
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
7. Equilíbrio Interno e Externo (2ª parte-conclusão)
Por Michael Pettis
Publicado por
em 9 de junho de 2015
Os excedentes comerciais são eles virtuosos?
Antes de explicar a segunda fonte de grande frustração que este livro oferece, eu quero fazer um desvio rápido sobre a questão dos excedentes da balança corrente ou comercial. Qualquer sugestão de que o excedente comercial da Alemanha é demasiado elevado e que se tornou uma fonte de distorções globais [noutros países] parece enfurecer muita gente, para muitos dos quais a ideia de que um excedente comercial pode ser demasiado elevado é o equivalente moral de criticarem as pessoas por trabalharem excessivamente e por serem excessivamente prudentes. Um excedente comercial, pensam eles, é a recompensa que um país recebe quando o seu povo trabalha duramente e aforra o seu dinheiro.
Mas será que a uma nação de gentes que trabalham no duro e produtivamente, chamemos-lhes de formigas, têm normalmente excedentes comerciais? O consenso parece ser de que assim seria. A execução de um excedente comercial significa que um país vende mais aos estrangeiros do que lhes compra e parece haver uma crença implícita de que as exportações são o que um país de trabalho duro produz, e as importações são o equivalente ao seu consumo, de modo que um excedente comercial significa que o país ganha mais do que aquilo que gasta, e quanto maior o excedente, mais provável as formigas nesse país serem especialmente produtivas, aforradoras, moralmente corretas e talvez orgulhosas por usarem roupas sensatas.
Países que têm grandes e persistentes défices comerciais, por outro lado, compram mais aos estrangeiros do que lhes vendem, e porque isso parece sugerir que eles estão a viver além das suas posses, nós geralmente pensamos que essas pessoas, vamos chamá-los de cigarras, têm falta de disciplina e de prudência. As cigarras suscitam o nosso desprezo, mesmo que às vezes invejemos os seus comportamentos despreocupados e a sua moral boémia.
Se as famílias que são cuidadosas gastando menos do que ganham, e conservando uma parte dos seus ganhos para o futuro, são vistas como admiráveis pessoas poupadas, enquanto as famílias que são demasiado rápidas a puxar dos seus cartões de crédito para comprar coisas para as quais não têm recursos são vistas como tolas, e, no final, implicitamente a quererem que os seus vizinhos prudentes os financiem e os resgatem , assumimos que o mesmo será verdadeiro quando falamos de países. É injusto que as formigas tenham de socorrer as cigarras, e por isso, naturalmente, tendemos a abominar as políticas destinadas a favorecer as cigarras relativamente às formigas, e por extensão também abominamos as políticas que parecem favorecer os défices comerciais sobre os excedentes comerciais.
Mas os países não são de modo nenhum como as famílias e, acima de tudo, os ganhos de um país não são iguais às suas exportações. Um país ganha a quantidade total de bens e serviços que as suas famílias produzem, das quais as exportações são apenas uma parte – e geralmente uma pequena parte, exceto no caso de países que são entreposto comercial ou de países mercantilistas. Os países mais ricos e produtivos não são aqueles que mais exportam. São aqueles que produzem a maior quantidade de bens e serviços, e nós geralmente, embora nem sempre com precisão, medimos o valor dessa produção como sendo o produto interno bruto (PIB).
por outras palavras, um país de formigas trabalhadoras e produtivas não será recompensado com um elevado excedente comercial mas sim com um PIB elevado, o que se deveria traduzir numa maior qualidade de vida. Eles podem exportar muito, mas a razão pela qual exportam é que trocam os seus produtos por bens estrangeiros que não podem produzir internamente ou que lhes levam mais tempo e mais dinheiro para produzir internamente do que importá-los do estrangeiro. Isto deveria ser óbvio quando consideramos que, enquanto é possível para cada agregado familiar trabalhar mais, produzir mais e, portanto, consumir e economizar mais, é impossível para todos os países trabalharem mais, exportarem mais e importarem menos.
Um país de formigas poderia ter excedentes comerciais ou défices comerciais, dependendo de condições que não têm nada a ver com o quão duro esse país trabalha, mas se tem excedentes durante muitos anos, a sua moeda acabaria por se valorizar permitindo que as formigas possam trocar os seus produtos por ainda mais produtos estrangeiros do que antes. Isto faria com que o excedente do comércio desaparecesse uma vez que as formigas consumiram uma quantidade maior de bens estrangeiros que puderam adquirir com menos trabalho do que antes.
Então, se as formigas não são recompensadas com excedentes comerciais, o que é que explica o facto de que alguns países têm excedentes comerciais persistentes ano após ano, enquanto outros países têm défices persistentes? As razões, afinal, têm a ver com a relação entre poupança e investimento. Os países que economizam mais do que investem devem exportar essas economias em excesso para outros países, através da balança de capital, porque as poupanças não podem ser investidas em casa.
