A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 12. Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção (2ª parte). Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12. Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção (2ª parte)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 19 de outubro de 2015

 

A violação das igualdades

Para voltar à discussão da secção dos comentários, estabeleceu-se um muito vigoroso e ativo debate entre muitos dos leitores acerca da afirmação de Keen de que o próximo período de crescimento será função tanto das condições económicas do próprio período como das alterações da dívida no período. Não resumirei o debate, que é longo e de grande amplitude, mas parte das discordâncias têm que ver com o facto de o modelo dinâmico de Keen, que incorpora alterações na dívida, poder implicar que as igualdades contabilísticas que utilizo possam ser, de algum modo, inválidas.

Um dos leitores, Vinezi, escreveu que “Michael tem repetidamente afirmado que utiliza as mesmas igualdades como base da sua investigação nos últimos 10 anos. Todas as suas ideias apresentadas neste blog, as quais são, na minha opinião, impressionantemente corretas, resultam da aplicação destas mesmas igualdades”. Vinezi continua, pedindo-me uma resposta à rejeição dessas igualdades por parte de Keen, sobretudo quanto à igualdade entre poupanças e investimento.

Não sei se Keen rejeita na verdade essa igualdade, mas duvido que o faça porque ele é um matemático demasiado bom para não saber que as igualdades não podem ser “aceites” ou “rejeitadas” como se fossem hipóteses ou modelos. Em termos mais gerais nunca diria que utilizo esta (ou qualquer outra) igualdade como a base para a minha investigação, como afirma Vinezi, porque o objetivo da investigação é, ou deveria ser, testar hipóteses (ou, numa habitual mas leviana prática, descobrir hipóteses). Contudo, não se pode “testar” igualdades contabilísticas, uma vez que não são hipotéticas. Elas são verdadeiras seja por definição, seja como necessidade lógica (o que vem a dar no mesmo), e não há possibilidade de que possam estar erradas.

Frequentemente faço referência às igualdades contabilísticas básicas, mas principalmente porque demasiados economistas e analistas deixam-se confundir de tal maneira pela aritmética da balança de pagamentos, a criação de dinheiro, etc., que tentam explicar as relações entre diferentes variáveis propondo hipóteses que violam as igualdades contabilísticas. Nesses casos as suas hipóteses estão simplesmente erradas, e rejeitá-las não exige qualquer suporte empírico. Em vez de utilizar dados empíricos para “testar” as igualdades, será mais correto utilizar as igualdades contabilísticas para “testar’ os dados. Se parecer que os dados violam as igualdades, então os dados foram obtidos ou interpretados incorretamente.

O aspeto relevante quanto às igualdades contabilísticas – e isto é tão óbvio para os que raciocinam com lógica que normalmente não percebem como a maioria das pessoas, mesmo as que são extremamente inteligentes ou conhecedoras, não compreendem a sua importância – é que elas não provam nada nem criam qualquer conhecimento ou ideia. Em vez disso elas estruturam a realidade limitando o número de hipóteses lógicas possíveis. Afirmações que violem as igualdades são contraditórias em si mesmas e podem ser rejeitadas com segurança.

Por outras palavras, as igualdades contabilísticas são úteis do mesmo modo que a lógica e a aritmética são úteis. As igualdades relevantes tornam mais fácil reconhecer e identificar pressupostos que fazem parte, explicita ou implicitamente, de qualquer modelo, e esta qualidade é muito mais útil do que desde logo possa parecer. Para além de um falso rigor, a minha maior crítica ao modo como os economistas utilizam modelos matemáticos complexos é que, com demasiada frequência, não identificam os pressupostos implícitos nos modelos que apresentam, talvez porque estejam confundidos pela matemática, e seriam obrigados a fazê-lo se não ignorassem tão rapidamente as igualdades contabilísticas com o fundamento de que estas igualdades nada nos dizem sobre o estado da economia.

