O Grande Paradoxo: o Liberalismo Destrói a Economia de Mercado – Parte 2. Por Heiner Flassbeck

Espuma dos dias liberalismo destroi ec mercado

Seleção e tradução de Francisco Tavares

O Grande Paradoxo: o Liberalismo Destrói a Economia de Mercado – Parte 2

Heiner-Flassbeck Por Heiner Flassbeck

Publicado por flassbeck_logo em 29 de julho de 2019 (ver aqui)

Originalmente editado em alemão em Makroskop

Traduzido para inglês e editado por BRAVE NEW EUROPE

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O capitalismo é celebrado pelos liberais como história de sucesso. Mas, desde que os liberais tomaram o poder, o capitalismo perdeu uma enorme quantidade do seu fascínio. Não existe política correta quando o pensamento que lhe subjaz está errado.

 

A esfera pública das democracias ocidentais, i.e. políticos, meios de comunicação e a grande maioria dos cientistas sociais, tende a interpretar os acontecimentos políticos somente do ponto de vista político. Assim, o grande momento de viragem no início dos anos de 1980, quando Ronald Reagan, Helmut Kohl e Margret Thatcher subiram ao poder, é visto como um acontecimento normal atribuível ao fracasso político da esquerda e, portanto, ao Keynesianismo no seguimento das crises do petróleo – conduzindo logicamente a uma nova política económica.

De um ponto de vista meramente político isto está correto. Mas tendo em conta os antecedentes intelectuais, i.e. a teoria sobre a qual se baseia a política económica, deixamos de poder falar como se fosse um acontecimento normal. A “mudança intelectual e moral” forjada por Helmut Kohl e outros “líderes” conservadores foi, na realidade, uma mudança normal de uma política de centro-esquerda para uma política de centro-direita. Intelectualmente, todavia, foi um passo atrás, porque estava baseada em ideias da década de 1920 (há muito fracassadas e desacreditadas).

 

Política do lado da oferta

Simplesmente não havia nada de novo. A política que veio substituir o Keynesianismo que tinha a sua ênfase na procura, foi apelidada de “política do lado da oferta” e estava referenciada à Lei de Say do século 18 (“A oferta cria a procura”). Mas, como mostrei em 1982 (no ensaio “O que é a política da oferta?” publicado na revista “Konjunkturpolitik”), essa era uma ideia intelectualmente falida. Pois foi apenas o retorno ao pensamento microeconómico que tinha sido exposto quanto à sua estreiteza com o advento do pensamento macroeconómico trazido pela revolução keynesiana.

Seríamos considerados loucos se os físicos de hoje voltassem aos princípios newtonianos e toda a teoria subsequente desenvolvida e provada muitas vezes desde então fosse declarada irrelevante. Poder-se-ia obter sucesso académico em economia simplesmente redescobrindo as velhas heresias e ignorando os inegáveis avanços do Keynesianismo que se encontra no pensamento macroeconómico moderno. Por outras palavras, o lado da procura foi novamente retirado do processo de tomada de decisão em que o empreendedor (investidor) se encontrava, e isto após a descoberta (nos anos 30) de que o lado da procura é absolutamente necessário para fazer qualquer comentário relevante.

Escrevi sobre isso há quase vinte anos num ensaio sobre o tema da oferta e da procura:

“Esta é a diferença crucial entre política de oferta e de procura. Enquanto a primeira, da oferta, espera pelos efeitos “de médio-prazo, estruturais” sem ter em linha de conta a situação geral, a política de procura foca-se na melhoria das condições gerais sob as quais as empresas operam dentro do período de tempo em que têm de agir. Isto é na verdade “o curto prazo”. No mundo real, todavia, não existe outro quadro temporal para os empresários. Aquilo a que os decisores políticos da oferta chamam “o médio prazo” significa tão somente isto: se tudo o resto correr bem, a minha decisão melhorará o resultado geral um pouco. No entanto, a política da oferta nada pode dizer sobre se tudo o resto está a correr bem; pelo contrário, ela depende de que tudo corra bem, i.e. do impulso que venha de outros lados.”

