A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 19. Salários Altos versus Poupanças Elevadas num Mundo Globalizado. Por Michael Pettis

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

19. Salários Altos versus Poupanças Elevadas num Mundo Globalizado

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 3 de abril de 2018

 

As democracias terão que escolher cada vez mais entre aumentar salários e redistribuir rendimentos ou manter o livre comércio e os fluxos de capital. Como é provável que escolham o primeiro, o mundo pode enfrentar uma reversão de longo prazo da globalização.

 

O crescimento impulsionado pelo investimento pode ocorrer em geral na forma de um de dois modelos, cada um com uma maneira diferente de tratar os salários e o rendimento das famílias. Um modelo, que eu chamarei de modelo de altos salários, incorpora e incentiva altos salários como o motor por detrás do crescimento e dos ganhos de produtividade. Vou chamar ao outro modelo, o modelo de alta poupança. Nesse modelo, o crescimento parece ser impulsionado principalmente pelo crescimento da poupança, que fornece o capital barato que impulsiona o investimento, o que, por sua vez, aumenta os ganhos de produtividade.

A versão clássica do modelo de altos salários é historicamente provavelmente o sistema americano que evoluiu durante o início do século XIX, mais tarde descrito formalmente pelo economista alemão Friedrich List, que insistia especialmente que “o poder de produzir riqueza é infinitamente mais importante do que a riqueza em si mesma“. Num artigo de 1997, o economista israelita David Levi-Faur escreve:

Segundo List, a distinção real entre economias atrasadas e economias bem desenvolvidas é baseada na qualidade e na quantidade da capacidade produtiva. As capacidades produtivas – capital mental, capital natural e capital material – podem ser encontradas em grandes quantidades nas economias desenvolvidas, estando disponíveis num grau muito menor nas economias atrasadas… Assim, o desenvolvimento é encarado como um processo de aumento do capital mental.

No sistema americano, os altos salários recompensam o desenvolvimento do capital humano, ou mental, enquanto impulsionam o crescimento da procura do consumidor, o que impulsiona o crescimento do investimento do setor privado. No modelo de elevada poupança, por outro lado, em vez de impulsionar o crescimento, os altos salários são consequência do crescimento. A versão mais conhecida deste modelo é o chamado modelo japonês, também conhecido como modelo de desenvolvimento do leste asiático. Este modelo incentiva a poupança através da restrição salarial e outros mecanismos que retardam o crescimento do rendimento das famílias em relação ao crescimento geral. O modelo de elevada poupança vê os salários mais altos como um objetivo final, mas, mais que estimular o crescimento, os salários mais altos são uma consequência do crescimento.

Por outras palavras, ambos os modelos são projetados para dinamizar o crescimento, os salários e o investimento, mas fazem-no de maneiras diferentes e criam diferentes tipos de desequilíbrios internos. Todo o crescimento rápido é desequilibrado, isso é claro, e todos os desequilíbrios devem ser revertidos; Mas embora algumas versões do modelo de elevada poupança pareçam capazes de gerar taxas de crescimento mais musculadas, mais altas no curto prazo, isso pode levar a que os desequilíbrios sejam mais profundos e mais difíceis de reverter e o subsequente processo de ajustamento seja mais difícil.

 

O modelo de Gerschenkron ou de elevada poupança

O modelo de desenvolvimento chinês é amplamente baseado na versão japonesa do modelo de elevada poupança, e os analistas na China e no exterior desde há muito tempo que observaram semelhanças entre o crescimento chinês nas últimas duas décadas e o crescimento japonês nas décadas de 1970 e 1980. Este modelo descreve pelo menos parcialmente o recente desenvolvimento do Japão e da China, mas também da Coreia do Sul, Taiwan e de uma ou duas outras economias do Leste Asiático, juntamente com Hong Kong e Singapura, embora – sendo este último um entreposto comercial – não esteja para mim claro quão relevantes elas poderão ser.

