É a procura, seu idiota! Por Jean-Luc Gréau

Espuma dos dias_globalização_financeirização_taxas juro negativas 2

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Publicado por revista mensal le causeurem 1 de setembro de 2019

https://www.pressreader.com/france/causeur/20190901/281509342870332

 

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Da China à América, a procura interna tende a enfraquecer. Se uma subida dos salários poderia evitar uma recessão mundial, os defensores de uma mundialização feliz não a querem.

 

Muitas pessoas inquietam-se com uma possível reedição da crise de 2008. Na verdade, não há situação económica mais contrária à de 2008 do que a de 2019.

Há onze anos, fomos atingidos, em ambos os lados do Atlântico, por uma crise financeira que abriu o caminho para aquilo a que, desde então, se chamou a “Grande Recessão”, uma recessão dupla, tripla ou quádrupla das recessões do pós-guerra, dependendo dos países em causa. No entanto, para além da Europa e da América, apenas o Japão e os países asiáticos recentemente industrializados foram afetados. A China, que já está fortemente ligada à nossa prosperidade, manteve um dinamismo apoiado pelos relançamentos do Governo de Pequim.

Em 2019, os mercados financeiros estão melhor do que nunca. De acordo com as aparências, uma vez que as ações cotadas em bolsa estão num pico histórico, bem como o crédito de mutuários públicos e privados, com exceção dos chamados cancros designados Turquia e Argentina. Com este facto sem precedentes: um quinto de todas as obrigações cotadas nos mercados estão sujeitas a taxas negativas. Este aparente absurdo significa que as obrigações emitidas anteriormente com taxas positivas, como deveria ser, por um montante de 100 e uma taxa de juro de 2% ao longo de dez anos [1], por exemplo, assumiram um valor tal que o seu rendimento aparente se tornou negativo, uma vez que estão a negociar acima de 140, bem acima do capital e dos juros que apareciam no momento da emissão. Tudo pode ser explicado pelo inédito procedimento de Quantitative Easing ou “Flexibilização quantitativa”, de que não se podem subestimar os efeitos salvadores nem os efeitos tóxicos.

Em todo o caso, as empresas, os particulares e os governos beneficiam das condições de crédito mais favoráveis e de um fator adicional sob a forma de juros baixos ou nulos sobre o capital alheio. A Alemanha contrai empréstimos a taxas negativas, tal como a França, há pouco tempo apresentada como um Estado praticamente falido, poupando-nos vários milhares de milhões de euros na fatura financeira anual do Tesouro Bercy. À Grécia, que foi expulsa dos mercados de crédito em 2010, estão a ser oferecidas taxas de empréstimo inferiores a 2%! Os particulares franceses que querem pedir emprestado para construir ou comprar uma casa são encorajados por taxas de cerca de 1%. As famílias dinamarquesas na mesma situação podem endividar-se a meio por cento em vinte anos, a zero por cento em dez anos!

Da resiliência à desaceleração do crescimento

Devíamos ter um boom! E tanto mais quanto as barreiras públicas à iniciativa privada se atenuaram. É o que diriam os economistas do passado, ao mesmo tempo que se preocupavam com a recaída que se poderia seguir. Só que não há boom. Os seus estranhos sucessores de hoje, os que o leitor vê pontificar nas ondas do canal BFM TV ou Boursorama ou nas colunas do Financial Times, onde reina a santa doutrina da globalização e do euro, estão-nos a dar as suas crescentes preocupações. Não há continente que não sofra com o abrandamento económico e o agravamento do clima empresarial. Em primeiro lugar, a China, cujos números, que durante muito tempo foram extraordinariamente elevados, têm vindo a diminuir lenta mas seguramente nos últimos vinte meses, e a Ásia industrial circundante, incluindo os países do Sudeste Asiático. A América Latina está no mesmo comprimento de onda da recessão. A zona euro é um elo fraco do sistema global, apesar da ou por causa da sua moeda única. Os próprios Estados Unidos, cujos líderes temem publicamente o fim do ciclo de crescimento mais longo de sua história económica.