É certo, as igualdades nada nos dizem. Mas a aritmética também nada nos diz sobre como construir uma ponte. Contudo, diferentemente dos economistas, os engenheiros não têm outra escolha senão seguirem à risca as igualdades aritméticas. Enquanto os economistas toleram modelos que não são limitados por igualdades contabilísticas em virtude de, por alguma razão, os economistas não parecerem condicionados pela necessidade de que os seus modelos se conformem com a realidade, qualquer engenheiro cujo modelo de uma ponte tivesse como requisitos que 2+3 fosse igual a 7 teria bastante dificuldade em construir pontes, mais dificuldade em encontrar clientes, e ainda mais dificuldade em encontrar um posto de trabalho de ensino em qualquer universidade. Lembrar sempre que devemos respeitar as igualdades contabilísticas não conduz a afirmações verdadeiras ou a ideias brilhantes, mas torna fácil rejeitar uma classe numerosa de afirmações falsas ou confusas. Tal como a lógica não cria ciência, mas evita que seja feita má ciência, as igualdades não criam modelos, mas protegem-nos de modelos inúteis.

Keynes, que para além de ser uma das pessoas mais inteligentes do século 20, era também tão ferozmente lógico (e estas duas qualidades não coincidem necessariamente) que era incapaz quase certamente de cometer um erro lógico ou esquecer igualdades contabilísticas. Nem toda a gente apreciou a sua lógica. Por exemplo, o seu igualmente brilhante contemporâneo (mas talvez menos absolutamente lógico), Ralph Hawtrey, era “fortemente crítico da tendência de Keynes para argumentar a partir de definições mais do que a partir de relações causais”, segundo o economista David Glasner da FTC (Federal Trade Commission), cujo precioso blog, Uneasy Money, é dedicado a reavivar o interesse no trabalho de Ralph Hawtrey. Num recente escrito Glasner cita Hawtrey:

[Um] passo essencial na série de raciocínios de [Keynes] é a proposição de que investimento e poupança são necessariamente iguais. Mr. Keynes na verdade nunca define essa proposição; ele foge à necessidade de o fazer ao definir investimento e poupança como diferentes nomes de uma mesma coisa. Também define rendimento como sendo a mesma coisa que produção e, por conseguinte, se o investimento é o excedente da produção sobre o consumo, e a poupança é o excedente do rendimento sobre o consumo, então os dois – investimento e poupança – são idênticos. A igualdade assim definida nada prova. A ideia de que a tendência para o investimento e a poupança serem diferentes tem de ser contrariada através de uma expansão ou uma contração do total do rendimento é um absurdo; não é possível uma tal tendência pressionar o sistema económico, constituindo tão somente uma pressão sobre a terminologia do Sr. Keynes.

Esta é uma típica crítica de certo tipo de pensamento lógico em economia e, claro, passa ao lado da questão porque Keynes não argumenta a partir da definição. É certamente verdade que “a igualdade assim definida nada pode provar”, se com isso nos queremos referir à formulação ou sustentação de uma hipótese, mas Keynes não utiliza igualdades para sustentar qualquer formulação. Ele utiliza-as por pelo menos dois motivos. Primeiro: em virtude de as igualdades contabilísticas não poderem ser violadas, qualquer modelo ou hipótese cujos corolários lógicos ou conclusões violem implicitamente uma igualdade contabilística estarão automaticamente errados, e o modelo pode com segurança ser ignorado. Segundo, e muito mais útil: mesmo quando as igualdades contabilísticas não tenham sido explicitamente violadas, se identificarmos as igualdades relevantes poderemos tornar explícitos os, por vezes, muito confusos pressupostos que estão implícitos no modelo utilizado por um analista, e centrar o debate, devidamente, sobre esses pressupostos.

 

A não existência de excedentes na conta de capital e na conta corrente da balança de pagamentos

Um caso exemplar é The Economic Consequences of the Peace, em que o cerne da argumentação assenta numa destas igualdades contabilísticas, que são ao mesmo tempo óbvias e facilmente ignoradas. Quando Keynes escreveu o livro, vários membros da Entente [3] – dominada pela Inglaterra, França e os Estados Unidos – estavam decididos a forçar a Alemanha a pagar indemnizações que eram extraordinariamente elevadas em relação à capacidade produtiva da sua economia. Também exigiam, especialmente a França, requisitos que os protegeriam da destreza exportadora da Alemanha (incluindo a expropriação de minas de carvão, comboios e ferrovias e equipamentos de capital) enquanto eles reconstruíam a sua capacidade de fabricação e infraestruturas que se encontravam destruídas.

