Venezuela e a morte do jornalismo. Por Arantxa Tirado

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Obrigado a Arantxa Tirado e a ctxt

Publicado por logo ctxt em 25 de março de 2019

Os meios de comunicação espanhóis atuam, de facto, como correia de transmissão da visão das elites venezuelanas e os setores da “classe média” aspiracional, que engrossam maioritariamente as filas da oposição

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Os camiões de ajuda humanitária dirigidos pela oposição venezuelana ardem em frente da fronteira do país. YOUTUBE

 

Há um mês a jornalista espanhola residente em Caracas, Alicia Hernández, escreveu uma carta aberta dirigida a mim, na qual pretendia dar-me um sermão sobre o exercício jornalístico em virtude de uns vídeos que publiquei nas minhas redes sociais mostrando uma parte, certamente, da realidade venezuelana. Concluía a jornalista com um contundente “…a realidade pode ser contada de muitas maneiras. E contá-la de forma enviesada é mentir”.

Desconheço se Hernández estava a fazer um exercício psicológico de projeção sobre o seu próprio trabalho jornalístico. O certo é que é curioso que os mesmos jornalistas a quem corresponde contar a realidade completa, mas abandonaram as suas obrigações contando somente uma parte da realidade venezuelana, venham agora dar lições de pluralismo a quem não se dedica ao jornalismo. Incapazes de fazerem autocrítica sobre o seu próprio trabalho e a sua própria parcialidade, não se dão conta de que quem tem estado a mentir e manipular os cidadãos espanhóis, ocultando a pluralidade e complexidade do processo venezuelano durante anos, são eles, não uma simples politóloga que se limitou a pôr-lhes um espelho à sua frente para lhes dar uma dose do seu próprio remédio. Talvez se estes meios e jornalistas tivessem feito bem o seu trabalho, mostrando a realidade completa de Venezuela, longe de relatos apocalípticos sobre falta de comida, água ou liberdades, os vídeos que divulguei não se tivessem viralizado tanto.

Reconhece Hernández que se podem dizer muitas coisas de maneira parcial e não se estar a mentir, mas sim mente-se quando faltam muitas outras coisas por dizer. Evitar dar o panorama completo da realidade venezuelana é precisamente o que tem caracterizado a informação relativa à Venezuela que nos chega em uníssono, em forma de bombardeamento quotidiano e constante, através da maioria de grandes meios espanhóis e internacionais. Nada casual, como demonstrou o investigador espanhol Fernando Casado no seu livro Antiperiodistas. Confesiones de las agresiones mediáticas contra Venezuela, livro que, se tivesse uma segunda parte, deveria incluir o testemunho de Hernández e acrescentar um capítulo para o trabalho de El Confidencial. Lamento se Hernández chegou a acreditar no conto de que é livre para investigar o que queira ou expressar qualquer opinião sobre o que se passa em Venezuela nos meios em que trabalha. Atrever-me-ia a dizer que, se não pensasse como pensa e não transmitisse o que transmite, é mais que provável que esses meios não a contratassem, nem o establishment jornalístico e político espanhol lhe desse prémios. Neste país que vai dando lições de liberdade de imprensa à Venezuela, qualquer jornalista inteligente sabe que a sua liberdade de expressão termina onde começam os interesses e a ideologia do conglomerado empresarial que detém a propriedade do meio de comunicação de turno.

FALAR DE VÍTIMAS DA DESNUTRIÇÃO E DA AUSÊNCIA DE MEDICAMENTOS, DANDO DADOS, MAS SEM EXPLICAR OU COLOCAR EM PERSPETIVA ESSES DADOS, É TAMBÉM UMA MANEIRA DE FALSEAR A REALIDADE

A Venezuela exemplifica como nenhum outro tema a morte do jornalismo. Trata-se de um país sobre o que não se informa, antes se deforma. Vulnerando o direito dos cidadãos a estarem informados, induzem-nos a pensar de determinada maneira mostrando-nos uma informação parcial que não responde às perguntas básicas do jornalismo: quê, quem, onde, quando e porquê. Na ocultação desses porquês, as causas que explicam os factos mostrados, radica a grande manipulação da imprensa internacional com a Venezuela. Nos poucos casos em que se aponta às causas, isso é feito de maneira descontextualizada, parcial e desde uma leitura política determinada, sempre coincidente com a da oposição política, nunca com a do Governo venezuelano. Isto é sumamente grave, máxime num contexto de confrontação política aberta.

