O Grande Paradoxo: o Liberalismo Destrói a Economia de Mercado – Parte 1. Por Heiner Flassbeck

Espuma dos dias liberalismo destroi ec mercado

Seleção e tradução de Francisco Tavares

O Grande Paradoxo: o Liberalismo Destrói a Economia de Mercado – Parte 1

Heiner-Flassbeck Por Heiner Flassbeck

Publicado por flassbeck_logo em 18 de julho de 2019 (ver aqui)

Originalmente publicado em alemão em Makroskop

Traduzido para inglês e editado por BRAVE NEW EUROPE

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O capitalismo é celebrado pelos liberais como uma história de sucesso. Mas foi justamente o domínio do liberalismo que conduziu a economia de mercado a uma enorme crise. Uma reflexão sobre 70 anos de economia pós-guerra.

 

Em dois artigos sobre um “mundo sem interesse” (em alemão aqui e aqui) expliquei porque razão a atual situação da economia mundial difere tão fundamentalmente daquilo que durante muitas décadas foi visto como o modelo da economia de mercado. Com base em novas evidências empíricas quero aprofundar isso nesta série de artigos e proporcionar provas muito concretas daquilo que nos últimos 70 anos apenas suspeitávamos.

Qualquer um familiarizado com questões económicas reconhece o fenómeno: o capitalismo é uma excecional história de sucesso. Para o comprovar, basta comparar as condições de vida de hoje com as de há 200 anos. E realmente, não se pode seriamente negar que houve êxitos enormes ao longo dos últimos 200 anos. Ao mesmo tempo, sabemos que estes êxitos não foram de modo nenhum uniformes e estáveis, e foram acompanhados por enormes choques e distorções que repetidamente golpearam o sistema e com isso o bem estar dos trabalhadores.

As condições de vida para a larga massa da população nos países industrializados não melhoraram, de modo nenhum, de forma contínua desde o início da industrialização. Os trabalhadores tiveram de lutar duramente para poderem participar de alguma forma nas oportunidades de riqueza criadas pela economia de mercado capitalista. Há cem anos não era seguro de modo algum que o progresso então alcançado seria sustentável.

Foi somente nos últimos 70 anos, i.e. desde a Segunda Guerra Mundial, que a participação das massas se realizou em grande escala. E isso, também, aplica-se somente aos países industrializados do Ocidente. Nos países em desenvolvimento, a participação sistemática da massa dos trabalhadores nos resultados da produção é ainda a exceção (o que é verificável sobretudo na Ásia) e não a regra. Consequentemente, neste sistema aparentemente bem sucedido, além da grande pobreza absoluta, ainda existem milhares de milhões de pessoas que vivem com uma mão na frente e outra atrás e mal podem sobreviver à tona de água.

 

30 anos de sucesso: Bretton Woods e Keynesianismo

É óbvio que o período post-guerra, especialmente os 20 anos de 1950 a 1970, produziu absolutamente excelentes resultados em termos de desenvolvimento do rendimento, emprego e participação dos trabalhadores. Na Alemanha, esta fase é frequentemente atribuída ao milagre económico alemão e às políticas benignas alemãs (sob Ludwig Erhard). mas este é um dos muitos mitos que as pessoas na Alemanha evocam quando se trata de glorificar as suas próprias realizações. A era do sistema de Bretton Woods foi um tempo de grande prosperidade em todo o mundo industrializado e alguns países foram mais bem sucedidos do que a Alemanha. Mas os países em desenvolvimento associados ao sistema também beneficiaram e desenvolveram-se melhor que anteriormente e depois. Isto significa que terá havido razões para esta história global de sucesso, que foi muito além das peculiaridades alemãs e da ação do povo alemão.

No entanto, como mostra a Figura 1, as taxas de crescimento real na Alemanha durante estes anos foram mais do que impressionantes vistas desde a perspetiva atual. Nos primeiros dez anos, a taxa média de crescimento do PIB foi de 8,3%. E mesmo de 1961 a 1970, foi atingida uma percentagem de 4,5, apesar da primeira recessão ter ocorrido em 1967.

Figura 1

Crescimento real do PIB na Alemanha por comparação com o ano anterior

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Esta fase é vista, muitas vezes, como o resultado de um efeito único que rapidamente reparou a destruição da guerra e cobriu as necessidades “de recuperação” da população. Mas este tipo de análise está completamente errado. “Recuperação” e “necessidades” não constituem categorias que possam influenciar e explicar o desenvolvimento económico concreto de algum modo.

A Alemanha de Leste também quis recuperar, mas não teve possibilidades, porque as condições económicas não eram de molde a que a “procura de recuperação” pudesse ter sido satisfeita rapidamente e sem ajuda ocidental. Nos países em desenvolvimento há uma enorme necessidade e desejo de recuperação, mas isso não significa necessariamente que isso seja cumprido.

