O nosso conjunto de ferramentas económicas que tem vindo a encolher-se. Por Jayati Ghosh

Espuma dos dias_transmissao conhecimento

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Agradecemos a Project Syndicate e a Jayati Ghosh a permissão para a publicação do presente texto

 

O nosso conjunto de ferramentas económicas que tem vindo a encolher-se

Jayati Ghosh Por Jayati Ghosh

Editado por Project syndicate em 10 de outubro de 2019 (ver aqui)

38 O nosso conjunto de ferramentas económicas que tem vindo a encolher

 

Nas últimas quatro décadas, os principais economistas e formuladores de políticas públicas têm estado apegados a dogmas fixos. A sua crença cega na disciplina e consolidação orçamental, e a consequente recusa em considerar a possibilidade de mais gastos públicos mesmo numa recessão óbvia, ameaça agora a própria estabilidade das sociedades.

 

NOVA DELI – No mundo natural, os seres humanos destacam-se pela complexidade das ferramentas, tecnologias e instituições que têm desenvolvido. De acordo com o antropólogo Joseph Henrich, devemos esse sucesso à nossa capacidade de acumular, compartilhar e adaptar informações culturais através das gerações. Mas assim como a interconexão faz com que os nossos “cérebros coletivos” se expandam ao longo do tempo, o isolamento pode fazer com que eles diminuam. Os economistas devem tomar nota disso.

Uma vez que a inovação e a acumulação são processos socioculturais, populações cada vez maiores e mais interconectadas criam ferramentas cada vez mais sofisticadas. A expansão intergeracional dos nossos cérebros coletivos depende, segundo Henrich, da “capacidade das normas sociais, das instituições e das psicologias que elas criam” para encorajar as pessoas a “gerar, compartilhar e recombinar livremente novas ideias, crenças, conhecimentos e práticas”.

Isolamento disruptivo

Para se ver como o isolamento pode interromper e até mesmo reverter esse processo, considere a Tasmânia, que há cerca de 12.000 anos foi separada da Austrália continental quando o derretimento das calotas polares de gelo inundou o Estreito de Bass. Restos arqueológicos indicam que, antes dessa separação, as populações da Tasmânia e do continente possuíam as mesmas capacidades – tal como fazer fogo – e tecnologias, incluindo o boomerang, o arremessador de lanças e ferramentas de pedra polida e ossos.

No entanto, quando os europeus chegaram à Tasmânia no final do século XVII, os seus habitantes utilizavam apenas 24 das ferramentas mais simples que qualquer população humana tinha desenvolvido. Não só não tinham sido capazes de desenvolver novas competências e tecnologias, como também tinham deixado de utilizar algumas das que possuíam anteriormente. Em suma, o isolamento geográfico levou-os a perder um conhecimento cultural significativo ao longo de gerações.

Os Tasmanianos não escolheram o seu isolamento. No entanto, hoje em dia, algumas sociedades e grupos sociais estão a fazer exatamente isso. E, tal como aconteceu com a Tasmânia, isso está a ter efeitos regressivos, incluindo a perda tanto do conhecimento existente como de alguma capacidade de gerar novos conhecimentos e inovação.

Cada vez mais fechados em si mesmos

A mesma coisa pode acontecer com grupos profissionais e disciplinas académicas. Os economistas da corrente dominante e decisores políticos económicos são um exemplo disso mesmo. Durante quatro décadas, essa “tribo” tem estado apegada a um dogma particular, compreendendo um conjunto restrito de princípios e mecanismos. Embora o propósito da tribo seja compreender – e servir os interesses de – uma sociedade muito mais ampla, ela tornou-se cada vez mais voltada para dentro, resistindo às interações reais com os outros.

O isolamento intelectual resultante não só tornou os membros da tribo incapazes de “compartilhar, gerar e recombinar” ideias que não estão em conformidade com a ortodoxia, mas também os levou a rejeitar ferramentas de política que eram amplamente utilizadas no passado. O exemplo mais significativo é a política orçamental, que tem sido repetidamente rejeitada como uma resposta à estagnação ou declínio da procura e à queda do investimento privado durante as crises económicas.