Wikipédia, de uma forma correta, descreve algumas das características deste modelo do Leste Asiático:

Os principais aspetos do modelo do Leste asiático incluem o controlo estatal sobre a finança, o apoio direto a empresas estatais em “setores estratégicos” da economia ou a criação de núcleos empresariais ditos duros ou “campeões nacionais“ de propriedade privada, a dependência elevada do crescimento relativamente ao mercado de exportações, e elevadas taxas de poupança…

Esse sistema económico difere de uma economia centralmente planeada, onde o governo nacional mobilizaria os seus próprios recursos para criar as indústrias necessárias que acabariam por serem de propriedade estatal e a operarem com esse estatuto. O modelo do capitalismo do Leste Asiático diz respeito a elevadas taxas de poupança e de investimentos, a elevados padrões educacionais, a elevada assiduidade e a uma política fortemente orientada para a exportação.

Em vários de meus anteriores textos, referi-me a este modelo de elevada poupança, de modelo de crescimento impulsionado pelo investimento como o modelo de Gerschenkron porque as suas duas principais características derivam da descrição feita por Alexander Gerschenkron dos principais desafios enfrentados pelo crescimento nos países em desenvolvimento. Num texto publicado em junho de 2014 intitulado “As Quatro Etapas do Crescimento Chinês”, expus brevemente as principais características do modelo:

Tal como os muitos exemplos anteriores de milagres de crescimento centrados sobre o investimento, a China iniciou um programa para resolver os principais constrangimentos identificados por Alexander Gerschenkron na década de 1950 e 1960 que restringem as economias atrasadas: a) a insuficiência da poupança para financiar as necessidades de investimento interno que teve de ser resolvido por políticas que restringiram o crescimento do consumo, restringindo o crescimento do rendimento das famílias, e b) a incapacidade generalizada do setor privado para se envolver em investimento produtivo, talvez por causa de incertezas legais e da sua incapacidade para capturar muitas das externalidades associadas a estes investimentos, o que poderia ser resolvido se o Estado identificar o investimento necessário e controlar e alocar as poupanças geradas pela sua resolução do problema da restrição de poupanças.

O modelo de Gerschenkron, ou de elevada poupança, tem uma pré-história bastante longa. As suas raízes remontam muito longe, pelo menos tão longe quanto a combinação de proteção das indústrias nascentes, das melhorias internas e de um sistema de financiamento nacional que surgiram através das políticas desenhadas por Alexander Hamilton e que posteriormente se transformou no chamado sistema americano da década de 1820 e 1830. Eu não vou aprofundar demasiado esta parte da história, mas para aqueles que estejam interessados, em fevereiro de 2013, publiquei um longo ensaio chamado “A China e a História dos modelos de crescimento dos Estados Unidos”, com as referências necessárias para o trabalho de Michael Hudson; neste ensaio, traço as origens do modelo de desenvolvimento chinês para o sistema americano.

 

Elevada poupança versus altos salários

Gostaria de argumentar que a principal diferença entre os dois modelos de crescimento pelo investimento é o seu tratamento no que diz respeito aos salários e às poupanças. Gerschenkron defendeu que o investimento em países em desenvolvimento era tipicamente condicionado pela baixa poupança interna. Isso fazia com que os países em desenvolvimento geralmente dependessem demasiado da importação de poupanças estrangeiras voláteis e sujeitas a elevados custos de capital. É por isso que Gerschenkron argumentou em favor de políticas que forçassem a poupança interna a crescer como uma forma de acelerar o processo de desenvolvimento.

Acontece que a maneira de forçar a poupança a aumentar é reduzir a quota parte do rendimento das famílias no PIB. Isso explica a elevada poupança acumulada não apenas na China e no Japão, mas também na Alemanha e em outras economias com altas taxas de poupança e grandes excedentes na balança corrente. Uma vez que o consumo dos agregados familiares é em grande parte uma função dos rendimentos familiares, o aumento forçado da poupança força à descida a participação global do consumo no PIB da economia. É claro que o inverso de uma parcela baixa do consumo no PIB é uma alta parcela de poupança, de modo que as políticas que forçam à descida da participação relativa do rendimento das famílias no PIB automaticamente forçam a taxa de poupança de um país a aumentar.

Isso não aconteceu nos Estados Unidos. O Sistema Americano foi desenvolvido em oposição às teorias económicas então dominantes de Adam Smith e David Ricardo, em parte porque a teoria económica clássica britânica parecia implicar que as reduções nos salários eram positivas para o crescimento económico porque tornavam a produção mais competitiva nos mercados internacionais.