A palavra “resiliência”, um anglicismo psiquiatricamente cunhado após a crise financeira e a crise do euro para destacar o facto de que o sistema económico global havia escapado de uma nova Grande Depressão, desapareceu dos media  para dar lugar ao termo mais objetivo de “desaceleração”. Sem dissipar as interrogações. Como é que se fez para que “os planetas já não estejam alinhados” como estavam em 2016 e 2017?

O facto mais intrigante é que a fonte da desaceleração está na China, no Eldorado da globalização. Desde há quatro anos, este país vem vindo a seguir uma política de “stop and go”[2] , marcada pela manipulação errática dos pedais do acelerador e do travão . Um dia, o Banco Central abre as comportas do crédito, outro dia aumenta a quantidade de reservas necessárias para o abrandar, outro dia o governo anuncia que está a financiar novas infraestruturas, como novos aeroportos ou novas ligações ferroviárias interurbanas, mais um dia coloca sob vigilância a dívida das autoridades locais e a corrupção que lhe está associada. De acordo com os números, os resultados ainda são muito respeitáveis, 6% de crescimento do PIB! Mas os conhecedores do sistema chinês sabem que estes são números “convencionais” estabelecidas no topo do Estado para acalmar os mercados. E, para nossa informação, é especialmente importante saber que elas são acompanhadas por uma dívida empresarial massiva, concentrada nas empresas públicas e nas empresas ligadas às obras públicas, e pela dívida das autoridades locais. O Império do Meio é também o Império do betão  e o Império da dívida.

A Ásia Industrial, cujas empresas trabalham na China e com a China, é a primeira a ser afetada pela desaceleração chinesa. Os produtores de matérias-primas são os segundos mais afetados. E agora, a Alemanha, um grande produtor de bens de capital, em terceiro lugar, o que faz a ligação com a desaceleração em curso na zona euro. Ora, é a capacidade industrial desta Alemanha que serviu como garante da moeda única, ao mesmo tempo que Draghi colocava os seus mercados de crédito sob perfusão. Este é o paradoxo da moeda única: por um lado, baixou e subordinou os parceiros da Alemanha, sufocados pelo espartilho do “marco”, rebatizado de “euro”, e, por outro, deve a sua sobrevivência à força alemã, cujas raízes remontam a um passado longínquo.

O abrandamento na Alemanha, que está a estagnar em termos globais, mas também em termos industriais, com uma queda de 8% ao longo de um ano, dá-nos uma lição de economia geral. A competitividade não é suficiente. Sem procura suficiente, repartida entre famílias, empresas, governos e mercados externos, ela continua a ser uma faca de dois gumes. A doutrina da competitividade, central ao modelo neoliberal, revela os limites do seu discurso fechado sobre si mesmo. E o modelo alemão, que não pode ser imitado pelos seus vizinhos, trai uma fragilidade intrínseca que os economistas descobrem com o atraso das mentes imbuídas de falsos conhecimentos nascidos na sequência da experiência neoliberal.

Um, dois, três, recessão estás aí?

Um, a China. Dois, a Alemanha. Três, a América? Mais que suficiente para colocar os apóstolos da feliz globalização diante das suas contradições. Não há semana sem que eles quebrem lanças contra o protecionismo delineado em Washington. A “guerra comercial” ameaçar-nos-ia com uma crise global. As decisões do presidente “errático”, como o definem, estão na raiz da desaceleração da China e dos efeitos prejudiciais que ela tem sobre os seus parceiros. Desempenham um papel providencial, alimentando a sua retórica incessante a favor do comércio livre.

Alto, os números do comércio exterior chinês falam na direção oposta. Os factos negam a propaganda. As exportações chinesas globais continuam a aumentar e, sobretudo, as exportações para os Estados Unidos, que estão sujeitas a direitos aduaneiros, estão a progredir contra todas as expectativas. Enquanto as importações estão a cair a uma taxa de 7 ou 8%, o que trai a desaceleração da procura interna por matérias-primas e equipamentos, estas são corroboradas pela queda das exportações alemãs. Pela primeira vez desde o início do grande boom, as empresas industriais estão a despedir e os preços ao produtor estão em território negativo, um sinal de que essas empresas estão a lutar para conservar a sua participação no mercado.

