Do plano técnico ao plano político: do sistema Target 2 à fragmentação financeira da União Europeia – 8. Evolução das causas do aumento vertiginoso dos desequilíbrios das contas do TARGET2 no Euro-sistema e a balança de pagamentos da Alemanha. Por Eric Dor

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8. Evolução das causas do aumento vertiginoso dos desequilíbrios das contas do TARGET2 no Euro-sistema e a balança de pagamentos da Alemanha

eric dor Por Eric Dor

Publicado por IESEG em julho de 2012 (texto original aqui)

Série Documentos de Trabalho, 2012-ECO-12

A lista completa dos passivos relacionadas com o TARGET2 dos bancos centrais nacionais do Euro-sistema pode ser estimada para abril de 2012.

Estimativas dos ativos ou passivos relacionados com o TARGET2 dos BCN do Eurosistema em abril de 2012 (em milhares de milhões de euros)

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Alguns bancos centrais já publicaram os seus dados relativos a maio. Os créditos do Bundesbank relacionados com o TARGET2 sobre o resto do Euro-sistema atingiram 698 mil milhões de euros em maio de 2012! Em contrapartida, as responsabilidades do Banco de Espanha relacionadas com o TARGET2 atingiram 345 mil milhões de euros e as do Banco de Itália também aumentaram.

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As causas do aumento súbito dos créditos do TARGET2 do Bundesbank

Para explicar o aumento dos créditos do Bundesbank relacionados com o TARGET2 sobre o Euro-sistema, a narrativa habitual diz que há enormes fugas de depósitos a partir dos bancos dos países em dificuldades da zona euro e que os fundos levantados estão a ser reinvestidos em contas de depósito em bancos alemães. No entanto, os dados da balança de pagamentos alemã mostram que não se registou qualquer aumento significativo dos depósitos estrangeiros nos bancos alemães desde 2008, à exceção de um ligeiro afluxo em 2012.

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Uma identidade contabilística obviamente implica que as entradas totais de fundos na Alemanha devem ser iguais às saídas totais de fundos, que incluem o aumento dos ativos relacionados com o TARGET2 do Bundesbank sobre o resto do Euro-sistema. Assim, durante um qualquer período de tempo, um aumento dos ativos do Bundesbank sobre o Euro-sistema deve resultar de aumentos nas entradas de fundos que não sejam compensados por aumentos correspondentes nas saídas de fundos, ou por diminuições nas saídas de fundos que não sejam compensadas por diminuições correspondentes nas entradas de fundos.

A balança de pagamentos alemã mostra, por conseguinte, que os principais fatores impulsionadores do aumento dos ativos relacionados com o TARGET2 do Bundesbank sobre o resto do Euro-sistema têm sido:

– Uma diminuição do stock de empréstimos das instituições financeiras monetárias alemãs ao resto do mundo em 2009, 2010 e 2011: Os bancos alemães decidiram obviamente não renovar uma grande parte dos empréstimos que tinham sido concedidos a mutuários estrangeiros e que chegaram à maturidade, e estes bancos não concederam muitos novos empréstimos a mutuários estrangeiros.

– Um aumento do stock de empréstimos externos às instituições financeiras monetárias alemãs em 2012, mostrando que os fundos correspondentes às enormes fugas de depósitos de países em dificuldades foram em parte reinvestidos em bancos alemães, mas sob a forma de empréstimos em vez de depósitos.

Entre outros fatores impulsionadores, houve uma queda acentuada do investimento alemão em obrigações e papel de crédito estrangeiro em 2011 e houve um aumento do stock de títulos alemães e de papel comercial detidas por investidores estrangeiros em 2010 e 2011.

Fuga de depósitos para fora dos bancos de Espanha

Os gráficos a seguir mostram que os levantamentos de depósitos nacionais e estrangeiros foram recentemente acelerados na Espanha.

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O autor: Eric Dor é doutorado em ciências económicas (Universidade Católica de Lovaina). Diretor de Estudos Económicos no IESEG School of Management (Lille). Os seus trabalhos incidem sobre a macroeconomia monetária e financeira e análise do ciclo económico, bem como sobre análise conjuntural e economia internacional. Colabora regularmente em jornais como Oxford Bulletin of Economics and Statistics, Empirical Economics, Louvain Economic Review.

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