Mas algo mais deve acontecer. As formigas ou devem trabalhar para produzir bens e serviços para serem consumidos, ou devem construir estradas, fábricas, aeroportos, e outros tipos de investimento que são financiados pelas suas poupanças – ou seja, a parte de sua produção que não é consumida. Esta afirmação é geralmente caracterizada como:
Consumo + Poupanças = Consumo + Investimento
Se as formigas economizam mais do que investem, então por aritmética simples a quantidade total de bens e serviços que produzem e que eles recebem como rendimento ganho deve ser maior do que a quantidade total de bens e serviços que produzem para consumir ou investir. Posto de forma diferente, a oferta total de bens e serviços que produzem deve ser maior do que a sua procura total de bens e serviços, e por isso eles devem exportar o excesso, ficando assim com um excedente comercial.
O excedente comercial de um país (mais precisamente o seu excedente de balança corrente, que inclui coisas como pagamentos de royalties, turismo, retornos sobre o investimento no exterior, e outras coisas, mas vamos assumir que são a mesma coisa, para simplificar ) é exatamente igual ao seu total de poupança menos o seu total de investimento, diferença esta que é igual à quantidade de poupança que exporta. É por isso que nos referimos à balança de pagamentos. O dinheiro total que as formigas recebem de seu excedente de comércio internacional (balança corrente) é perfeitamente equilibrada pelo défice da balança de capital, que é simplesmente a quantidade de poupança que enviam para o exterior.
Porquê economizar mais do que se investe?
Os países têm excedentes comerciais, digamos, não porque os seus cidadãos sejam formiguinhas trabalhadoras, mas sim porque eles economizam mais do que investem. É claro que é suposto que as formigas poupam mais do que as cigarras, porque elas estão prudentemente dispostas a fazer algum sacrifício hoje, a fim de obterem um melhor resultado amanhã, mas isso significa também que elas devem investir mais do que as cigarras, porque a única maneira de um sacrifício de hoje dar origem a um melhor resultado amanhã é se pouparmos parte da produção de hoje e investi-lo em algo que irá aumentar a nossa produtividade amanhã. A parcimónia natural das formigas explica porque é que elas economizam mais do que investem, mas não pode explicar porque é que os países poupam mais do que investem, e assim têm excedentes comerciais, ano após ano. Existem três razões que explicam a maioria dos casos de grandes e persistentes excedentes comerciais.
A primeira razão é uma boa razão que resulta num maior crescimento e num melhor resultado para o mundo em geral. As outras duas razões, que são realmente variações da mesma razão, resultam num menor crescimento para o mundo em termos gerais.
No primeiro caso, há uma enorme oportunidade de investimento no exterior, talvez porque um grupo de formigas estrangeiras identificaram uma grande oportunidade para aumentar a produtividade, e esta oportunidade persiste ano após ano. Os rendimentos desse investimento são muito mais elevados do que são internamente de modo que as formigas internamente estão dispostas a poupar mais do que naturalmente poupariam para investir em casa.
Porque eles poupam mais do que investem, eles exportam o excesso de poupança para o exterior, onde ganham sobre estas poupanças um rendimento bem superior. O crescimento total da produção para o mundo, consequentemente, é maior, e se esse aumento na produção é compartilhado entre as formigas do país e as formigas estrangeiras, cada um destes grupos fica em melhor situação. Observe, porém, que as formigas estrangeiras estarão a importar poupanças porque as suas necessidades de investimento excedem as suas poupanças e assim, apesar do seu trabalho duro e do rápido aumento da produtividade, estarão perante uma situação de défices comerciais por vários anos. No século XIX, a Inglaterra e os Estados Unidos desempenharam estes dois papéis, com excesso de poupança na Inglaterra a alimentar as necessidades de poupança dos Estados Unidos para financiar o crescimento mais bem sucedido da história num mercado emergente, e enquanto os britânicos tinham excedentes comerciais persistentes, e os EUA tinham défices comerciais igualmente persistentes, ambos os países ficaram mais ricos.
A segunda razão para que um país possa poupar mais do que investe é por causa dos níveis elevados da desigualdade de rendimento. As pessoas ricas geralmente economizam mais do seu rendimento do que as pessoas comuns, de modo que quanto mais eles guardam do total de bens e serviços produzidos pelas formiguinhas trabalhadoras maior será a taxa de poupança do país e menor a sua taxa de consumo. Como o menor consumo desencoraja as empresas a construirem novas fábricas ou a expandirem a produção, as poupanças mais altas são acompanhadas de menor investimento, e assim países com distribuição de rendimento fortemente desigual tendem a ter grandes excedentes comerciais.
