CARTA DE BRAGA – “res publica” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

Vão aparecer hoje, textos cheios de encómios, belas e bem alinhadas palavras aos homens e às circunstâncias de um acontecimento que mudou, mudou mesmo, o panorama político do país.

Mas penso que também ficou como modelo de outros novos mas algo diferentes sucedimentos (gosto deste palavrão!), modelo esse que me levou a este texto.

Um país iterativo!

Quando me falaram da data, talvez por sincronicidades diversas, tinha nas mãos os textos de Manuel Laranjeira, publicados em 1907/8 no jornal portuense “O Diário”, juntos depois com o título “Pessimismo Nacional”.

Manuel Laranjeira o médico e poeta de Espinho foi correspondente e amigo do poeta e filósofo espanhol Miguel de Unamuno que, com base no passamento de Laranjeira, escreveu o belíssimo texto, “Portugal um povo suicida

Ao ler Laranjeira, resolvi transcrever alguns parágrafos, porque fiquei com sensação dolorosa de que nada daquilo me era estranho, por tudo em que Laranjeira se baseava, ser (é) espantosamente actual!

*- A nossa organização social é uma organização mentirosa, sem estabilidade, sem unidade, uma ficção de engrenagem civilizada, encobrindo a torpeza de um parasitismo desenfreado e impudente.

*- Um dos aspectos mais típicos da vida portuguesa e um dos seus males mais funestos é a sua prodigiosa fertilidade messiânica. A cada passo surge um homem que se sente com envergadura e ventre de messias. E, enquanto a nação rola à aventura de messianismo em messianismo, a sociedade portuguesa, lentamente, infatigavelmente, vai-se dissolvendo e desagradando.

*- O nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que em Portugal existe um povo, em que há, devoradas por uma polilha parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque não a educam e uma minoria que sofre porque a maioria não é educada.

Estas e outras considerações parecidas, constavam também da carta de despedida que mandou a Unamuno, que as incluiu no texto “Portugal um povo suicida”, em parte escrito em sua memória,

O texto datado apenas Novembro de 1908, termina com um parágrafo esclarecedor

*- Dentro de uns dias, a 1 de Dezembro, vão celebrar a restauração da sua nacionalidade, de terem sacudido a soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte, voltarão a falar de bancarrota e da intervenção estrangeira. Pobre Portugal!

Agora, a 5 de Outubro, vão celebrar a queda da monarquia e, no dia seguinte voltarão a falar de selfies, dos donos da bola e dos ecrãs, dos donos das promoções e dos saldos, daseuropas que estão longe e, alguns, de umas poucas de coisas que não conseguem perceber nem explicar, mas não se atrevem a perguntar! Pobre Portugal!

Termino este escrito celebrando também o dia, com uma chamada a algumas palavras de Agostinho da Silva, tiradas das “Considerações

*- Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem;

(…) dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não por que tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão;

(…) dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas;

(…) dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.

Bom dia de res publica!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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