Neste contexto, sem precedentes desde há quarenta anos, é ainda do consumidor americano que se espera a última proteção contra a recessão que se avizinha no horizonte. Este bom samaritano nunca deixou de desempenhar o seu papel com convicção, exceto durante a Grande Recessão, quando teve que expurgar o seu excesso de dívida. E assim os bons apóstolos devem admitir, ao contrário da sua propaganda, que o protecionismo não alterou, ou não alterou ainda, o dinamismo global.

Tudo depende, pois, desse personagem central e anónimo que é o consumidor americano. Mas se a sua boa vontade está acima de qualquer dúvida, o que dizer da sua capacidade? Uma capacidade que depende da eficácia da política global do governo de Washington e do banco central. Os fundamentais parecem sólidos. O emprego aumentou progressivamente nos últimos dez anos, os salários estão a despertar de um sono de há muito tempo, o crédito é dos mais baratos. No entanto, os Estados Unidos acabam de experimentar o ciclo de crescimento mais longo de sua história, graças ao estímulo orçamental de Donald Trump, que duplicou o défice. No entanto, os investimentos nos Estados Unidos são prejudicados pela política de criação de valor dos acionistas ditada pelo mercado de ações. E é aí que surge a questão crucial. A mudança protecionista já produziu efeitos favoráveis?

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Um habitante de Zhengdong (China) anda sobre os escombros de uma aldeia para que seja edificado um quarteirão de negócios gigante, novembro de 2010.

 

Não, exceto nas margens. Não se muda de modelo económico num instante. O protecionismo americano continua na fase de esboço. Percebemos, em retrospetiva, que foi Obama quem deveria ter iniciado a grande bifurcação. No entanto, o homem providencial reencarnou o Dr. Pangloss, prometendo resolver o hiato comercial duplicando as exportações. Mas seria de esperar que um brilhante sujeito de Harvard rompesse com o conformismo intelectual das elites americanas?

E é por isso que ninguém pode excluir um declínio no consumo dos EUA que nos levaria para além de um ponto de não retorno à recessão global.

 

 

 

Moeda e salários

Esta miscelânea ajuda a compreender o ressurgimento do keynesianismo, baseado na despesa pública em infraestruturas, saúde, educação e ecologia, em ambos os lados do Atlântico, e os pedidos de ajuda dirigidos aos bancos centrais. Como já entendemos, não se trata de redesenhar o paradigma, mas de instalar paliativos para combater a desaceleração global. Mas isto apenas obscurece ainda mais o enunciado do problema.

Além disso, se a situação económica atual se opõe à conjuntura de há onze anos atrás, a configuração geral opõe-se à configuração, traço por traço, de há quarenta e cinco anos atrás, de 1974: deflação salarial e estagnação dos preços hoje, sob a pressão da globalização, enquanto que nos anos de 1970 os preços evoluíam em forte alta e os salários galopavam; agora temos a subordinação das empresas aos acionistas do mercado de ações, enquanto que outrora os gestores eram príncipes no seu reino.

Vamos ousar esta comparação. Um motor de combustão interna funciona misturando um combustível, como a gasolina, e um oxidante, como o oxigénio. O motor económico requer combustível, a moeda, e um oxidante, os salários. Agora que a globalização é um dado adquirido, este motor funciona com uma mistura constantemente enriquecida em moeda e constantemente empobrecida em salários. No entanto, propõe-se agora reforçar esta fórmula arriscada, enriquecendo ainda mais a mistura com dinheiro adicional dos tesouros públicos e dos bancos centrais.

Poder-se-ia imaginar a solução oposta consistindo em aumentar os salários com cautela. Mas isso seria uma admissão dos danos causados pela globalização económica e, mais importante ainda, uma relegitimação do trabalho. Por conseguinte, um Canossa [3] ideológico.

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Notas

[1] As obrigações de referência do crédito nos Estados Unidos têm uma duração de dez anos.

[2] « Stop and go » é uma fórmula que entrou na linguagem económica  para descrever as políticas económicas inglesas dos anos das décadas de sessenta e setenta.

[3] Referência à Penitência de Canossa de Henrique IV (ver aqui)

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O autor: greau jean luc Jean-Luc Gréau (1943 – ), economista, antigo perito do MEDEF. Autor de Le capitalisme malade de sa finance (1998), L’avenir du capitalisme (2005), La trahison des économistes (2008), La Grande Récession (depuis 2005): Une chronique pour comprendre (2012)

 

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