A outra razão tem a ver com a parte que as famílias recebem de tudo o que se produziu. A produção total de um país é dividida entre famílias, empresas e o governo. Embora os governos façam compras que podemos classificar como consumo, quase todo o consumo vem das famílias. Isto é importante, porque nos países em que às famílias é permitido ficarem com uma parte muito grande do que produzem, sejam elas aforradoras como as formigas ou esbanjadoras como as cigarras, o seu consumo total será uma parte elevada do PIB total, e o total das poupanças será relativamente baixo. Se o seu elevado consumo incentiva as empresas a abrir novas fábricas, a baixa poupança e o alto investimento pode até levá-los a ficarem numa situação de défice comercial temporário, embora isso possa acontecer apenas até que as fábricas comecem a produzir em pleno.
Mas se as famílias retêm uma parte baixa de tudo o que produzem, com os governos e as empresas a ficarem com o resto, então e de novo, sejam elas aforradoras como as formigas ou gastadoras as cigarras, o seu consumo total será uma pequena parte do PIB total, e a poupança total do país, que é igual ao PIB menos consumo, será uma parte elevada. Mais uma vez se o baixo consumo realmente faz com que o investimento caia, eles vão ter grandes excedentes comerciais. Observe-se. porém, que o país tem uma taxa de poupança elevada não porque as formigas pouparam muitos dos seus proventos. Tem uma alta taxa de poupança porque as empresas e os governos são capazes de aforrar o dinheiro que não foi dado às famílias.
Isto é o que aconteceu na Alemanha durante a última década. Enquanto a Europa cresceu, vários fatores permitiram que as empresas reduzissem drasticamente o crescimento salarial na Alemanha, deixando as famílias alemãs com uma parte decrescente do que produziram e inversamente as empresas a ficaram com uma parte crescente do total que era produzido. Como a desigualdade de rendimento também aumentou durante este tempo, as taxas de consumo das famílias alemãs desceram, assim como desceram taxas de consumo total. Entretanto, as empresas alemãs decidiram reduzir o seu investimento na Alemanha, talvez porque as famílias alemãs não podiam comprar o que produziram. Mais elevadas poupanças e menor investimento fizeram com que o excedente comercial da Alemanha disparasse.
Então, por mais contraintuitivo que possa parecer à primeira vista, os excedentes comerciais não são a recompensa pelo trabalho árduo ou pela parcimónia. Os excedentes comerciais podem ter muitas causas, demasiadas vezes é apenas a baixa parcela que as famílias comuns conseguem ter no PIB, mas os excedentes comerciais, ou défices, que persistem por muitos anos são sempre o resultado de distorções significativas em casa ou no exterior. A crescente produtividade e o trabalho árduo podem conduzir a um forte crescimento das exportações, mas apenas as exportações líquidas de capital conduzirão a um excedente comercial (ou, mais corretamente, a uma balança corrente excedentária). Se países como a Alemanha, cujos excedentes causaram tantos prejuízos à Europa, conseguissem distribuir os rendimentos de forma mais justa, não só a Europa beneficiaria, mas também as trabalhadoras e parcimoniosas formigas alemãs conseguiriam finalmente obter a sua recompensa – um rendimento mais elevado, em vez de maiores excedentes comerciais nacionais.
O valor da história
Eu disse acima que com a leitura do livro The Leaderless Economy tinha ficado com duas grandes frustrações. A primeira é que temos as ferramentas para entender muito do que funcionou mal antes da crise 2007-08, e para compreender porque é que as distorções nas balanças corrente e de capital podem levar a uma acumulação de dívida e a um ajustamento disfuncional para a economia. Não utilizámos estas ferramentas porque não conseguimos trabalhar com a lógica da balança de pagamentos, até ao ponto de em alguns países se ter aplaudido efetivamente medidas que reduzem a quota de produção atribuída às famílias trabalhadoras com o fundamento de que a sua verdadeira recompensa seria um excedente da balança comercial ainda mais elevado.
A segunda frustração está intimamente relacionada com a primeira. Ao mostrar-nos como a história é útil na compreensão dos acontecimentos atuais, os autores também revelam, indiretamente, o quão pouco valor existe na vasta literatura da teoria económica que emerge do mundo abstrato e distorcido das Universidades, despojado como está do seu contexto histórico.
