A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 11. Porque é que a redução do défice orçamental provoca a redução do défice comercial ou um aumento no desemprego? (2ª parte-conclusão). Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

11. Porque é que a redução do défice orçamental provoca a redução do défice comercial ou um aumento no desemprego? (2ª parte-conclusão)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 22 de maio de 2017

 

O regime comercial obsoleto

Não foi sempre assim. Durante grande parte do século XIX, os Estados Unidos também tiveram défices na balança comercial e excedentes na balança de capitais, mas embora já houvesse fluxos de capitais impulsionados por investidores a tomarem decisões independentes sobre onde colocar o seu dinheiro, cerca de 90 por cento dos negócios internacionais feito por bancos de Londres eram constituídos por financiamento comercial. Naqueles dias em que as importações excediam as exportações, ou o país deficitário enviaria para o exterior alguns ativos monetários — provavelmente ouro ou prata — ou pediria emprestado o equivalente ao valor do défice. Tipicamente, nos velhos tempos, o importador pediria ao seu banco que emitisse uma letra de crédito e esta seria enviada e aceite pelo banco do exportador estrangeiro. Nesse caso, como podemos ver claramente, a balança de capital (isto é, o empréstimo que flui do país exportador para o país importador) é simplesmente um resíduo. Este empréstimo existe porque existe um desequilíbrio comercial.

Não é assim que os fluxos de capitais funcionam hoje. Por todo o mundo, os estrangeiros estão a investir dinheiro nos Estados Unidos com base em decisões que não têm nada a ver com o financiamento do comércio internacional. Estes incluem o bilionário de Chengdu ansioso por colocar o seu dinheiro fora da China, ou um gestor de títulos em Edimburgo, um fabricante de automóveis japonês a pensar construir uma fábrica em Michigan, uma empresa australiana a adquirir o know-how de marketing de uma start-up de alta tecnologia de Brooklyn, ou qualquer um dos milhares de outros investidores estrangeiros que tomam decisões para comprar ações, títulos, imóveis, ou instalações da indústria transformadora e logística nos Estados Unidos. Num mundo de poupanças em excesso, inevitavelmente, a maior parte dos fluxos de capitais estabelecem-se no mercado que oferece menos resistência, que é o dos Estados Unidos.

 

E quanto ao investimento?

O argumento de Shultz e Feldstein depende de outra hipótese implícita, e que tem a ver com o investimento. Eles assumem que nos Estados Unidos, o investimento desejado está genericamente em consonância com o investimento real. Não é que não haja bons investimentos que precisam de ser feitos urgentemente nos Estados Unidos – este país certamente precisa de melhores infraestruturas físicas, como agora quase toda gente sabe, mas não é a isso que me quero referir quando falo em investimento desejado. Eu simplesmente quero com isso dizer que os meios empresariais ou os diversos governos americanos são inteiramente capazes de financiar todos os investimentos de acordo com os seus próprios méritos.

Nos países em desenvolvimento, muitas vezes é difícil aumentar o financiamento necessário para fazer investimentos em infraestruturas ou na indústria transformadora porque os níveis de poupança locais são demasiado baixos, e os estrangeiros têm uma vontade muito limitada para trazerem dinheiro para o país e só estarão dispostos a fazê-lo com taxas muito altas. Esse não é o caso em qualquer país desenvolvido e certamente não é o caso nos Estados Unidos. As empresas americanas e os governos são capazes de pedir tanto dinheiro quanto eles queiram aplicar e a taxas extremamente baixas, desde que sejam solventes. Na verdade, um dos problemas de hoje é que muitas empresas por todo o mundo, e especialmente nos Estados Unidos, estão sentadas em cima de enormes pilhas de dinheiro e parecem não ter interesse em investir em qualquer lugar.

 

O que acontece se o défice orçamental dos EUA for reduzido?

Voltemos à equação de Shultz e Feldstein:

Défice comercial = Investimento Total – (Poupança das famílias + Poupança das empresas – Défice Orçamental)

De acordo com isso, se o défice orçamental se reduzir, o total das poupanças aumentará e porque o investimento não será afetado, inevitavelmente o défice comercial deve diminuir. Mas isso também significa que o excedente da balança de capital deve diminuir. Se não for assim, não há nenhuma outra maneira para que o défice comercial diminua e isto porque os valores destas duas balanças são iguais pela definição.