Tentarei mostrar que as condições económicas nas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial explicam este resultado. As condições básicas de investimento criadas pelo sistema Bretton Woods eram de tal modo que a dinâmica de uma economia de mercado podia claramente desenvolver-se impulsionada pelo investimento empresarial. Na Alemanha cresceu a crença, que se tornou um mito, que os êxitos estavam relacionados com “as reformas da economia de mercado” que Ludwig Erhard tinha impulsado contra o espírito dos tempos. Este é um erro tão grande como a crença na recuperação da procura nos anos de 1950.

Mesmo na Alemanha, a taxa de crescimento real caiu regularmente desde os anos 1950 (Figura 2). Desde que a Alemanha está numa posição relativamente boa devido aos seus êxitos competitivos via dumping salarial, pode-se presumir que a situação para o conjunto da Europa é dramaticamente pior. Para os EUA, por outro lado, o efeito não é verdadeiro na mesma medida, como se verá em posteriores artigos.

Figura 2

Taxa de crescimento real do PIB na Alemanha

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Olhando para a atividade de investimento das empresas, as constatações são também claras para a Alemanha: desde os anos de 1970 as coisas têm vindo a degradar-se. Excetuando uma pequena retoma no final dos anos 1980 e as consequências da reunificação alemã – que levou o investimento empresarial a um novo nível (neste contexto, as questões de definição têm um papel tão importante como as diferentes áreas cobertas) – vê-se um abrandamento ao longo do tempo. E isto apesar de desde os finais dos anos 1980 a política económica ter feito tudo o possível por estimular e estabilizar o investimento privado. A mais importante palavra chave aqui é a redução para metade dos impostos sobre as empresas.

Figura 3

Taxa nominal de investimento no setor empresarial

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Por conseguinte, deve ter havido condições no sistema de Bretton Woods as quais, em retrospetiva, criaram condições únicas para o investimento privado. Estas condições, que habitualmente são completamente ignoradas, são de natureza macroeconómica. Instituições (“a ordem económica”) e mercados individuais funcionais são uma coisa; condições favoráveis para as empresas investirem são uma outra coisa, bem distinta. As consequências da unificação na Alemanha de Leste, onde quase toda a gente pensava que o primeiro aspeto era necessário e suficiente para uma transformação em economia de mercado bem sucedida, devia ter-nos ensinado que sem um contexto macroeconómico adequado não pode haver dinâmica de mercado. Mas mesmo isso é posto de lado pelos ideólogos da economia de mercado.

Também não há dúvida de que o momento de crescimento no sistema de Bretton Woods foi acompanhado por um grande impulso nas taxas de crescimento, negociadas coletivamente, dos salários dos trabalhadores, como se pode ver na Figura 2. De 1958 (o primeiro ano com dados disponíveis comparáveis) a 1978, houve um aumento médio anual de 7,9%, o que significa que ambos os lados estavam dispostos a apostar tudo na negociação coletiva e que os empregadores sempre aceitaram que com tão elevados aumentos nominais, os trabalhadores tinham uma boa oportunidade de terem uma plena participação no crescimento da produtividade com os seus salários reais (i.e. o mesmo aumento para ambos os lados, o do trabalhador e o do empregador).

Figura 4

Aumentos salariais nos acordos coletivos no setor industrial

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Mudança espiritual e moral?

Desde o início dos anos de 1980, os aumentos de salários têm vindo a descer, e somente a unificação alemã (devido à corrida pela recuperação na Alemanha de Leste) deu um impulso aos trabalhadores. O velho modelo alemão de participação sistemática dos trabalhadores no crescimento da produtividade morreu pelo menos desde meados dos anos 1990. Desde a tomada de poder pela aliança vermelha-verde [SPD-Verdes] em 1998 e as subsequentes grandes coligações, a posição dos sindicatos e a situação dos trabalhadores deteriorou-se de tal forma que, entre 1996 e 2008 foi atingida uma taxa negativa real de crescimento dos salários, com um aumento nominal de 2,2%.

Isto é, também, o resultado de uma rigidez intelectual, dos líderes de opinião dominantes sobre a economia, cujo grande ponto em comum era a rejeição daquilo que então era visto como Keynesianismo. Não só o Keynesianismo era responsabilizado pelas crises de inflação e desemprego na sequência da explosão dos preços do petróleo, como também se pensava que os desafios de uma economia mundial crescentemente integrada só podiam ser enfrentados com uma remodelação fundamental da economia de mercado, e em particular a restauração das condições de mercado no mercado laboral.

A “mudança intelectual e moral” de Helmut Kohl de 1982 foi concebida precisamente neste sentido. Ao mesmo tempo, Ronald Reagan e Maggie Thatcher decidiram criar um sistema que eles consideravam (e os economistas detrás deles, como F. A. von Hayek) como uma verdadeira economia de mercado. Que eles tenham radicalmente acabado com a fase de maior sucesso do capitalismo é, sem dúvida, a tragédia e o paradoxo desta história.

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O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs. Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.

A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.

Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.

Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com). Editor de Makroskop, https://makroskop.eu/.

Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo não são resultado do progresso tecnológico, da globalização ou de elevados salários, mas sim da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

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