Para a maioria dos economistas, a história é geralmente pouco mais do que uma sequência de dados cujos valores são articulados em modelos matemáticos, cujas hipóteses implícitas muitas vezes esses mesmos economistas não conseguem entender. Mas como Temin e Vines mostram, a história é muito mais útil quando é vista como a evolução de instituições muitas vezes complexas – financeiras, políticas, legais, culturais, e assim por diante – através da qual o comportamento económico é mediado e que afeta a forma como se desenrolam as situações recorrentes da finança, comércio interno e comércio internacional, e que, sem uma compreensão da história, todos nós perdemos muita da complexidade nos nossos modelos de tal modo que muitas vezes acabamos por cometer erros mais que óbvios.
Charles Calomiris, um professor da Universidade de Columbia, cujo trabalho sobre sistemas bancários e risco do sistema bancário está entre os melhores do mundo, tomou uma posição em muito semelhante à agora apresentada num texto apresentado no Federal Reserve de Atlanta no mês passado: ” Temos de pensar historicamente para pensar de forma útil. Os modelos económicos tradicionais não incorporam a análise histórica, apesar da sua utilidade em explicar fatores que estão por detrás das crises ou encontrar as falhas subjacentes.”
A crise global de 2007-08 e as suas consequências são muito mais fáceis de compreender se todo este período for colocado firmemente dentro da história, o que os autores fazem, especialmente com foco em eventos na década de 1920 e 1930, duas décadas que têm grande ressonância com os últimos quinze anos. Um dos seus objetivos é explicar as análises feitas por John Maynard Keynes relativamente ao funcionamento da balança de pagamentos global e como elas se aplicam efetivamente no quadro do desenvolvimento do pensamento de Keynes. Não somente isto dinamiza ou reforça a lógica que está por detrás da evolução do pensamento de Keynes como também torna mais fácil compreender os eventos que, em última análise, inspiraram Keynes, para ultrapassar as objeções de Ralph Hawtrey num famoso debate em 1930para o seu sentido intuitivo de que o excesso de poupança e o desemprego estão relacionados, embora o debate em si não seja discutido no livro.
Porque é que isto tão importante? É impossível sobrestimar a utilidade do raciocínio de Keynes desde que conheçamos as ligações entre poupança, investimento, desemprego e comércio internacional. John Hobson já havia mostrado, quase meio século antes, como é que as distorções institucionais, que forçam a que o nível de poupança seja mais elevado do que o nível de investimento desejado, afetam uma economia aberta, mas Keynes criou uma maneira formalmente lógica de pensar sobre a ligação entre estas distorções. Ao usar este modelo, estamos em condições de entender hoje porque é que num mundo sem uma quantidade quase infinita de procura credível de investimento (o papel dos Estados Unidos desempenhado no século XIX), os altos níveis de desigualdade de rendimento ou a pressão à baixa da parcela de PIB que fica na posse das famílias , devem conduzir quase inevitavelmente primeiro a uma dívida crescente e mais tarde a um aumento do desemprego.[6]
Estes desequilíbrios de poupança estão muitas vezes no cerne dos grandes desequilíbrios no comércio global e nos fluxos de capitais, e no livro The Leaderless Economy os autores clarificam imensamente a questão da transmissão de desequilíbrios de poupança de um país para outro. Os desequilíbrios internos em qualquer economia devem ser consistentes em todos os momentos do tempo com os desequilíbrios externos do país ou, dito de outra forma, qualquer diferença entre a poupança total de um país e o seu investimento total deve resultar num desequilíbrio da balança corrente.
Assim, se as famílias consomem uma parcela decrescente do que produzem, então ou devem aumentar o investimento proporcionalmente, de modo a que a poupança aumente para o mesmo PIB ou, se o investimento não pode aumentar de forma suficientemente rápida (na verdade, na maioria dos casos, é provável até que caia), o desemprego deve subir de forma rápida e o suficiente para evitar que a poupança total exceda o investimento total. Naturalmente se levam a que o défice na procura interna se elimine pelo aumento da procura dos seus produtos por parte do resto do mundo, podem manter o desemprego em baixa , exportando as suas poupanças excedentárias e passando a ter um excedente na balança corrente, cuja contrapartida é um défice na balança corrente do resto do mundo. Trata-se apenas de identidades contabilísticas – o desequilíbrio interno entre a poupança e o investimento de um país é consistente e igual ao seu desequilíbrio externo, e os desequilíbrios externos de um país são, em todos os momentos, coerentes e iguais aos desequilíbrios do resto do mundo. Para compreender qual o país que irá ter o desequilíbrio externo correspondente depende da natureza das instituições através das quais o comportamento económico é mediado, e é por isso que uma base de conhecimento profundo da história económica e financeira é tão importante.
Texto disponível em https://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/60358
Nota
[6] Explico o modelo formalmente no “Appendix” do meu livro The Great Rebalancing: Trade, Conflict, and the Perilous Road Ahead for the World Economy (Princeton University Press, 2013).
