UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (300)

 

FÉRIAS (2)

 

(Texto proferido no âmbito da “FOZ LITERÁRIA”, em Maio de 2019)

-continuação da carta nº 299

A Praia de Gondarém tem cerca de 155 metros de extensão de areal e foi conhecida durante muitos anos como Praia da Conceição e mais tarde como Praia do Magalhães, a primeira, tia do segundo, pertencentes a uma família de banheiros que durante décadas tiveram a concessão de parte das praias da Foz e de Nevogilde.

O sr. Joaquim tinha ainda outras atribuições e outras características.

Montava e desmontava os paus das barracas no princípio e fim da época, punha e tirava diariamente os panos das mesmas, e guardava e recolocava na manhã seguinte, os sacos de cada uma, onde se guardavam as toalhas, as travesseiras, as mesas, as cadeiras, os baldes e mais que fosse necessário ao lazer diário durante a estadia das famílias. Quase ninguém alugava uma barraca por menos de uma quinzena, e muitos alugavam por mais de um mês.

Para além disso, e porque era amigo de copos e tainadas e também porque ganhava algum dinheirito com isso, o sr. Joaquim fazia de vez em quando uma sardinhada na areia, e, mais raramente, uma caldeirada.

Se da caldeirada eu não era fã, já da sardinhada eu salivava assim que ouvia falar que uma iria ter lugar ao fim da tarde.

Era costume da maior parte das pessoas, excepto as que moravam ali mesmo ao lado, passar o dia na praia, desde as nove da manhã até às sete e meia da tarde, almoçando de faca e garfo, no recolhimento da barraca, e dormindo depois uma pequena sesta.

Aos domingos, dia em que os habituais frequentadores descansavam e não apareciam, deixando as barracas livres, vinham de Paços de Ferreira, de Freamunde, de Lousada, de Santo Tirso, de Amarante e de outras partes, famílias inteiras passar o dia à praia. Como era costume, traziam a merenda, e não raramente havia uma família que convidava o sr. Joaquim para almoçar. Nessas alturas, e porque o repasto era sempre abundante e excelentemente regado, tornava-se-lhe impossível trabalhar de tarde e no fim do dia, obrigando os donos (concessionários) da praia, a serem eles a retirar e guardar os panos das barracas, bem assim como os sacos.

Nos dias da sardinhada, sempre um dia de semana, a meio da tarde, pelas cinco e tal, depois da hora do banho, o sr. Joaquim colocava umas pedras, já escuras de outras vezes, na areia e perto de umas rochas, quase em frente à nossa barraca, entre elas uns gravetos e bocados de madeira, e por cima, depois do fogo ateado, uma chapa, que já tinha servido montes de vezes. Na altura certa, uma a uma, centenas de sardinhas iam sendo colocadas para assar. E era ver a bicha de pessoas que se formava de imediato, cada um com um naco de broa na mão e um copo já com um qualquer líquido na outra, à espera de vez para receber a sardinha assada. E assim que se era servido, ia-se para o fim da fila, para regressar a tempo de receber outra, até acabarem.

Não sei se eram as melhores sardinhas que até hoje comi, mas tenho a certeza que nunca mais na minha vida outras quaisquer me souberam tão bem.

 

 

Mas as férias não se compunham unicamente de praia. Havia a praia e havia o campo. E o meu campo era maioritariamente passado em Paços de Ferreira.

Na altura, com a minha infância ainda a meio, o ciclismo era uma modalidade rainha em Portugal. O hóquei em patins e o futebol, eram as outras, que moviam milhares de adeptos em delírio por esse País fora.

Como muita gente da minha geração, percorria muitos quilómetros para ver os ciclistas passarem na estrada ou para assistir a um desafio de hóquei.

Nas férias de verão, as brincadeiras reflectiam essa alegria e essa “afficcion”. E havia duas maneiras de o fazer.

Durante a parte das férias que se passavam na aldeia (vila na altura e hoje cidade), a poucas dezenas de quilómetros do Porto, fazia, em conjunto com um primo que ainda hoje é um aficionado tremendo do ciclismo, uma brincadeira que julgo ser inédita.

Contada de uma maneira simples, era assim que as coisas se passavam. Cortavam-se quadradinhos de papel, pequenos, onde se escreviam os nomes e os números dos ciclistas concorrentes à prova. De um modo geral, eram os mesmos que corriam na volta a Portugal do ano em que estávamos. As equipas, claro, eram também as mesmas. Porto, Benfica, Sporting, Sangalhos, Tavira, etc.

Jogava-se de uma maneira engraçada. Como se lembrarão, alguns poucos, a rega dos campos era feita através de regos de água que percorriam um trajecto mais ou menos grande, desde o tanque onde estava armazenada até à leira a regar, com curvas largas ou em ângulos apertados. Assim, colocavam-se os quadradinhos de papel na água, e íamos seguindo o trajecto dos “ciclistas” até à leira que se pretendia regar na altura. No fim, escrevia-se numa folha de prova, a ordem de chegada, e os pontos que cada um recolhia pela classificação que obtinha. Durante o trajecto, se um papel encalhava nas pedras ou nos paus do caminho, era de imediato solto para continuar viagem. Se insistia em encalhar, era desclassificado. Havia várias etapas, cada uma no seu campo de cultivo, ou em trajectos diferentes no mesmo campo. Estas corridas, demoravam semanas a terminar uma vez que no fim de cada etapa, era necessário secar os ciclistas. Cada etapa demorava cerca de duas horas, pelo que estávamos muito tempo entretidos com estas brincadeiras.

