A GALIZA COMO TAREFA – souvenirs – Ernesto V. Souza

 

Cumpre dizer, assim no início e sendo dia de Santos, para não entrar depois em equívocos lógicos: Ernest Renan – aquele conhecido historiador, polemista e escritor romântico francês, o intelectual capaz de ajustar contas com o cristianismo e de ajustar o conceito de nação dentro do esquema revolucionário/após-revolucionário de que emana a ideia de Estado moderno que nos legou a França – era bretão, e tão marcado pela Bretanha, como o mesmíssimo Chateaubriand.

Órfão de pai, talento precoce, interno nos seminários da Bretanha, depois, em Paris, aluno em Saint-Nicolas-du-Chardonnet, da Casa de Issy (1841-1843), e em Saint-Sulpice (1843-1845) onde aprende hebraico. No estudo da escolástica e da exegese da Bíblia, entra, com vinte anos, em crise de vocação sacerdotal. Estudioso do cristianismo, tornar-se há uma das mais importantes figuras intelectuais do orientalismo, da historiografia linguística e da filologia semítica da França; como jornalista e divulgador consagrou-se como um escritor de escândalo, com a sua celebérrima ‘Vida de Jesus’, traduzida de imediato em quase todas as línguas.

Com esta obra, Renan, era pioneiro na França a vulgarizar a tese de David Friedrich Strauss, que questionava a pretensa divindade de Cristo e segundo a qual na análise da vida de Jesus pouco havia de intervenção sobrenatural. Em 1863, seguindo este programa, inicia a sua História das origens do Cristianismo (1863-1883), à que se consagra durante quase vinte anos.

Expulsado do Collège de France,  a sua obra ganhará a repulsa do episcopado Francês,  dos média católicos de todo o mundo e receberá a excomunhão do Papa Pio IX. Porém, ou justo por isto tudo, será uma das mas importantes figuras intelectuais da França, da noção científica da história moderna e da francesidade, em construção após a era napoleônica, e no esquema autorizado pelo Congresso de Viena. cover

Intelectual conformante da história moderna, o seu ensaio Qu’est-ce qu’une nation? (O que é uma nação?, 1882), tornou-se uma peça capital na teorização dos nacionalismos (e não apenas) europeus, e uma referência incontornável nos estudos sobre o nacionalismo.

Pouco depois, nesse exemplo do que E. W. Said tão bem denomina estilo seródio, daria a lume  Souvenirs d’enfance et de jeunesse (Lembranças de Infância e de Juventude, 1883) um volume de memórias em que dá conta dos seus primeiros anos e a sua “crise religiosa”.

O volume dos Souvenirs, começa sob a alegoria de uma das lendas mais conhecidas da Bretanha, a do afundamento da vila de Ys, que asolagada como castigo, ainda deixa ouvir, como lembrança e advertência, os sinos das suas torres. Renan, sentindo chegar a velhice, gosta de imaginar aqueles ecos distantes d’une Atlantide disparue.

O que segue a continuação, nos prefácio e primeiros capítulos, é uma saudosa evocação do Tréguier da sua infância, de uma sociedade pre-revolucionária, que conserva todas as estruturas e costumes do mundo céltico. Entre a frouma da colorida prosa do bretão agita-se, a cada pouco, um fresco de análise perspicaz:

Ce n’est que peu de temps avant la révolution qu’une petite noblesse s’établit à côté de l’évêché ; elle venait en grande partie des campagnes voisines. La Bretagne a eu deux noblesses bien distinctes. L’une a dû son titre au roi de France, et a montré au plus haut degré les défauts et les qualités ordinaires de la noblesse française ; l’autre était d’origine celtique et vraiment bretonne. Cette dernière comprenait, dès l’époque de l’invasion, les chefs de paroisse, les premiers du peuple, de même race que lui, possédant par héritage le droit de marcher à sa tête et de le représenter. Rien de plus respectable que ce noble de campagne quand il restait paysan, étranger à l’intrigue et au souci de s’enrichir ; mais, quand il venait à la ville, il perdait presque toutes ses qualités, et ne contribuait plus que médiocrement à l’éducation intellectuelle et morale du pays. (p.5)

Nesse sentido, e considerando a tese (Pena Granha, Dumézil, Otero Pedrayo, Sjoesteddt … ) da permanência e adaptação no tempo das estruturas políticas, costumes e institucionais célticas, no cristianismo e além, bem poderíamos também dizer que o que é uma nação é talvez um elemento mais (que vinha mesmo a calhar) da fantasia e da narrativa céltica. E que, de qualquer jeito, e assim considerada, como referendo diário da visão de um esquecimento individual e expressão lírica de uma lembrança coletiva alagada, a Galiza não resulta tão estranha e complexa, apenas out of place.

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