CARTA DE BRAGA – “das pessoas concretas” por António Oliveira

A cena passa-se no Jornal ‘Público’ do dia 18 de Março.

O que é preciso é uma aproximação às pessoas concretas’, a frase de Marcelo lida pelo cliente sentado num banco ao balcão do Bartoon. O dono do bar responde de imediato ‘não é fácil. O que é concretamente uma pessoa?

Também não é fácil arranjar uma resposta concreta para tal pergunta.

A preponderância económica, social e cultural daquilo a que se costuma chamar neoliberalismo, o sistema que, apesar das contradições, continua dono e senhor dos nossos modos de ir arrancado pedaços de vida de cada dia, quase nos impede de poder definir o sujeito comum.

A homogeneização e a normalização que persegue e nos vai escorrendo para a modesta categoria de ‘só um número’ no conceito estatístico do ‘produzir, fornir e igualar’, também faz de cada pessoa um recanto isolado, permeável apenas aos ‘iguais’, preferentemente arregimentados entre os partidários seguidores dos mesmos consumos.

Se juntarmos a este panorama, a enorme apetência pela representação (pode testemunhar-se este facto na enraizada usança de selfies e likes), também se verifica que, agora, não é fácil definir classes ou categorias sociais, a abranger muita gente e em lugares diversos.

Considerações apropriadas hoje, porque o maior interveniente na evolução desta sociedade, a internet, comemora agora trinta anos, entre acusações de enorme disfuncionamento.

Aliás, o seu criador Tim Berners-Lee, aponta a pirataria e os ataques comandados por estados como o mal maior, logo seguido dos ‘incentivos perversos’ com fins comerciais – a informação falsa e as estratégias para captar a atenção e induzir os usuários a clicar nos ‘ciberanzóis’

A dimensão deste fenómeno está chamar a atenção de toda a qualidade de analistas, dos sociais aos políticos, porque as dezenas de anos de internet popular, têm sido (estão a ser!) aproveitados por todos os tipos de utilizador e nem sempre por motivos razoáveis, como os acontecimentos da Nova Zelândia e da Holanda, ainda com poucos dias, deixam entender.

Sem uma qualquer referência ou sem lhe poder verificar a veracidade, quando alguém impõe a versão própria de qualquer coisa, cria uma falsa representação, um ‘reality-show’, respeitando apenas os seus interesses. Aliás, numa entrevista recente, o escritor Javier Marias salientou bem ‘Penso às vezes no que Goebbels poderia ter feito com o Twitter!

Também não quero ser tão radical como Jorge Luis Borges, mas sou obrigado a pesar muito bem na sua afirmação ‘Agora existe uma ciência humana chamada informática. Que nome mais feio para uma ciência. É uma desgraça o facto de a informação substituir a cultura

Como se poderá responder então, ao dono do Bartoon?

O que é uma pessoa concreta’ ou ‘O que é, concretamente, uma pessoa?

Confesso humildemente que responder, hoje e para mim, é uma ambição bem complicada mas desculpo-me pedindo socorro a uma frase com quase cem anos, escrita em 1930 por Ortega Y Gasset em ‘A rebelião das massas’.

Como se dice en Norteamérica: ser diferente es indecente. La masa arrolla todo lo diferente, egregio, individual, calificado y selecto. Quien no sea como todo el mundo, quien no piense como todo el mundo, corre el riesgo de ser eliminado

E muito me preocupa ter de concluir que ‘A melhor definição que posso dar de um homem é a de um ser que se habitua a tudo’, escreveu Dostoievski em ‘Recordações das casas dos mortos

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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