Um dos principais focos do Sistema Americano era justamente explicar quais as políticas que os Estados Unidos, que desfrutavam de salários muito mais altos do que os da Europa, precisavam de pôr em prática para gerar um rápido crescimento [1]. No modelo americano os altos salários acabaram por ser uma fonte de força económica, não uma fraqueza. De facto, sustentar altos salários tornou-se um dos aspetos-chave do sistema americano; uma consequência dessa abordagem foi aumentar a produtividade do investimento através da reforma institucional e de incentivos empresariais bem alinhados, em vez de, principalmente, despejar dinheiro no investimento de capital.

Isso não quer dizer que Washington e os governos locais no século XIX não tenham desempenhado um papel ativo na construção e no financiamento do investimento americano: eles fizeram-no. E os governos, especialmente os governos locais, foram uma importante razão para níveis muito altos de investimento americano. Mas o seu papel era principalmente o de financiarem infraestruturas que apoiassem a atividade empresarial do setor privado. No modelo de elevada poupança, pelo contrário, parece que o investimento em infraestruturas é que é o motor do crescimento.

 

Como forçar a que as poupanças aumentem

Quando se tratava de salários, no entanto, o modelo de elevada poupança, incluindo a versão japonesa, partilhou a sua visão de salários não com o sistema americano, mas sim com a teoria económica clássica britânica. Ao invés de tomar medidas para forçar os salários a subir e mantê-los elevados – e assim impulsionar o crescimento da produtividade e criar um grande mercado interno de consumo para os produtores nacionais – o modelo de elevada poupança procurou reprimir o crescimento do rendimento das famílias em relação ao valor total da produção como forma de subsidiar a competitividade internacional e de forçar a subida das poupanças internas. Esta é talvez a principal razão pela qual os Estados Unidos, ao contrário de muitos outros países que implementaram estratégias de desenvolvimento semelhantes no século XX, tenderam a acumular grandes défices na balança corrente durante grande parte do século XIX.

Na minha opinião, este enfoque diferente sobre se os salários elevados devem ser incentivados ou desincentivados – embora discutido muito pouco na literatura teórica, tanto quanto eu sei- representa a diferença mais importante entre o sistema americano e os seus muitos descendentes orientados para o investimento dos séculos XX e XXI. Diria que uma consequência é que o crescimento da procura tende a ser mais sustentável no primeiro modelo, porque se baseia num crescimento mais equilibrado tanto no consumo como no investimento. Uma outra consequência é que o inverso de uma baixa parcela do total do rendimento das famílias no PIB nos países que seguem o último modelo é a existência de um grupo muito poderoso de famílias com uma quota de rendimentos anormalmente elevada e uma relutância em permitir qualquer reforma que reequilibre os rendimentos das famílias.

O ponto é que este modelo de desenvolvimento orientado pelo investimento assente em elevada taxa de poupança – que, como eu disse anteriormente, incide principalmente sobre forçar a subida da poupança interna e canalizar esses recursos para o investimento a longo prazo em infraestruturas e em desenvolver a capacidade de produção – é realmente um conceito relativamente antigo que a versão japonesa desenvolveu em maneiras específicas que foram copiadas mais tarde pela China e por diversos outros países do Leste asiático. Com o risco de estar a generalizar demasiado, parece-me que as principais diferenças entre as várias formas deste modelo de crescimento de elevada poupança envolvem os tipos de políticas que explícita ou implicitamente forçam o aumento da taxa de poupança.

Uma forma deste modelo foi praticada desde o princípio da década de 1930 pela União Soviética, que mais ou menos o inventou, embora também se vejam semelhanças nas políticas económicas alemãs durante o mesmo período. Diria que o mecanismo que forçou ao aumento das taxas de poupança na União Soviética e de outras economias do Pacto de Varsóvia parece ter sido a escassez de bens de consumo: os níveis de rendimento entre os trabalhadores não eram geralmente demasiado maus, mas estes trabalhadores só com grande dificuldade podiam converter os seus rendimentos em bens de consumo, salvo se estivessem na fila certa, na loja certa e atempadamente. O que as famílias não podiam consumir, é claro, amontoava-se sob a forma de poupança.

