HOJE É DIA DA MÃE por Luísa Lobão Moniz

Quando era criança o Dia da Mãe era no dia 8 de Dezembro.

Na escola não nos era permitido ter sentimentos sobre a Mãe que pudéssemos expressar por palavras, por desenhos ou por trabalhos manuais de nossa iniciativa. Era-nos dado um modelo que copiávamos zelosamente, pois ficaríamos muito tristes e desapontados connosco se a reprodução não ficasse bem-feita, quer isto dizer não tivesse manchas de tintas, traços irregulares feitos com um pincel que só víamos em dias especiais e de tensão.

Ensinaram-nos a dizer “Mãe há só uma” para que a qualquer comportamento reprovável pela Mãe nos sentíssemos culpados pela sua desilusão.

Para que as crianças não confundissem o papel de “madrasta” com o papel de Mãe.

Ensinaram-nos a recitar “ Com três letrinhas apenas se escreve a palavra Mãe, a palavra mais pequena, a maior que o mundo tem” como se a palavra Pai também não tivesse apenas três letrinhas.

 Era o endeusamento da figura da Mãe que estava em casa para tratar dos filhos, das filhas e do marido. Era a Mãe cuidadora sem vida própria, oprimida pela sua condição única de Mãe.

Mulher tinha que ser Mãe, transmitir os papéis e funções distintas entre as filhas e os filhos para que reproduzissem o mesmo padrão de vida – mulher submissa em casa, homem, chefe de família, que trabalhava para sustentar quem estava ao seu cuidado, de que era responsável.

Anos mais tarde percebi que nada disto é necessário porque Mãe é Mãe e ponto final.

A Mãe mandava na educação dos filhos e das filhas, mas o Pai mandava mais, a Mãe desculpava os filhos e as filhas quando percebia que o pai ia castigar sem razão ou desmesuradamente.

A Mãe era a defensora das suas crias. Ela podia bater e castigar, mas não admitia que mais ninguém o fizesse!

Se fosse preciso a Mãe não comia para que os filhos e as filhas pudessem comer…, Mãe, por vezes, desleixava-se porque só queria a felicidade dos filhos e não tinha a atenção e carinho do marido, a sua auto-estima estava abaixo do chão!

Muitas vezes me emocionei e reflecti sobre a relação dos filhos e das filhas com as Mães desleixadas, alcoolizadas, sem rotinas nem horários que pudessem balizar as suas vidas.

Vi meninos e meninas, com grandes sorrisos nos lábios e os olhinhos cheios de alegria, correrem para as Mães, com ar desleixado e sujo, que os iam buscar à escola. A primeira pergunta que as Mães faziam era “trataram-te bem?” como se estivessem à espera que os seus filhos fossem mal tratados pela Mãe que tinham!

Hoje é o Dia da Mãe.

De que Mãe?

Da Mãe sem problemas profissionais, da Mãe escolarizada, da Mãe que não abdica da progressão da sua carreira profissional para poder dedicar mais tempo aos filhos e às filhas que andam em roda livre nos meandros das redes sociais? Quando digo Mãe também digo Pai, pois Mãe não é uma identidade isolada do resto da família.

A Natureza concedeu o Bem à Mulher para poder ter filhos e filhas, concedeu à Mulher a alegria de pegar no seu bebé, recém-nascido, e de chorar de emoção por aquele ser tão pequenino, tão dependente dela, que necessita de criar vínculos afectivos que o vão tornar num adulto que saiba que os outros também cresceram como ele, mas que uns tiveram a sorte das circunstâncias da vida lhes proporcionarem um vínculo positivo, ou a não sorte de proporcionarem um vínculo que se estabeleceu na confusão de uma família desestruturada e que terá como consequência um adulto instável e, por vezes, pouco respeitador dooutro.

Um dia ouvi uma Mãe dizer, ao pé do filho, Não sei para que é que nasceste.” E o menino enfiou completamente a cabeça dentro do carapuço do Kispo, como que a dizer que queria desaparecer, como a querer dizer “ e agora o que faço? Ela não me quer como filho!”

Era um menino muito problemático na escola, com frequência agredia verbalmente as professoras e contínuas (assim se chamavam) pois para ele as mulheres não gostavam dele, não o queriam como não o queria a sua própria Mãe!

Andava sempre com o carapuço enfiado na cabeça e dava pontapés por onde passava.

Estas realidades merecem a nossa reflexão sobre o significado do Dia da Mãe.

As Mães não são todas iguais, como não são os filhos nem os maridos.

As Mães têm as suas características específicas e os Pais, que também têm o seu papel na formação dos filhos e das filhas, tem a sua especificidade, muitas vezes agressiva e tolerada pela sociedade.” É homem!”

A sociedade aceita um Pai bêbado, mas não aceita uma Mulher bêbeda.

A força da Natureza é boa, as relações familiares deveriam ser felizes.

Mas as sociedades industriais e capitalistas foram mudando a Natureza de uma vida boa e acolhedora, entre os familiares mais próximos, numa vida de poder para o Homem e de submissão para a Mulher, em prol do lucro das empresas e da valorização do homem como um ser superior. As mulheres não produzem capital, geram os vencimentos ou subsídios para a sobrevivência da família. E no dia seguinte o pequeno-almoço está pronto na mesa da cozinha e lá recomeça o Dia da Mãe…

Hoje em dia, a vida familiar parece ser mais uma passagem para outras vidas, com ilusões de que no outro é que está a nossa insatisfação e então há que procurar outro e outro ou outra e outra.

É evidente que esta é uma parcela, que espero seja a menor, em toda a sociedade que apregoa Liberdade e uma vida mais justa para todos e para todas, em toda a sociedade que anda confusa com a educação das filhas e dos filhos.

Já me esquecia de dizer que, hoje nas escolas, é dada a liberdade dos meninos e das meninas fazerem, segundo a sua criatividade, um trabalho para dar à Mãe.

As Mães abraçam os seus filhos ou filhas, mas por vezes são tão exigentes que começam logo por apontar incongruências no trabalho feito com tanto carinho e com o secreto desejo de ser amado, sempre, pela Mãe.

A Mãe é que lhes viu, contemplou o momento inesquecível de dar de mamar ao seu bebé olhos nos olhos…

Que não se percam estes olhares, estes desejos, mas que se perca a falta de tempo para assistir e partilhar tantos sorrisos tão ingénuos, tantas lágrimas de medos que eles não sabem ainda explicar por palavras.

Vivam as Mães deste mundo que tanto têm lutado para poderem dar uma vida digna aos seus filhos e às suas filhas; às Mães desleixadas que se preocupam como o filho foi tratado na escola! Vivam aquelas que não são Mães, mas que se têm dedicado a melhorar o vínculo entre as Mães e os seus bebés.

Este é um assunto que nos pode explicar como uma gota de água pode provocar uma inundação.

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