É PRECISO QUESTIONAR por Luísa Lobão Moniz

 

A violência dos homens sobre as mulheres continua em estudo no sentido de se perceber porque é como a conhecemos: a mulher é maltratada até à morte porque é mulher.

Mas o que faz ser assim? Questões biológicas, culturais, sociais, religiosas…?

Quais são as representações sociais de mulher e de homem?

Quem as constrói? Como são construídas? Porque são construídas de uma forma e não de outra?

As representações sociais mostram-nos o mundo como o conhecemos e permitem que os indivíduos se sintam mais ou menos confortáveis com o lugar que ocupam na sociedade.

Os indivíduos organizam as suas vidas, individual e social, de acordo, ou não, com as orientações ditadas pelas representações sociais.

A oposição subjacente entre homem/mulher, sujeito/objecto, activo/passivo contribui para uma cada vez mais acentuada oposição entre géneros que acaba por fazer aceitar, socialmente, as relações desiguais entre homem e mulher. Esta oposição faz com que um tenha que estar no oposto do outro, ou seja, na nossa sociedade, um é o detentor da posição dominante, é superior em relação ao outro que terá de assumir como natural ser subjugado, ser inferior, ignorado enquanto identidade.

Ora, a violência contra a mulher tem como base o assumir esta desigualdade, é entendida como sendo estrutural, contribuindo para manter as normas sociais e culturais que estabelecem a organização social.

Desde muito cedo as crianças assimilam esta desigualdade opondo os atributos considerados masculinos aos femininos. O homem, o pai, mais tarde ele é quem tem o poder, a mulher, a mãe, mais tarde ela é que tem que ser invisível.

Para que esta oposição, estas representações sociais que dificultam a relação entre as pessoas se modifiquem no sentido da desconstrução de papéis, de estereótipos que atravessam épocas, culturas, religiões, famílias, comunidades é necessário haver vontade política da parte de quem detém o poder de governar, e de quem constrói as suas próprias identidades acreditar que a mudança é feita por todos e por cada um.

Serão os homens inevitavelmente violentos contra as mulheres e estas inevitavelmente vítimas?

As representações sociais cruzam-se, podem cristalizar criando nódulos de resistência para a compreensão delas mesmas, ou podem criar novas representações que poderão combater a desigualdade de género que leva à violência num crescendo actualmente atentatório dos Direitos Humanos

A vivência e o conhecimento de situações de violência, o conhecimento adquirido através da educação e da comunicação social, a sanção social podem contribuir para a construção de novas representações que não tenham por base a desigualdade de género.

Através das representações sociais, do seu estudo, está lançado o caminho para questionar os valores, a ideologia que os sustêm e para criar uma nova estrutura social e cultural dos papéis tradicionalmente atribuídos conforme o género dando origem a uma sociedade baseada na aceitação da diferença na luta pela igualdade, pela justiça, pela liberdade de se ser único.

É necessário acreditar na mudança porque ninguém nasce para maltratar nem para ser vítima.

 

 

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