Havia outras formas de forçar ao aumento das poupanças. Em alguns países, foram níveis significativos de desigualdade de rendimento e de concentração de riqueza que limitava o consumo interno e forçava a taxa de poupança a subir. Um exemplo deste processo, mesmo que de forma um pouco confusa, poderá ter sido os Estados Unidos na década de 1920, como Marriner Eccles (o brilhante Presidente da Reserva Federal sob o então Presidente Franklin D. Roosevelt) explicou vezes sem fim a uma elite que era incapaz de o compreender: se todas as fichas na mesa de poker são detidas pelos mesmos poucos jogadores, a única maneira para que os restantes possam continuar a jogar com eles é pedir emprestadas mais fichas, ainda que no final eles não sejam capazes de pagar os empréstimos.

Os países com concentrações significativas de riqueza tendem a ter baixas taxas de consumo, como eu expliquei num texto publicado em março de 2014. Enquanto isso impulsiona o crescimento em países com níveis muito elevados de investimento desejado que são condicionados pela dificuldade de aceder à à poupança, os países cujas taxas de investimento não estão tão condicionadas só podem crescer se eles exportarem as poupanças em excesso e tiverem excedentes na balança corrente ou se permitirem que a carga da dívida interna dispare (ou seja, que a dívida cresça mais rapidamente do que a capacidade de serviço de dívida).

Outros países empregaram altas e progressivas taxas de imposto sobre rendimentos para impulsionar as poupanças internas, talvez o caso mais óbvio seja o Brasil nos anos 1950 e 1960. As taxas de imposto elevadas, progressivas, naturalmente, podem reduzir o rendimento familiar disponível como quota parte do PIB total, forçando assim o consumo a descer e a poupança a aumentar.

Há ainda outros mecanismos utilizados para forçar a poupança global a subir envolvendo a manutenção dos salários dos trabalhadores baixos para aumentar a competitividade internacional o que, naturalmente, também limita o crescimento do consumo. As reformas Hartz na Alemanha são o exemplo recente mais óbvio, e penso que a Alemanha na década de 1930 é um outro exemplo disso. No primeiro caso, após as reformas laborais, o crescimento salarial caiu significativamente abaixo do crescimento do PIB, reduzindo o peso do rendimento das famílias no PIB em troca de uma explosão no peso dos lucros empresariais.

 

A versão japonesa

Os métodos acima mencionados são todos eles formas diferentes de impulsionar a poupança interna, limitando a parcela do rendimento total, ou PIB, que as famílias podem consumir. O que faz do modelo japonês um modelo diferenciado, como eu o vejo, é ainda outra maneira de impulsionar a poupança, desta vez por meio de certos impostos ocultos destinados a restringir a participação das famílias no PIB. A China e outros países do leste asiático usaram o mesmo conjunto de impostos ocultos.

A mais óbvia destas maneiras foi a repressão financeira e as taxas de câmbio acentuadamente subvalorizadas; o primeiro atua como um imposto implícito sobre a poupança que, no seu ponto mais alto durante a última década na China, atingiu 5% do PIB a ser transferido das famílias para os mutuários (principalmente empresas estatais, governos locais e grandes empresas). Essas transferências limitavam o rendimento das famílias e consequentemente limitavam o peso do consumo no PIB total e, assim, forçavam a taxa de poupança a subir.

Novamente, sob o risco de generalização excessiva, parece-me que a abordagem japonesa foi a maneira mais bem-sucedida de atingir esse objetivo de forma rápida e vigorosa, mas também a mais difícil de reverter. Talvez isso não seja coincidência. Tenho para mim, que o Japão nos anos 1990 e 2000 conseguiu que o peso do rendimento das famílias no PIB aumentasse somente de um baixo valor de cerca de 52% do PIB para cerca de 58% do PIB (um número ainda assim extremamente baixo) antes de o esforço de reequlíbrio ter descarrilado. Mesmo hoje, quase trinta anos depois de o Japão ter iniciado o seu difícil ajustamento e reequilíbrio, não só o Japão tem sido incapaz de resolver o ónus da dívida, como, de facto, os níveis de endividamento têm crescido constantemente durante todo o período de ajustamento.