A argumentação de Keynes contestando estas exigências políticas assentou numa muito simples igualdade contabilística, a saber, que a balança de pagamentos de qualquer país tem de estar equilibrada, ou seja, tem sempre que somar zero. As diversas exigências feitas pela França, Bélgica, Inglaterra e outros países que tinham sido devastados pela guerra eram mutuamente contraditórias quando expressas em termos de balança de pagamentos, e se isto não era óbvio para os antigos beligerantes, deveria sê-lo assim que fossem relembrados da igualdade que obriga a que os fluxos de saída têm de ter perfeita correspondência com os fluxos de entrada.

Se a Alemanha tivesse de efetuar substanciais pagamentos indemnizatórios, explicava Keynes, a conta de capital da balança de pagamentos da Alemanha tenderia para um massivo défice. A igualdade contabilística tornava claro que existiam apenas três maneiras possíveis que, em conjunto, poderiam resolver o desequilíbrio da conta de capital. Em primeiro lugar: a Alemanha poderia tirar partido das suas reservas de ouro e assim liquidar os seus ativos no estrangeiro, e/ou vender ativos internos a estrangeiros, incluindo arte, imobiliário e fábricas. O problema estava em que a Alemanha simplesmente não tinha sequer ouro suficiente ou ativos transferíveis após ter pago as indemnizações de guerra, e era difícil imaginar qualquer modo sustentável de liquidar o imobiliário. Esta opção era sempre uma solução inviável.

Em segundo lugar: a Alemanha poderia incorrer em excedentes massivos da conta corrente da balança de pagamentos para dar resposta aos pagamentos de reparação de guerra. O problema óbvio neste caso, claro, era que isso era inaceitável para os beligerantes, principalmente a França, porque significaria que os produtos alemães desalojariam os seus próprios produtos, quer internamente quer entre os seus clientes de exportação. Por fim: a Alemanha poderia obter empréstimos todos os anos num montante igual aos seus défices nas balanças corrente e de capital. Durante alguns anos, no apogeu da bolha dos anos de 1920, a Alemanha teve a capacidade para fazer precisamente isto, obtendo empréstimos nos mercados dos EUA equivalentes a mais de metade dos seus pagamentos indemnizatórios, mas muitos destes empréstimos ocorreram em virtude da grande hiperinflação do início dos anos de 1920 ter eliminado o peso da dívida do país. Mas à medida que a dívida alemã crescia de novo após a hiperinflação, o mesmo acontecia com a relutância em continuar a financiar os pagamentos indemnizatórios. De qualquer modo deveria ter sido óbvio que os bancos americanos nunca aceitariam financiar o total da conta das indemnizações de guerra.

Por outras palavras, aquilo que a Entente queria exigia uma resolução irrealista da necessidade de equilibrar os fluxos de entrada e os fluxos de saída. Keynes recorria às igualdades contabilísticas, não para construir um modelo de indemnizações de guerra, mas antes para mostrar que o modelo implícito nas negociações era contraditório. A igualdade contabilística deveria ter tornado claro que, em virtude dos pressupostos quanto ao que a Alemanha poderia ou não fazer, a economia mundial dos anos de 1920 estava a ser construída em torno de um conjunto de desequilíbrios cuja resolução suave requeria um conjunto de circunstâncias que eram tanto logicamente inconsistentes como insustentáveis. Por isso, esses desequilíbrios resolver-se-iam necessariamente de forma disruptiva, forma esta que requeria, por imperativo de aritmética, um substancial número de incumprimentos soberanos. Evidentemente, foi isso que aconteceu.

O mesmo tipo de exercício 85 anos mais tarde, logo após a crise do euro, mostrou que a Europa estava limitada a três opções devido às mesmas igualdades contabilísticas.

Primeira: a Alemanha podia reativar a procura interna o suficiente para exceder o consequente aumento na sua produção interna de bens e serviços em pelo menos 4-5% do PIB, e eventualmente mais (ou seja, teria de incorrer num défice da sua conta corrente da balança de pagamentos).

Segunda: a Europa periférica podia suportar um desemprego terrivelmente elevado durante pelo menos uma década, ou provavelmente mais.

