando tudo o que ela pede é apenas 14 dias?

Há um homem que o fez. Horst Seehofer, Ministro do interior e Presidente da União Social Cristã (CSU), o partido bávaro irmão da União Democrática Cristã de Angela Merkel, conseguiu desencadear a crise governamental mais grave que Angela Merkel enfrentou até agora como Chanceler.

Horst Seehofer quer que os guardas fronteiriços alemães rejeitem a entrada de requerentes de asilo registados noutros países da UE. A senhora Merkel quer uma solução europeia e pediu-lhe que esperasse até à Cimeira da UE no final do mês.

Os 46 membros da CSU no Bundestag apoiaram unanimemente Seehofer. Um deles disse que a senhora Merkel não conseguiu chegar a um acordo à escala da UE durante três anos. Que diferença irá então fazer duas semanas mais? A CSU, sob a pressão da anti imigração Alternative for Germany procura posicionar-se como resistente à imigração antes das eleições estaduais de Outubro na Baviera.

No fim-de-semana, a situação permaneceu tensa.

O conflito pode chegar a atingir o seu clímax esta semana. Sob a lei alemã, o Ministro do Interior tem poderes executivos que lhe permitiriam impor uma proibição sem ser necessário a aprovação pela Chanceler. Se o faz, a senhora Merkel pode demiti-lo e, ao fazê-lo, fará com que a coligação perca a maioria. Pode até levar a novas eleições. A União entre estes dois partidos, que vem desde 1949, pode assim acabar.

Há um compromisso na mesa sobre a mesa que poderia levar a que se alcance uma trégua por alguns dias.

No entanto, a unidade entre a senhora Merkel e a CSU parece permanentemente fraturada. Este conflito não é acerca de 14 dias aqui ou ali, mas sobre o unilateralismo da CSU versus o apoio da senhora Merkel à integração europeia. É o conflito essencial na política europeia do nosso tempo.

A senhora Merkel não tem a maioria no país para as suas políticas liberais sobre os refugiados. Ela abriu a fronteira para os refugiados em 2015, mas sem ter a certeza de que tinha apoio político e logístico suficiente.

A estratégia geral de adiamento do problema da chanceler Merkel chegou ao fim da linha. O deputado Seehofer quer uma política firme em matéria de imigração. E Emmanuel Macron, o Presidente francês, exige uma resposta sobre a reforma da zona euro. E ambos querem-no aqui e agora.

Ela também está pressão de Donald Trump. O Presidente dos EUA está abertamente a atacá-la em duas outras áreas onde ela tem procurado adiar a resolução dos diferendos. Um é o seu compromisso declarado para aumentar a despesa alemã em defesa para 2 por cento do PIB. O outro é uma redução dos excedentes excessivos da balança comercial alemã. A CSU está agora a posicionar-se como sendo o partido alemão de Trump. Markus Söder, primeiro-ministro bávaro, falou sobre um “fim ordenado do multilateralismo”.

Isto significa que a Alemanha deve tomar as questões nas suas próprias mãos. Ele poderia muito bem ter dito: a Alemanha em primeiro lugar.

A senhora Merkel não conseguirá agora um amplo acordo de refugiados a nível da UE. A sua melhor esperança reside numa série de tratados bilaterais com os países da UE onde chega a maioria dos refugiados — Itália, Grécia e Espanha.

Mas basta pensar sobre os possíveis compromissos que os dirigentes desses países exigiriam: uma redução da dívida grega; uma isenção italiana das regras orçamentais da zona euro; talvez alterações aos estatutos do Banco Central Europeu. Estão-se a aproximar as eleições na Grécia. O novo governo italiano tem uma longa lista de exigências que levaria os conservadores alemães a um estado de depressão permanente. E Mariano Rajoy, o mais leal aliado da chanceler Merkel no Conselho Europeu, deixou de ser o primeiro-ministro da Espanha.

Existe um resultado teórico pró-europeu para esta crise. A senhora Merkel poderia obter o seu acordo sobre os refugiados à escala da UE e, por sua vez, aceitaria a reforma da zona euro do Presidente Macron, assim como aceitaria satisfazer as exigências da Itália e da Grécia. Mas não é difícil ver como isso pode dar um resultado errado. O debate da zona euro na Alemanha já descarrilou desde há muito tempo. Não vejo qualquer hipótese de a Alemanha poder oferecer os compromissos necessários para um acordo abrangente sobre os refugiados.

Um cenário mais provável é uma aliança estratégica entre Seehofer e Matteo Salvini, o novo Ministro do Interior italiano e líder da Liga Norte a. Eles estão unidos no seu unilateralismo. Sebastian Kurz, o chanceler austríaco conservador, pode juntar-se a essa coligação da não-vontade.

Muitas pessoas têm admirado o pragmatismo e o estilo de gestão da senhora Merkel. Mas o compromisso tem sido uma falha persistente para resolver os problemas.

A foto da cimeira do G7 dos dirigentes mundiais no Canadá, mostrando-a numa postura desafiadora em oposição a Trump, é uma ilusão de ótica. Ela não está a fazer frente a ninguém, nem mesmo a Seehofer.

 

Texto original em https://www.ft.com/content/82c5ae74-70c6-11e8-852d-d8b934ff5ffa

 

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