Venezuela,antesala para a guerra. Por Tica Font

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

Venezuela,antesala para a guerra

tica font Por Tica Font

Publicado por publico es es , em 5 de fevereiro de 2019

A situação na Venezuela complica-se dia a dia o suficiente para tornar a implosão política cada vez mais plausível e, finalmente, o conflito terminar em guerra civil.

A sociedade está polarizada, está dividida há anos, desde antes de Hugo Chávez, o que acarreta dificuldades para estabelecer mecanismos políticos de desanuviamento, elementos que favoreçam o estabelecimento de pontos de encontro e abram um caminho de concórdia para a convivência entre os diversos projetos políticos. Tantos anos com a sociedade polarizada não são facilmente revertidos e a situação pode agravar-se se as vias que se apresentem conduzirem a vencedores e perdedores.

É importante ter em mente elementos internos e externos que condicionam a situação para procurar saídas. Internamente existem diversos elementos que fazem pensar que é possível a irrupção da violência armada nas ruas. Por um lado com Chávez foram criadas umas milícias populares, que receberam formação, treino no uso de armas e estão armadas. Neste momento calcula-se que existem 1,5 milhões de pessoas armadas e Nicolás Maduro declarou que vai aumentar o número para 2 milhões. Por outro lado, o exército e a polícia continuam a ser leais ao governo de Maduro. Por outro lado, o atual regime pôs os altos mandos militares a administrar algumas grandes empresas nacionalizadas no tempo de Chávez, entre outras, a petroleira pública e, em defesa dos seus próprios interesses, estes mostram lealdade ao governo de Maduro.

A oposição venezuelana e países como os Estados Unidos estão a tentar dividir o exército. Se o exército estiver dividido ou se um número considerável de militares estiver inclinado a abandonar o regime e a apoiar a oposição e se se seguir uma revolta militar, Maduro pode incitar, como ameaçou, a saída das milícias para as ruas, e então a guerra civil estará servida.

Depois do fim da Guerra Fria, os vencedores dos mesmos promoveram mudanças de governos que resistiam às políticas de livre mercado e aos interesses das corporações transnacionais, Afeganistão, Iraque ou Líbia, três países onde as pressões externas para favorecer mudanças de governo terminaram em guerra e provocaram estados falidos onde hoje reina a desordem. Será que a Venezuela vai acabar assim? É possível uma mudança de governo/regime sem violência? Maduro cederá o poder sem lutar? Será que os militares o deixarão cair? Em troca de quê? As milícias tomarão as ruas se o exército vacilar? Ou pode acontecer como na Síria, que é ameaçada, onde se promove uma mudança de governo que não foi conseguida e da qual Asad saiu reforçado. A tudo isso devemos acrescentar os gestos beligerantes dos Estados Unidos, como a nota no caderno do extremista John Bolton de 29 de janeiro passado que dizia 5.000 soldados na Colômbia e as imagens do chefe do Comando Sul, o almirante Craig Faller visitando a zona fronteiriça em Cúcuta, Colômbia, onde realizou reuniões com membros das forças armadas colombianas. Dois dias antes, o comandante do Exército dos EUA do Sul, General Mark Stammer, esteve lá.

A Líbia foi sujeita a um embargo à exportação de petróleo que conduziu a uma crise económica muito dura para a população, mas Kadhafi resistiu e, se caiu, foi porque houve uma guerra civil e a comunidade internacional bombardeou o país ao lado da oposição. Maduro faz a comparação de que o seu país pode se tornar como um Vietname, mas as sanções e o embargo decretado podem fazer com que ele se pareça mais com o Iraque.

De outra perspectiva, a Venezuela pode ter sido escolhida por Trump como o novo laboratório para a sua política externa em relação à China e à Rússia. A indústria petrolífera da Venezuela é dirigida por militares e, nos últimos anos, devido à falta de investimentos, a capacidade de extração de petróleo caiu drasticamente. Os únicos investimentos que foram feitos foram com capitais russos e chineses, que concederam créditos ao governo em troca de activos petrolíferos. O próprio Guaidó e alguns dos seus colaboradores falam da necessidade de investimentos estrangeiros para relançar a indústria do petróleo, inclusive asseguraram à China e à Rússia que também eles se beneficiarão da mudança de governo, mas nenhum desses dois países confia que um novo governo pró-EUA reverta os contratos já assinados com Chávez. Pequim está preocupada com o dinheiro que emprestou e pode não o recuperar se houver uma mudança de governo.
Em termos geopolíticos, Maduro desenvolveu uma estratégia política de confronto e desafio aos EUA, baseada no facto de que vivemos num mundo multipolar e que os seus aliados eram Rússia e China. Mas a chegada de Donald Trump está a dar um relevante tombo geopolítico, está a promover a consolidação dos blocos regionais e a distribuição de áreas de influência. Por um lado, a partida das tropas dos EUA do Afeganistão e da Síria deixa o espaço de influência do Médio Oriente para a Rússia e as tensões comerciais com a China estão a reforçar a integração regional asiática. Os Estados Unidos, através do conflito venezuelano, advertem russos e chineses de que a América do Sul é seu território. Nesse sentido, a Venezuela é um peão na geoestratégia dos Estados Unidos frente à Rússia e à China.

Os governos europeus apressaram-se demasiado em renunciar aos canais de negociação e em colocar-se ao lado de Trump. A guerra civil é a pior solução para a população. Se acontecer, os nossos governos terão a sua quota-parte de responsabilidade.

Texto disponível em https://blogs.publico.es/cronicas-insumisas/2019/02/05/venezuela-antesala-hacia-la-guerra/

Tica Font: especialista em ecopacismo, é vice-presidente de Justícia i Pau, especialista em comércio de armas. Foi presidente da Feceració Catalana d’ONG per la Pau. Desde março de 2009 é diretora do Instituto Catalán Internacional por la Paz.

1 Comment

  1. Ao ianques estão a perder terreno em toda a parte. Do seu imperialismo – da sua estratégia do “Destino Manifesto” – disso, a Autora não fala. Conveniência ??? Na Venezuela vão ter mais uma surpresa. Uma outra Baía dos Porcos. CLV

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