Eu não penso que isso tenha sido um acidente. Embora aumentar a taxa de poupança nacional por meio de uma combinação de repressão financeira e moeda desvalorizada tenha resultado numa maneira muito poderosa de fazê-lo rapidamente, essa abordagem deixou países como o Japão e a China com tipos específicos de distorções nas suas contas nacionais que parecem especialmente difíceis de reverter. À medida que a participação das famílias no PIB diminuía, a parcela de outros setores económicos aumentou e estes últimos tornaram-se muito poderosos, tornando politicamente difícil reverter o processo uma vez que ele atingisse os seus próprios limites. O setor que sai reforçado com esta abordagem foi geralmente o setor empresarial, mas também poderia ser o governo, como na China, ou até mesmo investidores estrangeiros, como ocorria tipicamente em certas economias dependentes de recursos na era pós-colonial.

A China, por exemplo, já registou um dos rácios mais elevados de sempre de poupança relativamente ao PIB, simplesmente porque tem um dos menores rácios de sempre da despesa das famílias relativamente ao PIB. Isso significa que se Pequim quiser aumentar a participação do consumo das famílias no PIB – ou reduzir o peso da poupança (o que é a mesma coisa) -, isso não pode ser feito cortando no rendimento ou noutros impostos ou elevando os salários de maneira ordenada. Deverá transferir quantidades substanciais de rendimento e de riqueza daqueles poderosos grupos que beneficiaram desproporcionalmente de três décadas de rápido crescimento. Por razões óbvias, isso está a ser muito difícil de fazer.

Além disso, três décadas de repressão financeira e de uma moeda subvalorizada deixaram as entidades económicas chinesas altamente dependentes da dívida para alimentar o crescimento e dependentes também de um excedente na balança corrente para resolver os desequilíbrios da procura interna. Deveria ter sido óbvio há mais de uma década que o crescimento na China estava tão diretamente dependente da expansão do crédito e indiretamente dependente dos efeitos da posição financeira do país (estes são muito mais importantes do que a maioria dos analistas entende, e muito mal compreendido) que deveríamos ter reduzido completamente as promessas de Pequim de que seria relativamente fácil controlar a expansão do crédito.

 

Resumo

Quero sublinhar que todos estes pontos de vista aqui expressos são pensamentos preliminares sobre dois modelos de crescimento muito diferentes, com abordagens opostas relativamente aos salários, mas talvez haja aqui algumas conclusões que podemos extrair:

  • No modelo de crescimento dinamizado pelos altos salários, os altos salários são o motor do crescimento. No modelo de elevada poupança, o investimento em infraestruturas é o impulsionador do crescimento, com o investimento a ser subsidiado por transferências ocultas ou explícitas do setor das famílias que reduzem simultaneamente a participação do consumo das famílias no PIB do país e forçam a taxa de poupança a subir. Ambos os modelos de crescimento visam altos investimentos e altos salários, mas num caso os salários levam ao crescimento e no outro são a consequência do crescimento. O primeiro utiliza altos salários para criar o mercado que torna lucrativo o investimento do setor privado e incentiva a inovação. O último leva força a subida das poupanças e canaliza essas poupanças para os investimentos o que, pelo seu lado, conduz ao aumento dos salários.
  • Como o modelo de elevada poupança resulta numa procura interna fraca, especialmente quando as necessidades de investimento foram amplamente satisfeitas, os países que seguem o modelo de elevada poupança quase sempre exigem grandes excedentes comerciais para resolver a incapacidade da economia em absorver tudo o que produz.
  • Parece que o modelo de elevada poupança tem sido capaz de gerar períodos mais vigorosos de crescimento substancialmente maior no curto e médios prazos, mas o modelo de altos salários gera um crescimento mais sustentável no longo prazo. O período de rápido crescimento sob o modelo de elevada poupança tem sempre sido seguido de um ajustamento muito difícil, durante o qual grande parte do avanço relativo que foi alcançado durante o período de crescimento foi revertido. Isso pode ocorrer porque os desequilíbrios gerados por esse modelo de crescimento têm sido especialmente difíceis de reverter.
  • Numa economia mundial globalizada, o modelo de crescimento do investimento por via de altos salários pode descarrilar devido ao seu impacto na competitividade internacional. Quando os custos de transporte são muito baixos e há poucas barreiras comerciais, os altos salários fazem com que a procura se desloque para os produtores estrangeiros de salários mais baixos, prejudicando a competitividade; como resultado, ao invés de forçar os produtores locais a investir em inovações que aumentem a produtividade, os produtores estrangeiros de baixos salários simplesmente forçam-nos a cessarem a produção a favor do estrangeiro.