Durante a parte das férias que se passavam na praia, as brincadeiras eram outras. Havia corridas a pé de uma praia a outra, jogos de matraquilhos (na Praia do Molhe), natação nas águas frias da Foz do Douro (Praia de Gondarém), saltos para a água (Praia do Molhe), jogos com o prego, à babona, e acima de tudo, corridas de sameiras. Era o nosso jogo por excelência, que demorava horas a executar. Era preciso construir a pista, em areia, com subidas íngremes, descidas, pontes estreitas, saltos, túneis, zonas apertadas, zonas largas, metas volantes e meta final. Quem saísse fora da pista voltava à meta volante anterior. O jogo era simples. Pegava-se nas sameiras, e na parte interior colocava-se o número e o nome do ciclista. Eu corria com o Joaquim Leão,

Um bocado de casca de laranja para dar peso no interior da sameira, ou uma tampa plástica de garrafa com areia dentro, para dar o mesmo efeito, e toca a jogar. Na altura eu era muito bom no jogo, tinha certeza na mão, força nos dedos e técnica, que era bem necessária. Havia quem tomasse nota das classificações das etapas, e no fim da corrida, com meia dúzia de etapas que se prolongavam por uma semana, o que ganhava sentia um orgulho imenso e era considerado o melhor pelos outros.

Na altura, a meio da tarde, logo após a hora do banho, não esquecer que fazíamos as três horas inteirinhas de digestão, ao segundo, passava a senhora da língua da sogra, ou a das bolas de berlim em miniatura, e, antes ou depois, o homem das batatas fritas à inglesa. Quem tinha dinheiro (éramos poucos os que o tinham), comprava alguma dessas coisas. Eu, tradicionalmente, esperava pelo caramileiro, depois de comer um pacote de batatas. O homem, todo vestido de branco, vendia caramilos, espécie de rebuçado em forma de guarda chuva, doce, muito doce, que eu me deliciava a comer. Na barraca de meus pais, estava à minha espera um pirolito que avidamente bebia a acompanhar o caramilo.

Eram tempos bons, esses. Sabíamos brincar. Inventávamos brincadeiras. Não havia brinquedos caros que brincavam sozinhos (por vezes nem brinquedos havia), e não nos sentíamos tristes por não termos mais nada para fazer.

 

 

 

 

 

Ah, esqueci-me de dizer, as sameiras, nome que na nossa zona norte dávamos às coisinhas que usávamos para brincar, eram as tampas das garrafas dos refrigerantes, que coleccionávamos (havia quem tivesse dezenas, todas diferentes).

Hoje, infelizmente perdeu-se o uso do nome, e como outras coisas que nos foram impostas por terceiros e às quais mudaram o nome, passaram a chamar-lhes caricas (caramba, que raio de nome).

 

E havia ainda o jogo das cartas, que todos conhecemos e acerca dos quais me vou abster de falar.

Vou somente contar-vos uma curiosidade.

Num baralho de cartas, aquelas com que jogamos a sueca, o burro, a bisca (lambida ou não), o crapô, o King, etc., há quatro cores, essas quatro cores representam as quatro estações de cada ano, há 52 cartas que representam as 52 semanas do ano. Há doze figuras que representam os dozes meses, e a soma de todas os pontos das cartas, mais o Joker é de 365, o número de dias de cada ano.

 

E nem vos falei das férias na montanha, das duas semanas inesquecíveis que em cada ano passava, numa aldeia para lá do Marão. Fica para outra altura.

 

NEVOGILDE – PRAIA DE GONDARÉM

 

PRACETA LUÍS DE CAMÕES – GILREU

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E… sobre os Capões de Freamunde, também terra da minha infância, cuja festa dos 300 anos se celebra no próximo dia 13 de Dezembro.

Cá tenho as minhas razões
Ou não fosse eu mulher
Vendo p´ra fora os capões
Que em casa ninguém os quer

Somos capões, sim Senhor
A natureza a brincar
Tirou ao galo o melhor
Pô-lo no dono a dobrar

O frango vai ser capado
E o que mais lhe vai doer
É ter um harém privado
E não cumprir o dever

Vá comprar o seu capão
Dia treze, não se importe
Não ceda à superstição
Treze em Freamunde é sorte

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FAZ 500 ANOS

20 de Setembro de 1519 – Fernão de Magalhães, navegador, filho de Rodrigo de Magalhães e de Alda de Mesquita, que terá nascido em Gaia (ou no Porto), parte de Espanha (San Lucar de Barrameda) na primeira viagem de CIRCUM-NAVEGAÇÃO.

sobre este assunto  pode ler a Carta do Porto nº 292

Realiza-se no próximo Sábado, 21/9 pelas 16h., no Mosteiro de Corpus Christi de Gaia, a cerimónia de Encerramento, com a apresentação do Catálogo da Exposição, pelo Director do Museu Nacional da Imprensa, Luís Humberto Marcos, Palestra alusiva ao tema “Vila Nova de Gaia no tempo de Fernão de Magalhães”, proferida pelos Historiadores e Professores Francisco Ribeiro da Silva e Amândio Barros, e moderação do Historiador J. A. Gonçalves Guimarães.

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DE FELGUEIRAS PARA O GILREU

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About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

5 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (300) | joanvergall

  2. Adriano Silva

    Fantástico! Eu tive milhares de sameiras (caricas), porque fazia coleção desde criança. Bela descrição desses tempos… que eu não conheci… Parabéns!

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  3. António Martins

    Que saudades das corridas de sameiras…abraço

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  4. Maria Filomena MCS

    Todas estas histórias do nosso passado são uma delícia! Correidas de sameiras também joguei com os meus irmãos…Como é bom relembrar!
    Beijos para ti Zé!

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