Terceira: a Europa periférica podia abandonar o euro e reestruturar a sua dívida com um substancial perdão de dívida – ou, o que é quase o mesmo, forçar a Alemanha a deixar o euro, o que exigiria um perdão de dívida muito menor – provocando perdas no sistema bancário alemão ao mesmo tempo que provocaria uma queda repentina do setor de fabrico da Alemanha. (Uma quarta opção: a Europa poder incorrer em elevados excedentes com o resto do mundo, talvez duas vezes ou mais que o atual excedente, era demasiado implausível para poder ser considerada, e embora a Europa esteja certamente a incorrer irresponsavelmente em elevados excedentes, não são suficientemente elevados para permitirem que a Europa cresça.)

Até ao momento a Europa escolheu a segunda opção, com uma elevada probabilidade, na minha opinião, de que antes do finalizar da década ser forçada a escolher a terceira.

É por isso que devemos continuar a ter presente, firmemente, as igualdades contabilísticas. Estas igualdades não dizem o que devemos fazer, mas mantê-las presentes evita que façamos propostas, ou acreditemos em argumentos, que são claramente inconsistentes ou simplesmente idiotas. Considerando outro exemplo, uma das poucas recentes alegrias no nosso muito triste mundo foi a quase adolescente excitação com que David Cameron se mostrou o melhor amigo de sempre de Pequim [4]. Contudo, nem tudo é somente amizade incondicional, e aparentemente ele tem a esperança de conseguir grandes e significativos investimentos internos a anunciar na próxima semana. Soa bem, mas um firme domínio das igualdades contabilísticas identificaria que género de “grandes negócios” irão provavelmente estimular o PIB e quais os que simplesmente mudam o local onde se gera o PIB.

Mais importante ainda, mostraria que para um país rico e desenvolvido como a Inglaterra, o investimento estrangeiro quase sempre afeta o crescimento de forma adversa (salvo se traz com ele progressos tecnológicos e de gestão) e nunca tão obviamente como quando as taxas de juro lutam contra o limite de zero, e todos os países tentam com a maior urgência exportar os seus excedentes de poupança. Tal como me perguntou indignado um dos meus alunos da Universidade de Pequim após a aula do passado Sábado quando debatemos a viagem do presidente [referência à viagem a Londres do presidente Xi-Jinping em Outubro de 2015]: “Então todos estão de acordo em que é bom para a Inglaterra obter muito mais investimento estrangeiro, e todos também estão de acordo em como é mau para a Inglaterra ter um défice comercial maior. Mas não sabem que ambos são a mesma coisa?” Nem toda a gente sabe.

Mas voltando à referência que fiz ao debate na secção de comentários com que comecei este texto, independentemente de se Vinezi está a interpretar corretamente ou não o que Steve Keen diz sobre a igualdade de poupanças e investimento, implicará a sua afirmação – de que um aumento da dívida provoca um correspondente aumento do crescimento do PIB (e as condições sob as quais isto será válido correspondem de perto, creio, às atuais condições) – que o investimento poderá exceder as poupanças? Ou como Vinezi o apresenta:

Steve Keen, ErikWim, Suvy & Willy2 afirmam que o erro que Michael comete é que está a utilizar um “modelo de empréstimos” no qual poupanças e investimento são “simplesmente equiparados entre si”. Steve Keen, ErikWim, Suvy & Willy2 estão a chamar a atenção para o novo “modelo de dinheiro endógeno” do moderno setor bancário no qual os investimentos se podem realizar mesmo sem que se tenham as poupanças a priori. Sim? Poderão os “Steve Keenistas” confirmar aqui, por favor, que é deste modo que gostariam de corrigir a igualdade “errada” de Michael? Michael, se ler este comentário, poderá, por favor, responder a este ataque ao seu principal pressuposto de investigação?