A experiência da Alemanha de reduzir os salários durante este século ilustra o problema mostrando como o processo funcionava ao contrário. Durante mais de uma década, a Alemanha sofreu de altos níveis de desemprego, uma vez que os seus produtores foram excluídos do mercado pelos concorrentes estrangeiros. Em 2003-2004, Berlim implementou uma série de reformas no mercado de trabalho – referidas como as reformas Hartz – cujo impacto líquido foi enfraquecer o poder de negociação dos trabalhadores e reduzir substancialmente o ritmo de crescimento salarial bem abaixo do ritmo de crescimento do PIB. Quando isso aconteceu, a balança comercial alemã passou de uma situação de défice comercial para uma situação de excedente, com um dos maiores excedentes comerciais da história, enquanto o seu nível de desemprego caiu drasticamente. Num mundo globalizado, a maneira de ganhar competitividade é então reduzir o valor real dos salários, seja pela redução dos salários nominais (como a Alemanha o fez) ou pela desvalorização da moeda (como fazem muitos países asiáticos).

  • O difícil ajustamento que o Japão e outras economias milagrosas dinamizadas pelo investimento sofreram pode estar implícito no modelo de elevada poupança. É quase certo, por exemplo, que a China, também, está a passar por um difícil ajustamento. Embora Pequim tenha prometido, há dez anos atrás que tomar a via do reajustamento da procura teria a prioridade máxima na formulação das suas políticas económicas, essa tarefa tem sido politicamente difícil de levar à prática.

O Japão parece ter alcançado o fim de um reequilíbrio bastante limitado que ocorreu nos anos 1990 e 2000, durante os quais o peso do consumo das famílias passou de 52% do PIB para 58%, enquanto a participação do país no PIB mundial caiu de 17% para 7%. A China iniciou o processo por volta de 2011, embora tenha prometido fazê-lo a partir de pelo menos 2007; no país, o consumo passou de 48% do PIB para 53% hoje, um valor ainda surpreendentemente baixo.

Infelizmente, até que o reequilíbrio esteja completo, ambos os países exigem grandes excedentes comerciais para resolver o problema da reduzida procura interna. No entanto, à medida que o mundo se torna cada vez mais protecionista, ambos os países podem ser forçados a um ajustamento muito mais rápido e, possivelmente, a uma dramática resolução dos seus encargos da dívida.

  • O processo de intervenção comercial sob a administração Trump provavelmente ir-se-á espalhar pela Europa e prolongar-se-á por muito tempo depois de que a administração Trump venha a ser substituída. Isso ocorre porque à medida que o problema da desigualdade de rendimento se torna uma questão política cada vez mais importante, especialmente nas democracias, as tentativas de reverter a desigualdade de rendimento serão minadas pelas exigências de uma economia mundial globalizada. As democracias enfrentarão duas opções: ou ignorar a desigualdade de rendimento e permitir que esta piore ou começar a impor restrições aos fluxos de comércio e de capital, de modo que as reformas destinadas a reverter a desigualdade de rendimento não levem apenas a um aumento do desemprego.

 

Texto disponível em https://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/75972

Nota

[1] Atualmente estou a ler o livro de Peter H. Lindert e Jeffery G. Williamson, Unequal Gains: American Growth and Inequality since 1700 (Princeton University Press, 2016). Nele, os autores argumentam de forma convincente que o rendimento nominal per capita nos Estados Unidos era mais alto do que na Inglaterra para cada nível de rendimento (exceto no topo) desde muito antes da Revolução Americana (embora por um par de décadas durante aquele período os dados americanos tenham caído abaixo dos dados ingleses). Isso ocorreu apesar do facto de as famílias americanas estarem entre as maiores da história (metade dos americanos tinha menos de dezasseis anos, em comparação com um terço de todos os ingleses). Isso sugere que a diferença no rendimento por trabalhador seria ainda maior. Além disso, o custo do cabaz relevante de bens de consumo nos Estados Unidos era provavelmente menor do que na Inglaterra para cada nível de rendimento (exceto, para o topo), tornando o valor do rendimento per capita nos Estados Unidos ainda mais alto em termos reais do que na Inglaterra.

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