Como se pode esperar fazer política económica com base numa teoria já tão limitada, que seja melhor do que uma baseada num horizonte mais vasto e, por conseguinte, mais relevante? Mas a heresia mais impressionante é a pobreza intelectual da reviravolta mental na teoria monetária e do mercado de trabalho. A fim de despojar o Estado de qualquer pretexto para uma intervenção preventiva no mercado monetário, voltaram à secular “equação quantitativa”, que nunca serviu de base à política monetária, e, por outro lado, a um modelo de mercado de trabalho que, por sua vez, simplesmente ignorou os efeitos da procura e transformou o mercado de trabalho num mercado como qualquer outro.

Os monetaristas em torno de Milton Friedman (que era ele próprio um brilhante vendedor) alegaram simplesmente que era possível encontrar uma oferta de massa monetária cujo crescimento podia ser controlado a qualquer momento pelo banco central e estaria estreitamente ligado à evolução da inflação, porque a chamada velocidade da moeda era facilmente previsível.

Nunca houve uma justificação cientificamente sólida para isto. E no entanto, esta afirmação tornou-se a base de uma política na Alemanha durante trinta anos que, sob o pretexto de um controlo constante da inflação por parte do banco central independente, restringiu drasticamente as possibilidades de desenvolvimento e foi, portanto, extremamente dispendiosa.

A ligação decisiva

Há algum tempo (aqui em alemão) mostrei e expliquei brevemente a decisiva relação empírica (Figura 1). Nos primeiros trinta anos da segunda metade do século passado, a relação entre taxas de juro e crescimento (ambas nominais aqui) nos EUA foi exatamente a oposta da verificada nos trinta anos que se seguiram. Nos primeiros trinta anos, as taxas de juro foram quase sempre mais baixas que a taxa de crescimento (que também pode ser visto como uma espécie de retorno macroeconómico do investimento), e nos trinta anos que se seguiram foram quase sempre mais elevadas.

Figura 1

Taxa de crescimento e taxa de rendimento de títulos do governo nos EUA (em %)

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O mesmo retrato pode ser observado em todas as economias importantes ocidentais – excepto na Grã-Bretanha, que não passou por um milagre económico no período de Bretton Woods e era vista como o “paciente doente” da Europa. Durante a era de Bretton Woods houve condições de investimento favoráveis, que somente regressaram após a grande crise financeira de 2008/2009. Mas o regresso a um rácio normal não parece ter tido o mesmo efeito que outrora, vistas as baixas taxas de inflação e de crescimento que apresenta atualmente a economia mundial.

Se dividirmos as décadas em conformidade, o resultado para a Alemanha é claro (Figura 2). Com exceção dos anos de recessão de 1966 e 1967, bem como de 1974 e 1975, as taxas de juros na primeira fase estavam bem abaixo da taxa de crescimento.

Figura 2

Taxa de crescimento e taxa de rendimento de títulos do governo na Alemanha 1956-1979

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Nas décadas seguintes, as condições mudaram, e ao invés; pode-se também dizer que a economia de mercado estava de pé sobre a sua cabeça. (Figura 3).

Figura 3

Taxa de crescimento e taxa de rendimento de títulos do governo na Alemanha 1980-2009

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Exceptuando os anos 1990 e 1991, os anos da unificação alemã (e um episódio curto em 2006 e 2007), a taxa de juro foi sempre superior à taxa de crescimento e, portanto, se avaliada em função de “condições de mercado razoáveis”, sempre demasiado elevada. Isto aplica-se exatamente do mesmo modo a França e Itália (Figuras 4 e 5 bem como 6 e 7).

Figura 4

Taxa de crescimento e taxa de rendimento de títulos do governo em França 1960-1979

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Figura 5

Taxa de crescimento e taxa de rendimento de títulos do governo em França 1980-2009

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Figura 6

Taxa de crescimento e taxa de rendimento de títulos do governo em Itália 1960-1979

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Figura 7

Taxa de crescimento e taxa de rendimento de títulos do governo em Itália 1980-2009

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Particularmente impressionante é o caso da Itália, em que no primeiro período não existe qualquer contacto entre as duas curvas e no segundo período somente em três curtos momentos, em que a taxa de juro não foi superior à taxa de crescimento, i.e. as duas taxas apenas se tocaram.

No terceiro destes artigos o leitor poderá ver quais são as razões decisivas para estas situações e porque é que os EUA não são afetados da mesma forma que a Europa pela fraqueza do crescimento que isso realmente implica.

________________

O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs. Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.

A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.

Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.

Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com). Editor de Makroskop, https://makroskop.eu/.

Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo não são resultado do progresso tecnológico, da globalização ou de elevados salários, mas sim da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

 

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