Antes de responder, devo fazer duas observações complementares. Primeiro: a igualdade poupanças-investimento não é o meu “principal pressuposto de investigação” porque não é pressuposto de modo nenhum, e não pode ser utilizado validamente em investigação. Segundo: o modelo de empréstimos (loanable funds) [5] permite, realmente, que o crédito seja criado “a partir do nada” (seria talvez caso para dizer que a tradição neoclássica não o permite [assim entender], embora tenha que admitir que nem sempre consigo manter muito acentuadamente a distinção entre as diferentes tradições), e embora exista muita coisa que considero profundamente esclarecedor em Knut Wicksell – e assumo que o seu  “processo cumulativo” faz parte da tradição intelectual na qual se baseiam os “loanable funds” – e no seu rival Irving Fisher, não vejo que o trabalho de ambos possa ser considerado como um apoio ou uma oposição à utilização que faço da igualdade poupanças-investimento para se compreenderem os desequilíbrios mundiais.

Poderá parecer que Wicksell nega a igualdade poupanças-investimento quando diz que os dois termos são iguais somente quando a taxa de juro do dinheiro é igual à taxa de juro natural. Podemos ver isso num trabalho de 1986 do economista Thomas Humphrey da Reserva Federal de Richmond (cujos livros, infelizmente, estão esgotados):

A própria análise de tipo processo cumulativo atribui as alterações monetárias e de preços a discrepâncias entre dois tipos de taxas de juro. Uma, a taxa de mercado ou do dinheiro, é a taxa que os bancos cobram nos seus empréstimos. A outra é a taxa natural ou de equilíbrio que equipara a poupança real com o investimento em pleno emprego e que também corresponde à produtividade marginal do capital. Quando a taxa de juro dos empréstimos cai abaixo da taxa natural, os investidores procuram mais fundos junto do sistema bancário do que aqueles [fundos] que nele são depositados pelos aforradores. Assumindo que os bancos acomodam estes pedidos extra de empréstimos emitindo mais notas ou criando maior procura de depósitos, então ocorre uma expansão monetária. Esta expansão, se se subscrever a tese de que existe excesso de procura de bens gerado pela diferença entre investimento e poupança, conduz a um persistente e cumulativo aumento dos preços enquanto persistir o diferencial de taxas de juro.

Isto poderá parecer, na verdade, que viola a minha afirmação de que qualquer modelo que exija, ou mesmo permita, que o investimento global exceda as poupanças é logicamente impossível. Mas isto é assim apenas porque a diferença está naquilo que os economistas denominam de quantidades ex ante. Isto significa que, qualquer que seja a taxa de juro do dinheiro (que não a taxa de juro natural), a poupança [ex-ante] pretendida poderá diferir do investimento [ex-ante] pretendido, mas um ou outro (ou ambos) têm de se equilibrar de modo que no final se igualizam, sendo o resultado uma quantidade de investimento abaixo do óptimo. Taxas de juro excessivamente baixas na China (até 2012) implicaram, por exemplo, que o investimento [ex-ante] pretendido fosse demasiado elevado, e muito mais elevado que a poupança pretendida, mas num sistema financeiro reprimido, como mostrei muitas vezes, taxas de juro baixas podem, na verdade, pressionar a subida das poupanças pelo constrangimento da quota parte do rendimento dos agregados familiares no PIB, que foi precisamente o que aconteceu não apenas na China antes de 2012 mas também no Japão nos anos de 1980.

Penso que aquilo que Keen poderá efetivamente ter dito é que se o investimento no período seguinte for maior que as poupanças no atual período – se for estimulado, segundo diz este raciocínio, pela capacidade do sistema bancário em financiar investimento criando dívida “a partir do nada” – isso não viola a igualdade, e não só é possível, como é mesmo provável. (se por acaso Steve Keen ler isto, talvez possa responder.)

 

(continua)

Texto disponível em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/61679

Este texto (2ª parte) foi publicado em A Viagem dos Argonautas em 10 de outubro de 2016, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2016/10/10/homenagem-a-joao-cravinho-pelos-seus-oitenta-anos-de-uma-crise-a-outra-da-crise-dos-anos-de-1930-na-alemanha-a-crise-dos-anos-da-troika-a-equivalencia-nos-discursos-politicos-a-e-14/

Notas

[3] Referência aos aliados da Primeira Guerra Mundial.

[4] BFFing – Beijing’s best friend forever.

[5] Loanable funds inclui todas as formas de crédito (vg. empréstimos, títulos de dívida, depósitos de poupanças).

 

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