A versão da Venezuela que nos transmitem os nossos meios é uma leitura com uma parcialidade de classe mais que evidente para qualquer que conheça a composição das estruturas sociais latino-americanas. Os nossos meios atuam, de facto, como correia de transmissão da visão das elites venezuelanas e os setores da “classe média” aspiracional, que engrossam maioritariamente as filas da oposição. Em contraste, negam-se a dar voz ao Governo venezuelano e aos setores sociais populares que são a base do chavismo. Nomeadamente quando entrevistam pessoas de extração popular, nunca mostram um trabalhador ou trabalhadora chavista, que possa explicar-nos como vive esse processo político. Apesar de mais de 6 milhões de venezuelanos terem votado por Nicolás Maduro em maio de 2018, a imprensa espanhola é incapaz de encontrar nenhum venezuelano que esteja a favor de Maduro e dê o seu testemunho. Curioso, para não dizer suspeito…

ver https://youtu.be/rhdgxOmaHvM

Não estamos a pedir aos jornalistas que sejam neutrais ante um conflito, ninguém o é. Mas sim que sejam honrados e diferenciem os factos da sua opinião, algo que reconhece o próprio Código Deontológico dos jornalistas espanhóis. A Hernández e aos restantes correspondentes espanhóis na Venezuela talvez já estejam longe os anos de Universidade, quando lhes ensinaram os princípios recolhidos no código como a necessária pluralidade, a responsabilidade de informar, o respeito à verdade ou o não omitir informações essenciais. Quando se apresenta só um lado da história está-se a omitir informações essenciais, portanto, não se está a informar, está a manipular-se ou, em palavras de Hernández, a mentir.

Falemos, portanto, da omissão de informações essenciais e passemos a responder a dois pontos com os quais finaliza a sua carta, dedicados às “vítimas da desnutrição na Venezuela” e “às sanções e o cerco ao petróleo”.

As vítimas do capital internacional

Falar de vítimas da desnutrição e de ausência de medicamentos, dando dados, mas sem explicar ou colocar em perspetiva esses dados, é também uma maneira de falsear a realidade. Para um cientista social os dados por si só não explicam nada, se não se sabem interpretar. E nessa interpretação é onde entra o estudo teórico e a validação empírica sobre o tema de que se fala. Da Venezuela fala-se muito desde o episódico, e também desde o sensacionalismo quando se mencionam temas tão sensíveis como as mortes de crianças, mas pouco a análise política com perspetiva histórica. Esta análise é imprescindível para colocar a Revolução Bolivariana como parte de um processo histórico de lutas populares pela justiça e a emancipação, numa região latino-americano-caribenha marcada por uma brutal desigualdade e pela constante ingerência estado-unidense para abortar qualquer projeto que ouse desafiar os seus interesses geoestratégicos num território que é a sua reserva de recursos (aqui não será demais recordar que a Venezuela detém as principais reservas comprovadas de petróleo do mundo). O conhecimento da História, do comportamento das elites latino-americanas e mundiais, assim como procurar fontes de informação alternativas que deem voz aos atores sociais subalternos e silenciados, ajudaria muito os leitores espanhóis a terem uma visão um pouco mais ampla sobre o que está a suceder na Venezuela.

Talvez os jornalistas pudessem contribuir para ese trabalho fazendo eco de trabalhos como o de Pasqualina Curcio, economista venezuelana que estudou o modelo económico e os ataques que a economia da Venezuela está a sofrer. No seu recente Relatório sobre o impacto da guerra económica contra o povo da Venezuela, realizado com a Fundação Latino-americana de Direitos Humanos (FUNDALATIN), Curcio, além de fazer um resumo das medidas que sancionam e bloqueiam a economia venezuelana, conta que os prejuízos da guerra económica para o Governo venezuelano ascendem a mais de 114.000 milhões de dólares.

