CARTA DE BRAGA – “snooker e eleições” por António Oliveira

Ali, bem à minha frente, dois contendores competiam serena e calmamente, por um título mundial.

Não percebi qualquer gesto de animosidade para o antagonista, esperava cada um a sua vez de entrar no jogo e, quando terminava, por ter falhado, se ter enganado ou por mero infortúnio, regressava ao seu canto, sentava-se, olhava o outro, bebia um gole de água e, às vezes, abanava a cabeça, lamentando para si mesmo, aquele tropeço na progressão.

Foi mesmo verdade, tudo se passou assim quando, naquele curto e exíguo espaço definido pelo ecrã do televisor, estive a ver dois sujeitos muito concentrados, a disputar o título de campeão mundial de snooker.

A certa altura, um deles teve um falhanço incrível e, irritado, dá uma palmada na mesa do bilhar. O comentador lamenta o facto, a câmara passeia-se pela assistência e os rostos captados também mostram incompreensão, mas tudo volta à normalidade depois de ele se ter desculpado com uma ligeira vénia para o público.

Vem isto a propósito dos debates a realizar pela disputa dos títulos atribuídos pelo marketing político das próximas eleições, pois é raro ver-se alguém esperar pela sua vez e mostrar a serenidade de uma opinião apoiada numa sabedoria longe dos slogans influenciados por técnicas publicitárias.

O oportunismo, a conflitualidade social, a antipolítica e a corrupção vão pairar por lá, tanto como a precaridade, a desigualdade e a fraca imagem que os políticos têm vindo a deixar de si mesmos, um conjunto que não me sossega quanto a debates sem fanfarronadas e histrionias para diminuir o competidor.

Aliás o historiador Pierre Rosanvallon afirmou recentemente ‘hoje as eleições são, tanto uma forma de eleger uma opção como para «deseleger» as outras, pois não votamos algo, mas contra algo e as urnas são uma evasiva’.

Talvez fosse bom ter cada um presente a pergunta que, ainda não há muito tempo, me fez um amigo ‘Contra quem vais votar?

Confesso ter ficado um pouco embaraçado e comecei depois a nomear todas as coisas e as pessoas que eu não queria presentes nas pós-eleições.

O meu amigo olhou-me sorridente mas tranquilo como um dos tais jogadores de snooker e logo comentou ‘afinal não votas por convicção, vais votar contra algo, por resistência ou por rebeldia!

É verdade e também é verdade que já cheguei a pensar que um voto a mais ou a menos não faria grande diferença mas, nesta mesa vão estar muitas bolas em jogo e o adversário não espera sentado!

Assim, votar é impositivo pela necessidade imprescindível de reforçar a democracia, para melhor refutar e recusar aqueles extremistas à espreita de um falhanço nosso, para tomarem conta do jogo!

Não indo, também não servirá de nada dar depois, uma palmada na mesa do voto!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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