A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 4. Porque é que um excesso de poupança não aumenta a poupança (1ª parte). Por Michael Pettis

egoista

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

4. Porque é que um excesso de poupança não aumenta a poupança (1ª parte)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 2 de maio de 2017

Nota: Numa entrada do blog há dois meses, eu escrevi que por causa de uma gestão bastante pobre do meu blog, alguns textos parecem ter desaparecido. Felizmente para mim, vários outros sites reproduzem muitos dos meus textos pelo que quando tive que os procurar e me lembrava do título, pude em geral encontrá-los. De vez em quando, se eu achar que eles ainda podem ser úteis, vou voltar a publicá-los aqui no site Carnegie com um pouco mais de cuidados editoriais para se corrigirem erros de digitação, esclarecer um pouco mais alguns pontos e adicionar ligações com outros textos. A primeira entrada de blog a receber este tratamento foi colocada em 28 de fevereiro de 2017.

Este é a segunda, uma reedição do texto de 23 de maio de 2014, texto em que eu tentei explicar como é que a existência de excedentes de poupança se movimentam através da economia global. A minha conclusão é só uma, e que repito frequentemente, é que é inútil abordar a questão das poupanças sem considerar as condições subjacentes que determinam a forma como as alterações da taxa de poupança devem ser transmitidas e contrabalançadas. Este é um tema especialmente importante quando consideramos questões de comércio internacional, distribuição de rendimento e uma economia global a sofrer de uma procura estruturalmente fraca.

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Contrariamente ao pensamento convencional, a criação de excedente de poupança desejada relativamente ao investimento desejado não provoca necessariamente um aumento da poupança a nível global. Um excedente de poupança desejada deve resultar ou num aumento do investimento produtivo, ou num aumento da carga da dívida ou num aumento do desemprego.

 

O debate sobre a hipótese de sobreabundância de poupança global está atolado em diversos pontos de confusão, em que um deles, e fundamental, é a ideia aparentemente óbvia, mas falsa, de que um excedente de poupança desejada relativamente ao investimento a nível global deve levar a maiores poupanças globais. Como um dos meus economistas favoritos, Barry Eichengreen, escreve num texto recente, “há apenas um problema: os dados mostram pouca evidência de um excesso de poupança. Desde 1980, as poupanças globais têm oscilado entre 22% e 24% do PIB mundial, com pouca tendência para subir ou descer.”

Mas enquanto o facto de que as poupanças globais não mudaram parece apresentar uma rejeição muitíssimo exemplar da tese de que existe uma poupança desejada excedentária relativamente ao investimento a nível global mas, na verdade, esta afirmação não rejeita coisa nenhuma. Por mais surpreendente que possa parecer, as poupanças globais desejadas não resultam em poupanças globais mais elevadas, exceto em condições específicas, muitas vezes improváveis. O principal impacto de uma poupança global desejada superior ao investimento desejado é criar um mecanismo que transfere poupanças da parte saturada da economia global para outra parte da economia global em que ou o investimento, consequentemente, aumenta, resultando num aumento global das poupanças globais, ou há aumento da dívida ou do desemprego, não resultando daí nenhuma mudança na poupança global geral.

O que é um excesso de poupança desejada?

Não há nenhuma definição formal de um excesso de poupança desejada, mas sempre que as condições do mercado ou as distorções de políticas levam a que a taxa de poupança global numa parte da economia [sem alteração do comportamento das famílias ou, por outras palavras, independentemente da vontade das famílias] esteja a aumentar excessivamente (o que é também uma palavra ambígua), podemos falar de um excesso de poupança desejada. Este fenómeno tem pelo menos duas causas principais.

  • Aumento da desigualdade de rendimentos. Vemos isso na China, na Europa, nos Estados Unidos e, na verdade, em grande parte do mundo. Quando as famílias ricas aumentam a sua parte de rendimentos no rendimento total, e porque tendem a poupar uma parte maior do seu rendimento do que fazem os agregados familiares comuns, a crescente desigualdade de rendimento força a taxa de poupança a crescer.
  • A diminuição da parte do rendimento das famílias no PIB. Nós vimos isto principalmente na China e na Alemanha ao longo dos últimos quinze anos. Quando os países põem em prática políticas que intencionalmente ou involuntariamente forçam a diminuição da parte dos rendimentos das famílias no PIB [1] (geralmente para aumentar a sua competitividade internacional), eles também automaticamente forçam a parcela de consumo do PIB a diminuir. Porque a poupança é definida como o PIB menos o consumo, forçando a parte de consumo a descer, força-se a parte de poupança a subir. Há muitas políticas e condições que fazem isso, e discuto-as uma a uma e extensivamente no meu livro, The Great Rebalancing: as principais são a baixa do crescimento salarial em relação à produtividade, a repressão financeira e uma moeda subvalorizada. [2]