Esta guerra consistiu também num ataque ao bolívar, de carácter especulativo, estabelecendo uma taxa de câmbio paralela fixada desde fora do país, que explica 40% da queda do PIB venezolano em 2016 (os restantes 60% provêm da queda das exportações petrolíferas, que constituem 96,6% da produção nacional venezuelana). Segundo a economista, “de 2013 até à data a taxa de câmbio foi manipulada em 3500 milhões por cento”. E esses ataques estiveram relacionados com momentos políticos chave, numa lógica de desestabilização e não numa correlação de fatores económicos. Como se pode ver no gráfico, os números são vertiginosos.

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Fonte: Pasqualina Curcio

Também ficamos a saber, lendo Curcio no seu libro La mano visible del mercado, que as empresas farmacêuticas privadas que controlam a importação de medicamentos na Venezuela e recebem divisas a preço preferencial do Governo para isso, não tiveram perdas operativas nem diminuição de lucros operativos nem queda de vendas nem lhes foram reduzidas as divisas por parte do Governo no período estudado, 2012-2014. A pesar disso, em 2015 a escassez de medicamentos tinha alcançado a cifra de 70%. Mistérios da ciência, ou da chantagem económica… Talvez sejam estas empresas as que terão que responder algum dia ante as mortes de tantas crianças e adultos que não podem encontrar esses medicamentos no seu país, ou que têm que pagá-los a preços especulativos.

A combinação de hiperinflação, explicada por características estruturais da economia rentista petrolífera venezuelana, que se unem a políticas de ataque deliberadas de natureza política, e não económica, dão lugar a uma situação económica que afeta duramente o bolso dos venezuelanos. O capital internacional, os comerciantes nacionais e as políticas especulativas de ambos conseguiram fazer sucumbir o salário real dos venezuelanos, apesar das subidas reiteradas do salário mínimo por parte do Governo. Esta é uma realidade de que ninguém duvida e que qualquer um que tenha visitado a Venezuela pode comprovar. Não obstante, os que nos acusam de ocultá-la (coisa que nunca fizemos), paradoxalmente ocultam as suas causas para evitar dar explicações. Isso levá-los-ia a terem de explicar porque razão a economia venezuelana está a ser distorcida pelos grandes capitais, venezuelanos e internacionais, para provocar uma desestabilização política conducente a uma “mudança de regime”. Nada novo na história da América Latina, por certo.

A VENEZUELA NÃO É O ÚNICO PAÍS DO MUNDO – E MUITO MENOS DO CONTINENTE LATINO AMERICANO – QUE TEM PROBLEMAS, AINDA QUE LENDO OU VENDO OS NOSSOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO PUDÉSSEMOS PENSÁ-LO

Que a Venezuela, apesar dos esforços realizados nestes anos de Revolução, continua a ter problemas de corrupção, falta de investimento, ineficiência da administração pública, pobreza, desigualdade? Tão pouco ninguém o nega, nem o próprio Governo venezuelano, como reconhece Hernández. Ora bem, a Venezuela não é o único país do mundo –e muito menos do continente latino-americano– que tem problemas, ainda que lendo ou vendo os nossos meios de comunicação pudéssemos pensá-lo. O grave é que com a Venezuela está a ser construído um guião desde há anos para justificar uma intervenção militar de tipo “humanitária”, apelando à existência de uma “crise humanitária” que obrigue outros países a intervir com o argumento da “responsabilidade de proteger”, como na Líbia. A crise humanitária não é tal mas trata-se de validá-la com testemunhos parciais e reportagens jornalísticas enviesadas. Por isso, sobredimensionar os problemas da Venezuela nestes momentos, ou pô-los como explicação exclusiva da crítica situação política e económica atual é um exercício de mau jornalismo, quando não de má fé. E se não é má fé, é ignorância e ingenuidade, o que é muito mau para o exercício de um jornalismo que se preze, que sempre deveria indagar e ir mais além do aparente e dos relatos oficiais.

Por último, um aspecto fundamental. Ignorar que todo o referido anteriormente forma parte de uma guerra multifatorial, híbrida, contra o Governo e o povo venezuelano, por ter escolhido fazer políticas soberanas num país acostumado a dobrar-se perante os interesses estado-unidenses durante a IV República, é ignorar a parte mais importante da equação. Sem isso, nada do que se está a passar na Venezuela, nenhum dos problemas que se enfrentam se podem compreender. Não o dizemos nós, dizem-no os próprios documentos militares dos Estados Unidos e as declarações dos seus líderes políticos, onde a Venezuela é um objetivo militar a abater para benefício dos interesses das grandes empresas estado-unidenses, principalmente petrolíferas. O antecedente do Iraque deveria ser suficiente para nos manter alerta frente aos que nos falam de levar a “democracia” a países que, casualmente, têm grandes riquezas petrolíferas.