Mas será mesmo assim? Se os Estados Unidos estão a ter um excedente na balança de capital, principalmente porque o mundo está inundado de excesso de poupança, então é improvável que uma redução no défice orçamental americano vá causar uma queda no excedente da balança corrente dos EUA. Na verdade, se os investidores estão todos eles preocupados com o défice orçamental americano, então se há algo que um corte no défice público americano possa causar é que ainda haja mais dinheiro a entrar nos Estados Unidos, e se o excedente da balança de capital aumenta, então deve o défice comercial americano também ele aumentar, o que é o oposto do que Shultz e Feldstein afirmam.

 

Os diferentes impactos

Isto acaba por ser muito mais complicado do que 70 palavras permitem explicar. Com apenas um ou dois pressupostos muito razoáveis, a recomendação de Shultz e Feldstein —reduzir o défice comercial pela redução do défice orçamental — poderia seriamente dar um resultado errado. Em vez de reduzir o défice comercial, pode simplesmente aumentar o desemprego.

A fim de mostrar a gama de coisas que podem acontecer se o déficit fiscal dos EUA for cortado em $100, eis o melhor que posso fazer trabalhando em apenas duas dimensões [8]: há dois conjuntos-chave de pressupostos.

O primeiro é sobre se as poupanças são ou não escassas nos Estados Unidos – se são, então o investimento desejado excede o investimento real [pois o investimento efetivo é sempre igual à poupança efetiva]. Eu acredito que elas não são, e penso que Shultz e Feldstein concordam comigo.

O segundo pressuposto é sobre se a balança de capital simplesmente se ajusta para compensar o desequilíbrio comercial ou se é determinada de forma independente por investidores estrangeiros e norte-americanos. Eu penso que é este último caso, com os Estados Unidos e os acionistas estrangeiros a movimentarem o capital por todo o mundo e deixando os Estados Unidos com um excedente na balança de capital. Eu não sei o que é que Shultz e Feldstein diriam sobre aquilo em que acreditam, mas implicitamente eles devem acreditar que a balança de capital é impulsionada principalmente pela necessidade de financiar o desequilíbrio comercial.

Há quatro conjuntos diferentes de pressupostos que podemos tomar e, por outras palavras, dependendo de qual conjunto é verdadeiro, isto é o que acontece se o governo dos EUA reduzir o défice orçamental em $100:

 

  A.1 – O investimento desejado excede o investimento atual ou efetivo A.2 – O investimento desejado é aproximadamente igual ao investimento efetivo
A – A balança de capital é determinada pela balança comercial, e reflete principalmente a necessidade de financiar o défice comercial É difícil dizer se o défice comercial vai diminuir. Se o défice orçamental está a eliminar projetos privados de investimento, [o efeito de evicção sobre o investimento privado, uma vez que a ida do governo ao mercado faz subir as taxas de juro e elimina portanto projetos privados de aceder a estes fundos] o corte orçamental fará o trajeto inverso, fará descer as taxas de juro e fará então aumentar o investimento privado e pode mesmo aumentar no montante dos 100 dólares de redução do défice. [A situação de corte do défice diz-se crowding in, contra a situação de expansão do défice que é dita crowding out] Neste caso de redução do défice, a poupança e o investimento aumentarão o suficiente para não terem nenhum impacto no défice comercial. Neste caso, os Estados Unidos têm um défice comercial “bom”, impulsionado por um investimento mais alto e não por uma baixa poupança. Shultz e Feldstein têm basicamente razão. O défice comercial irá diminuir, mas por menos de $100 se o corte do défice orçamental fizer com que o consumo ou o investimento do setor privado subam (pelo aumento da confiança, talvez) ou desçam (pela via da redução das despesas públicas). O desemprego é em grande parte inalterado, mas poderia ser menor ou maior, dependendo de como é que o corte no défice orçamental afeta a economia.