Esta atitude tem sido absolutamente evidente desde a crise financeira global de 2008. A crise deveria ter sido uma poderosa assunção da realidade, mas não conseguiu arrancar os principais economistas e formuladores de políticas do seu isolamento intelectual auto-imposto. Como resultado, eles concentraram-se quase que exclusivamente na política monetária, enquanto descartaram simplesmente a política orçamental.

Desde 2008, os bancos centrais das economias avançadas imprimiram mais de US$ 20 milhões de milhões e cortaram as taxas de juros. Além disso, as políticas de crédito fácil permitiram que a dívida global aumentasse em cerca de US$ 57 milhões de milhões, atingindo mais de três vezes o PIB global.

Para estarmos certos, há que reconhecer que esta dependência da política monetária – e dos instrumentos específicos que foram utilizados – refletiu em grande medida o poder de pressão do lóbi do setor financeiro, e não uma inerente falta de conhecimento. Mas, hoje, até mesmo alguns atores financeiros estão a pedir políticas orçamentais mais proativas – e por uma boa razão: a recuperação, que sempre foi fraca, está em risco de ser revertida.

Sobretudo ineficaz

Com as taxas de juros ainda ultra baixas ou mesmo negativas em muitos países, aos governos restam poucos instrumentos de política monetária para responder a uma desaceleração, muito menos a uma nova recessão. No entanto, recusam-se obstinadamente a empregar a política orçamental – e, em particular, a aumentar a despesa pública – optando, em vez disso, por implementar cortes de impostos que são, na sua maioria, ineficazes para revitalizar o crescimento real.

Neste sentido, pode dizer-se que os conjuntos de ferramentas de política económica dos países encolheram, tal como as caixas de ferramentas físicas dos Tasmânios. Isso reflete uma perda de conhecimento sobre multiplicadores orçamentais, que devem – e, historicamente fizeram-no – orientar os gastos do governo durante as crises. A crença cega na disciplina orçamental e na consolidação, reforçada ao longo de décadas de isolamento, ameaça agora a própria estabilidade das economias.

Os Tasmanianos sofreram terrivelmente por terem ficado para trás, sendo a maioria abatidos por europeus muito mais avançados tecnologicamente no século XIX. Se a tribo dos economistas e formuladores de políticas económicas continuar no seu caminho regressivo, os resultados também serão desastrosos, não apenas para a própria tribo, mas também para as sociedades em que essa regressão opera.

Ainda há tempo para essas sociedades se salvarem, fazendo com que os seus cérebros coletivos se sobreponham à evidente regressão dessa tribo poderosa. No entanto, se o vão conseguir ou não é o que falta ver.

 

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Republicação proibida. Acreditação plena de direitos de autor para Project Syndicate

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A autora: Jayati Gosh, [1955 – ], doutorada em Economia (Universidade de Cambridge, 1983), focada na economia do desenvolvimento. É desde 1986 professora na Universidade Jawaharlal Nehru de Nova Deli, Secretária Executiva de International Development Economics Associates, e membro da comissão Independente para a Reforma da Tributação Internacional das Empresas.

Principais publicações:

  • “The costs of coupling: The global crisis and the Indian economy”, in Cambridge Journal of EconomicsSymposium on the Financial Crisis July 2009, 33: 725–739 (with C. P. Chandrasekhar).
  • “Global crisis and beyond: Sustainable growth trajectories for the developing world”, International Labour Review, July 2010.
  • “The unnatural coupling: Food and global finance”, Journal of Agrarian Change, Symposium on the Global Food Crisis, January 2010
  • “The social and economic impact of financial liberalisation: A primer for developing countries”, UN-DESA Working Paper, New York, and in Jose Antonio Ocampo and K.S. Jomo (eds) Policy Matters, Opus Books and Zed Books
    “Women, capital and labour accumulation in Asia”, Monthly Review, January 2012, Vol 63 Issue 8, pp 1-15
  • India and the international economy, edited volume , Oxford University Press New Delhi in collaboration with ICSSR, forthcoming.
  • Industrialization of China and India: The impacts on the world economy, Routledge (Taylor and Francis) 2013 (volume co-edited with Nobuharu Yokokawa and Robert E. Rowthorn
  • After Crisis: Crisis, recovery and adjustment in East Asia, (volume co-edited with C. P. Chandrasekhar) Tulika Publishers, New Delhi, 2009

 

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