 

Jornalismo: verdade e compromisso

Um jornalista pode escolher falar disso, do ataque à Venezuela, ou bem falar do mau que é o seu Governo. Prioridades, chamam-lhe. Curiosamente, os jornalistas que publicam nos grandes meios de comunicação têm sempre a prioridade de defender a versão do Estado mais forte, escudando-se numa preocupação pelos setores vulneráveis. Pouco importa se esses setores vulneráveis vivem melhor sob um projeto político que tenta ajudá-los com políticas sociais frente a um modelo que diz preocupar-se pelos pobres mas só os instrumentaliza como lhe convém, como fazem as elites estado-unidenses, venezuelanas e também espanholas. O problema é que a maioria dos pobres venezuelanos não quer ser instrumentalizada pelas elites desde há 20 anos.

É claro, à imprensa espanhola não lhe passa sequer pela cabeça que algo do que possa dizer o Governo venezuelano seja certo. Com um tom suspeito e até zombeteiro, duvidou da tentativa de assassinato do presidente Maduro perpetrado em agosto de 2018, atrevendo-se a insinuar que poderia ser um “auto-atentado” para justificar a “repressão”. Teve que vir um meio de comunicação tão pouco chavista como a CNN reconhecer que houve um complot para o assassinato do Presidente venezuelano. Também o The New York Times fez ruborizar de vergonha a restante imprensa internacional, publicando que detrás do pegar fogo aos camiões da suposta “ajuda humanitária” que estavam em Cúcuta à espera de entrar na Venezuela, supostamente executado pelo Governo de Nicolás Maduro segundo a nossa imprensa, se encontravam os manifestantes antichavistas do lado colombiano. Uma informação que, desde o minuto um, se encarregaram de transmitir jornalistas de TeleSUR ou La Jornada que estavam no terreno mas que foi ignorada pelos nossos correspondentes em Caracas. Ambos os casos têm em comum a dúvida sobre a versão que dá uma das partes, precisamente a que depois se comprova que está a contar a verdade, enquanto se cauciona sem crítica a versão contraposta.

Corresponde aos jornalistas contar a realidade de maneira plural, apegada à verdade, mostrando a complexidade de um país que se encontra à beira de uma intervenção militar que põe em risco a vida de todo um povo, chavista e não chavista. Fazer um jornalismo que omite esta conjuntura e reforça os elementos sobre os quais se tem estado a construir o pretexto para a intervenção (“a crise humanitária”), é uma demonstração de irresponsabilidade não já jornalística mas sim humana.

Mas, paradoxos da vida, quem assassina o jornalismo é incapaz de ver onde se encontra e considera mais importante dar lições teóricas de jornalismo aos não jornalistas. Talvez pudessem começar a defender a profissão denunciando as pressões que muitos jornalistas honrados recebem ao realizarem o seu trabalho de maneira imparcial, apostando por um jornalismo autenticamente independente dos interesses corporativos. Isso e informar com pluralismo ajudaria a recuperar um jornalismo que mereça esse nome, não se prestando a ser um peão mais da propaganda do establishment mundial contra um povo, o venezuelano, que, pesem embora as dificuldades e os ataques, continua a resistir para defender a sua soberania e a sua dignidade.

A realidade pode-se contar de muitas maneiras, sim, mas contá-la de forma enviesada é mentir. E mentir sendo jornalista deveria invalidar para exercer um ofício que, nestes tempos de post-verdade, necessita cada vez mais de profissionais valentes e comprometidos com a verdade.

 

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A autora: arantxa tirado Arantxa Tirado é politóloga. Doutorada em Relações Internacionais pela Universidad Autónoma de Barcelona (UAB) e Doutora em Estudos Latino-americanos pela Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). Durante o ano 2011 residiu em Caracas e integra a Plataforma Catalana de Solidaridad con Venezuela. É co-autora do livro La clase obrera no va al paraíso (2016)

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