Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – A impressão digital invisível da restauração conservadora na América Latina. Por Alfredo Serrano Mancilla

pobresericos

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

A impressão digital invisível da restauração conservadora na América Latina

Alfredo Mancilla Por Alfredo Serrano Mancilla, Director CELAG @alfreserramanci

publico es es em 22 de agosto de 2018

Dois presidentes não eleitos: Temer no Brasil e Vizcarra no Perú. Uma vice-presidente não eleita no Equador. Perseguição política-judicial contra dois ex-presidentes, Rafael Correa e Cristina Fernández de Kirchner, do Equador e da Argentina. Lula metido na prisão injustamente para evitar que seja o próximo presidente do Brasil. Tentativa de atentado contra Maduro na Venezuela para matá-lo em pleno acto público. Planeiam abertamente acabar com UNASUR [União das Nações Sul Americanas fundada em 2008]. As viagens de altos funcionários dos Estados Unidos são cada vez mais benvindas por alguns governantes latino-americanos.

Estes são alguns dos acontecimentos políticos mais emblemáticos que caracterizam a nova fase da ofensiva conservadora na região que se vêm produzindo nestes últimos anos. Embora estes factos não sejam, de modo nenhum, uma novidade, o que verdadeiramente os distingue é a intensidade da arremetida. Desde que a correlação de forças políticas na região se tornou cada vez menos favorável ao campo conservador, foram sendo aplicados métodos não democráticos para ganhar o terreno que se ia perdendo pela via eleitoral. Ninguém se esquece no Paraguai e nas Honduras a destituição golpista de presidentes eleitos, igual ao que ocorrera com Dilma no Brasil. A tentativa de acabar com a revolução venezuelana por céu, mar e terra. Ou o golpe contra Correa para tirá-lo do poder. Ou a desestabilização permanente contra Evo Morales e a Assembleia Constituinte na Bolívia.

Todos estes factos evidenciam que desde o início se actuou assim com o fim de interromper um ciclo progressista que se vinha a alargar. Mas agora, aproveitando o próprio desgaste dos governos que levam muitos anos no poder, mais uma restrição económica externa que aperta até à asfixia, a restauração conservadora decidiu pisar o acelerador levando por diante quem quer que seja e como seja. Deram-se conta de que o poder comunicacional e o económico, por muito potentes que fossem, eram insuficientes para a tarefa destituidora e, então, havia que retomar nalguns casos o poder militar, assim como o poder judicial, nos casos em que puderam fazê-lo.

Desta forma, além do objetivo em si (alterar a ordem democrática no conjuntural para conseguir capacidade de comando), procuram normalizar aquilo que não é normal, a partir de uma estratégia de insistência e repetição, orquestrada desde quase todos os poderes fáticos, incluído isso que chamam “comunidade internacional” que, se não a tem a favor, inventa-a (como é o Grupo de Lima, para o caso venezuelano). Está aqui a pegada conservadora de maior alcance em termos estruturais: conseguir que se naturalizem práticas que há poucos anos eram rejeitadas, maioritariamente, pela cidadania. E, seguidamente, conseguir impor uma espécie de regresso do mito do “não há alternativa”, que também possa implantar-se entre as pessoas, inclusive entre alguns dirigentes políticos do campo progressista.

Estas são questões que vão além do aqui e agora, e que a restauração conservadora está a planificar para o futuro, a fim de construir um campo muito mais fértil para poder ganhar eleições sem necessidade de ter que regressar instrumentos rudimentares. O objetivo de médio prazo é arrebatar qualquer réstia de esperança, criando um clima de resignação e sacrifício; demostrando que se o tentas e consegues logo acabarás perseguido ou na prisão; e que o melhor é voltar ao “não te metas em política”. Daí deriva a estratégia, às vezes comprada inclusive por parte do bloco progressista, de nos induzir à supremacia de alguns “estados de moda”: a não confrontação, a despolitização, a lógica aspiracional, a classe média, os valores posmateriais, etc. Ninguém pode negar que tudo isso existe, mas o risco reside em que sejam resignificados, como a restauração conservadora pretende.

E esta é seguramente a nova dimensão, às vezes invisível, que gravita na grande disputa de América Latina para os próximos anos.

Texto original em https://blogs.publico.es/dominiopublico/26322/la-huella-invisible-de-la-restauracion-conservadora-en-america-latina/

Alfredo Serrano Mancilla é um economista y académico espanhol, atual director executivo do Cnetro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica (CELAG). Doutorado em Economia pela Universidade Autónoma de Barcelona. É autor de América Latina en disputa e El pensamiento político de Hugo Chávez. O seu trabalho de investigação foi realizado em países latinoamericanos como Argentina, Bolívia, Equador, Venezuela e México; além de Espanha e Canadá.

 

 

 

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