Do plano técnico ao plano político: do sistema Target 2 à fragmentação financeira da União Europeia – 6. Pânico alemão sobre o Target 2. Por Wolfgang Munchau

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6. Pânico alemão sobre o Target 2 

wolfgang-munchau Por Wolfgang Munchau

Publicado por Eurointelligence em 9 de julho de 2018 (texto original aqui)

O debate alemão sobre os saldos no sistema de compensação de pagamentos Target2 continua bem aceso. Há duas razões para isso.

Por um lado, o crédito do Bundesbank no Target2 do Euro-sistema era superior a 976 mil milhões de euros no final de junho e está prestes a exceder o valor simbólico de um 1 milhão de milhões de euros.

Por outro lado, os alemães tomaram conhecimento do plano B de Paolo Savona para que a Itália saia do euro, que implicava o incumprimento da dívida externa italiana, incluindo o seu saldo Target2, que é cerca de 481 mil milhões de euros e está em crescimento.

Neste contexto, Peter Boehringer, deputado da AfD e presidente da comissão orçamental do Bundestag, criticou Olaf Scholz [ministro das finanças] num debate orçamental por não fazer provisões de risco para a possibilidade de incumprimento nos créditos alemães no Target2.

O Frankfurter Allgemeine também falou com Christian Dürr, vice-líder do grupo FDP no Bundestag, que diz que já é tempo de o ministro das Finanças colocar na agenda política a ameaça de um incumprimento sobre os contribuintes alemães.

A posição do grupo CDU é de que a situação se corrigirá por si-mesma com o fim do programa de compra de ativos do BCE e no regresso da confiança aos países do sul da zona euro, como resultado da recuperação económica em curso.

Mas o FAZ insiste que algo precisa ser feito. Deverão os créditos alemães no Target2 – atualmente sem data, sem garantia e sem pagamento de juros – ser garantidos por ativos? Como é que os saldos do Target2 podem ser remunerados quando a taxa de depósito do BCE é negativa? E pode a política interferir na forma como o BCE organiza o seu sistema de compensação de pagamentos sem violar a sua independência?

Está tudo muito bem, mas o artigo está cheio de imprecisões e mal-entendidos grosseiros que enquadram o debate alemão sobre o Target2.

Comecemos com a observação do FAZ de que o banco central italiano não tem ouro e reservas suficientes para servirem de colateral aos créditos alemães. Isto implica que o passivo italiano no Target2 é devido à Alemanha. Mas quaisquer saldos intra-dia do Target2 entre o banco central italiano e alemão são compensados e tornam-se créditos entre os bancos centrais nacionais e o BCE. O que os conservadores alemães defendem, em última análise, é que o BCE garanta ativos como garantia ao Bundesbank ou que a Itália garanta os seus passivos junto do Euro-sistema.

Mas há também o delirante argumento de que o Target2, como sistema de compensação de pagamentos, permite que italianos, espanhóis e gregos comprem imóveis, empresas e títulos na Alemanha sem dinheiro criado em casa, seja através da venda de bens e serviços ou de crédito da sua banca comercial. Este é um disparate da mais elevada ordem. Um sistema de compensação e liquidação de pagamentos não permite magicamente que os pagamentos sejam efetuados se o pagador não tiver dinheiro na sua conta e nenhuma linha de crédito disponível. O FAZ considera que o Target2 obriga o Bundesbank a conceder crédito a juros zero aos povos do sul da Europa. Na realidade, o único crédito que o Bundesbank concede no contexto do Target2 é a outros bancos centrais no próprio dia (intradiário) e ao BCE numa base contínua. Se os italianos – ou os espanhóis, ou os gregos – estão a comprar material na Alemanha, é porque ou tinham o saldo na sua conta bancária ou porque o seu banco local lhes concedeu crédito. Se isto é errado, a culpa é do Mecanismo Único de Supervisão, não do Target2.

Continuamos a perguntar-nos se os economistas e deputados alemães com quem o FAZ dialoga estão realmente a defender que o Bundesbank deixe de compensar os pagamentos relativamente à Itália. A propósito, é basicamente isto que equivale aos controlos gregos sobre os capitais. Mas estes foram o resultado de uma ajuda de emergência de liquidez do banco central grego aos seus bancos comerciais. Ou seja, a falta de confiança foi atribuída aos bancos privados gregos. Do que estamos a falar aqui é de excluir o Banco de Itália do Euro-sistema.

O autor: Wolfgang Munchau (1961-) é editor associado do Financial Times. Fundador e co-diretor de Eurointelligence. Autor de vários livros entre os quais The Meltdown Years: The Unfolding of the Global Economic Crisis (2009).

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