 

 

B.1 – O investimento desejado excede o investimento atual ou efetivo

B.2 – O investimento desejado é aproximadamente igual ao investimento efetivo

B – A balança de capital dos EUA é impulsionada principalmente pela decisão independente de investidores estrangeiros para investirem nos Estados Unidos o excesso da poupança global O défice comercial americano não vai diminuir, e pode até subir se isso fizer com que a confiança estrangeira na economia aumente. Este é um grande resultado para os Estados Unidos, porque o investimento deve aumentar em pelo menos $100, e ainda mais se os fluxos estrangeiros aumentam. O défice comercial americano não vai declinar, e pode até subir se isso fizer com que a confiança estrangeira na economia aumente. Este é um resultado terrível para os Estados Unidos, porque a poupança deve cair em pelo menos $100, e ainda mais se os fluxos estrangeiros sobem.

 

Shultz e Feldstein estão na nossa caixa com os quatro cenários no canto superior direito (A.2), em que um corte no défice orçamental americano causará um corte amplamente proporcional no défice comercial americano sem nenhuma mudança no crescimento global do PIB. Pelo meu lado, estou no canto direito inferior (B.2), em que um corte no défice orçamental dos EUA não causará nenhuma mudança no défice comercial dos EUA, porque ele será correspondido por um declínio na poupança de famílias à medida que aumenta o desemprego, que a dívida dos consumidores aumenta, ou que aumentam ambos. Isto deixa os Estados Unidos numa situação pior.

O melhor caso é o canto superior esquerdo (A.1), onde um corte nas despesas públicas vai provocar um “efeito de pressão” para um aumento proporcional no investimento privado. Isto é típico de uma economia sujeita à escassez de poupança, como os Estados Unidos durante grande parte do século XIX.

 

Conclusão

Peço desculpas se este texto se apresenta de forma um pouco desordenada, mas eu comecei a escrevê-lo rapidamente e queria publicá-lo antes de sair para uma viagem de negócios. A discussão geral sobre o comércio internacional é incrivelmente confusa, com pessoas muito inteligentes a dizerem coisas muito diferentes, mas essa discordância ocorre não porque não entendemos como o comércio funciona, mas sim porque não clarificamos quais são os nossos pressupostos. George P. Shultz e Martin Feldstein são economistas brilhantes e compreendem completamente o comércio internacional, mas talvez por essa razão eles se tenham apressado um pouco rápido demais sobre as suas hipóteses de base.

Os dois pressupostos fundamentais são sobre o que é que determina a balança de capital e se as poupanças são ou não são escassas (ou seja, se o investimento desejado excede o investimento real). Se acreditarmos que a balança comercial é independente, e a balança de capital é simplesmente o que for preciso para contrabalançar a balança comercial, então qualquer coisa que afete as poupanças internas ou o investimento interno irá abrir o seu caminho através da balança de capital. Podemos facilmente deduzir a implicação comercial das políticas que afetam as poupanças governamentais, as poupanças do mundo empresarial ou as poupanças dos agregados familiares.

Se as poupanças são escassas, as mudanças na taxa de poupança afetarão diretamente a taxa de investimento no mesmo sentido, de modo que o efeito líquido nas balanças de capital e comercial será negligenciável. Se as poupanças não forem escassas, as mudanças em qualquer parte da taxa de poupança terão um impacto limitado no investimento, se o tiver, e assim forçarão a que haja mudanças correspondentes na balança comercial e na balança de capital.

 

Will a Smaller Fiscal Deficit Cause the Trade Deficit to Decline or Unemployment to Rise? Disponível em: http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/70042

 

Nota

[8] Devo salientar que esta análise ignora ambos os efeitos dinâmicos e de segunda ordem. Por efeitos dinâmicos, estou a referir-me ao impacto que as políticas terão sobre a evolução a longo prazo da economia; por exemplo, se cortarmos o défice orçamental, isto pode provocar uma mudança qualitativa para melhor ou para pior na economia a longo prazo. Por efeitos de segunda ordem, quero referir que o corte do défice vai no curto prazo aumentar outras formas de investimento e de procura de bens de consumo, aumentando a confiança ou reduzir outras formas de investimento e de procura de bem de consumo, através da redução da despesa.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: