Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 13. Porque é que a economia mundial aparece tão frágil

Devemos nós estar  preocupados nos com o estado da economia mundial? Sim: faz sempre sentido preocuparmo-nos. Isso não significa estarmos seguros de  que algo vai  correr muito mal num futuro próximo.

Porque é que a economia mundial aparece tão frágil

(Martin Wolf, 17 de Janeiro de 2019)

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Devemos nós estar  preocupados nos com o estado da economia mundial? Sim: faz sempre sentido preocuparmo-nos. Isso não significa estarmos seguros de  que algo vai  correr muito mal num futuro próximo.

Pelo contrário, a economia mundial parece estar a caminhar para uma ligeira desaceleração cíclica. De longe muito mais importante é o contexto estrutural e cíclico adverso a mais longo prazo, porque  isto torna qualquer oscilação a curto prazo muito mais perigosa.

De acordo com a Goldman Sachs, a dinâmica do crescimento económico mundial abrandou acentuadamente em 2018. A desaceleração mais significativa a nível mundial verificou-se na economia chinesa – o principal motor do crescimento mundial desde a crise financeira de 2007-2008. Mas a Alemanha e o Japão também registaram contrações económicas no terceiro trimestre do ano passado. Os mercados bolsistas também estiveram em turbulência. Em parte, tudo isto vai refletir, presumivelmente, o agravamento da percepção das perspectivas. Estes mercados em queda deverão também enfraquecer o consumo e o investimento.

Tudo isto sugere que um abrandamento cíclico está a caminho. No entanto, os analistas institucionais  não estão propriamente preocupados. A OCDE declarou em novembro último que a “expansão global atingiu o seu ponto culminante” e estima que o crescimento do produto interno bruto mundial “diminua gradualmente de 3.7 por cento em 2018 para cerca de 3.5 por cento em 2019 e 2020, em linha com o crescimento subjacente do produto potencial global”. Esta seria uma aterragem ultra-suave. As previsões de consenso corroboram esta ideia: as previsões de consenso de dezembro para o crescimento em 2019 são pouco diferentes das de há um ano atrás. As perspectivas de crescimento para os EUA estão mesmo ligeiramente melhoradas. (Ver gráficos.)

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Um ligeiro abrandamento económico dificilmente será problemático. Pelo contrário, é de esperar que aconteça. Nas economias de elevado rendimento, que ainda geram três quintos da produção mundial (a preços de mercado), a retoma cíclica é mais antiga e a capacidade excedentária tem estado a diminuir de forma  acentuada. Onde a expansão está mais avançada e o excesso de capacidade desapareceu, a política monetária foi devidamente apertada, a um ritmo muito, muito apropriado,  ao ritmo de Donald Trump. Felizmente, a inflação é ainda moderada e as taxas de juro nominais e reais são baixas. Embora os mercados bolsistas  tenham efetivamente  corrigido a sua evolução, as ações dos EUA raramente têm sido tão valorizadas quanto hoje.

Nada aqui sugere que uma grave recessão global esteja a caminho. De facto, vale a pena lembrar que, embora as economias capitalistas sempre tenham sido cíclicas, as recessões severas, especialmente as globais, são raras. Pareceria sábio, em suma, que todos “se mantivessem calmos e seguissem em frente “.

No entanto, há um senão – um grande senão. Como Ray Dalio de Bridgewater argumenta numa  nota sobre o que está a acontecer,  o ciclo de curto prazo é o menor dos nossos desafios. Há também mudanças estruturais, que ele resume em termos de tendências de diferenças de  produtividade  e do ciclo da dívida de longo prazo.

Crucialmente, estes desenvolvimentos tornaram a economia mundial frágil.
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A “produtividade” deve ser vista como uma forma abreviada de resumir as mudanças no poder económico global, o aumento da desigualdade, o colapso do emprego na indústria transformadora,  a ascensão da economia digital e os ” excedentes de poupança” das últimas décadas. O ciclo da dívida de longo prazo, que se acelerou a partir da década de 1980, foi, entre outras coisas, uma forma de gerir as consequências sociais e económicas dessas mudanças estruturais.

Essas mudanças estruturais tiveram grandes efeitos políticos: uma onda de nacionalismo e populismo, Brexit, a eleição de Trump, uma guerra comercial entre as duas economias mais importantes do mundo e uma erosão da ordem económica global liberal. O ciclo de crédito de longo prazo levou ao desfecho da desastrosa crise financeira de 2007-08. Hoje, a China, cujo ciclo de dívida de longo prazo se acelerou após a crise, também está a atingir  os limites da acumulação de dívida.

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Estas condições a longo prazo limitam significativamente qualquer otimismo que se sinta num contexto de abrandamento cíclico a curto prazo.

Uma implicação poderosa é que a margem de manobra para a resposta a uma recessão seria limitada por padrões históricos, especialmente na política monetária. Se a Reserva Federal dos EUA tivesse de dar uma resposta clássica  a uma recessão significativa, as suas taxas de curto prazo poderiam ter de ser menos 2.5 por cento. O Banco Central Europeu e o Banco do Japão teriam de ir ainda mais longe. Se o pior vier a acontecer, a  Reserva Federal e o BCE podem ser forçados a seguir o BOJ em políticas ainda mais profundamente não convencionais. Enquanto o Banco Popular da China tem mais margem de manobra, reiniciar o boom do crédito chinês acarreta riscos a longo prazo.

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A transformação do ambiente global traz outros perigos, tanto negativos como positivos. O maior risco negativo é a impossibilidade de organizar uma resposta coordenada e eficaz a um grave abrandamento económico mundial. Um perigo obviamente positivo  advém da eventual impossibilidade  de gerir as dívidas acumuladas,   pública e privada. Outro perigo é que o colapso da ordem política global cria, por si só, graves perturbações económicas, talvez através de um colapso do comércio internacional, talvez como resultado de um  outro  qualquer  acontecimento geopolítico.

A questão com que nos devemos preocupar não é o estado do ciclo de curto prazo. É perfeitamente provável que venha a haver um abrandamento modesto e controlável, sem que daí resulte nada de muito danificado. A preocupação deve antes prender-se com o contexto em que tal abrandamento poderá ocorrer. É a instabilidade política e  das políticas, combinadas  com o esgotamento das opções seguras para a expansão do crédito, que tornariam  potencialmente tão difícil lidar com a gestão duma desaceleração a curto prazo, mesmo que limitada e natural.

Infelizmente, não existem atualmente mecanismos simples para reduzir estas fontes de fragilidade. Estas estão profundamente enraizadas e, tendo em conta os recentes desenvolvimentos políticos, é mais provável que se tornem piores do que melhores. Se querem preocupar-se, devem então preocupar-se com isso.

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Artigo original aqui

 O décimo quarto texto desta série será publicado, amanhã, 06/02/2019, 22h)


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