Note-se que em ambos os casos – e completamente contrário à narrativa popular que elogia a alta poupança como uma consequência virtuosa do comportamento de parcimónia das famílias – o aumento da taxa de poupança não ocorre porque as famílias ordinárias se tornaram mais aforradoras, ou por outras palavras, se tornaram menos consumistas. No primeiro caso, as poupanças dos agregados familiares aumentam simplesmente porque os ricos aumentam a sua parte no rendimento total. No segundo caso, as poupanças internas nacionais aumentam sem que os agregados familiares comuns aumentem seja no que for as suas poupanças. De facto, as poupanças das famílias comuns, neste último caso, declinam frequentemente a sua parte no PIB e o mesmo acontece com o consumo dos agregados familiares comuns relativamente ao valor do PIB. Mas o total das poupanças aumenta porque o rendimento mais baixo dos agregados familiares é compensado com o rendimento mais elevado algures (lucros das empresas ou receitas líquidas do governo) que é canalizado para a poupança.

Como isto parece tão difícil para muitos conceptualizarem, um simples exemplo numérico pode ajudar a tornar mais fácil esta conceptualização. Considere a seguinte economia em que os agregados familiares recebem 70 por cento do valor do PIB, de que gastam metade sob a forma de bens de consumo e poupam a outra metade dos seus rendimentos. Por uma questão de simplicidade, vamos supor que não há consumo do governo, de modo que todo o consumo é o consumo interno das famílias:

PIB total                                   $ 100

– Rendimento das famílias     $ 70

  dos quais

  …Consumo                     $ 35

  …Poupança                    $ 35

– Receitas do governo            $ 10

– Lucros das empresas          $ 20

Nesta economia, o consumo total é de $35 e a poupança total é de $65.

Agora assuma-se que, tal como a Alemanha em 2003-2005, esta economia põe em prática reformas no mercado de trabalho que aumentam os lucros das empresas em detrimento do rendimento das famílias, de modo que as famílias recebem agora apenas 60% do PIB. Isto é o que a nova economia nos mostraria:

PIB total                                   $ 100

– Rendimento das famílias     $ 60

  dos quais

  …Consumo                     $ 30

  …Poupança                    $ 30

– Receitas do governo            $ 10

– Lucros das empresas          $ 30

 

Alternativamente, suponha-se que o governo encetou uma via de repressão financeira ou implementou outras formas de impostos escondidos, como os que se praticam na China, que reduzem a parte dos agregados familiares comuns no PIB (também a 60 por cento), exceto que desta vez a favor do governo. Nesse caso, haveria uma pequena diferença na estrutura da economia:

PIB total                                   $ 100

– Rendimento das famílias     $ 60

  dos quais

  …Consumo                     $ 30

  …Poupança                    $ 30

– Receitas do governo            $ 20

– Lucros das empresas          $ 20

 

Observe o que acontece com a poupança total na economia. Em ambos os casos, a parte dos rendimentos familiares no PIB caiu para 60 por cento, dos quais as famílias continuam a gastar metade na forma de consumo e a economizar metade. Em ambos os casos, o consumo doméstico cai de $35 para $30, assim como as poupanças das famílias. Em ambas as economias, contudo, o total de poupanças – que é simplesmente igual ao PIB menos o consumo-aumenta de $65 para $70.

É por isso que devemos deixar de pensar nas poupanças puramente em termos do que as famílias fazem. É muito possível, como estes dois casos mostram, que as poupanças totais aumentem mesmo enquanto a poupança das famílias diminui e o comportamento aforrador das famílias permanece inalterado [ou seja, em que utiliza metade dos seus rendimentos em consumo, metade em poupança].

(continua)

 

Texto disponível em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/69838

Notas

[1] Nota do tradutor. Penso que em linguagem marxista se poderia dizer que uma variação da poupança desejada relativamente ao investimento desejado é equivalente a falar-se do efeito de medidas para reduzir o consumo das famílias comuns por unidade rendimento criado, ou seja, para aumentar a poupança por unidade rendimento criado, o que é equivalente à pretensão de criar uma  poupança forçada, uma vez que se trata de uma variação da poupança global, por unidade rendimento criado, independente da vontade das famílias comuns.

[2] Embora em grande parte e estupidamente esquecido pelos economistas mainstream, existe uma discussão extremamente sofisticada do impacto económico do excesso de poupança, mais significativamente no trabalho do britânico John Hobson e do norte-americano Charles Arthur Conant, os quais fizeram grande parte do seu mais importante trabalho durante as duas últimas décadas do século XIX. A principal inovação subsequente ao seu trabalho é o reconhecimento da segunda dessas duas grandes causas do excesso de poupança criado. Uma vez que no seu trabalho, apenas um aumento na desigualdade de rendimento é reconhecida como uma fonte de poupança em excesso.

 

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